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O passado dos videogames está desaparecendo

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Jogos clássicos são mais do que meros entretenimentos eletrônicos. Eles são uma parte viva da história da tecnologia, e também têm um significado pessoal em nossas vidas e memórias.

Quem nasceu de 1979 para frente (é o meu caso) viveu e testemunhou a construção da história dos videogames. E essa cultura se tornou tão forte que, neste momento, temos essa indústria mais forte e popular que o cinema, que possui mais de 100 anos. Se hoje nossos filhos e netos jogam em consoles e smartphones, é porque muitos de nós aprendemos a amar a fazer isso em nossa infância e adolescência.

A preservação desses tesouros do passado está se tornando uma tarefa cada vez mais complicada, colocando em perigo muitos dos jogos que nos encantaram há uma década, duas décadas ou até mesmo três décadas.

E a culpa disso é das empresas que trocam os pés pelas mãos na hora de preservar esse legado digital.

 

Jogos clássicos de videogames estão desaparecendo

 

Um estudo recente divulgado pela Video Game History Foundation revelou uma realidade alarmante: 87% dos jogos clássicos estão em “risco crítico”, ou seja, correm o risco de desaparecer completamente. Vale ressaltar que esses dados se referem apenas aos jogos lançados no mercado dos Estados Unidos. Logo, é seguro presumir que o percentual global seja ainda maior.

É uma porcentagem elevadíssima. E me arrisco a dizer que nem era preciso um estudo para que qualquer jogador, independentemente do seu nível de envolvimento, sinta esse comportamento na prática.

Um exemplo bem simples: eu tenho minha conta Xbox Live desde 2013 (pelo menos) e, ao longo de uma década, adquiri uma série de jogos em formato digital. Hoje, eu não tenho acesso a títulos que paguei pelo direito de utilização, porque ou a Microsoft não deixou esses jogos retrocompatíveis com os seus consoles mais modernos, ou porque a gigante de Redmond decidiu retirar os jogos de suas lojas.

Hoje, eu não tenho acesso aos jogos Madden NFL 15 e Madden 25… por causa da Microsoft.

 

Fim das mídias físicas entra nessa equação

Conforme o tempo passa, o perigo de perdermos esses jogos clássicos se torna cada vez mais iminente. A disponibilidade de unidades de segunda mão, que ainda circulam no mercado, diminui gradativamente, até chegarmos a um ponto sem retorno.

E isso também e de responsabilidade dos fabricantes dos consoles, que retiram os produtos do mercado e trabalham incansavelmente para acabar com o mercado paralelo de comercialização de jogos. Para muitos de nós, a revenda era a única possibilidade de adquirir jogos, pois no Brasil os preços dos produtos relacionados ao segmento de videogames sempre foram elevados.

Ao analisar mais detalhadamente os dados desse estudo, observa-se que apenas 13% dos jogos lançados antes de 2010 estão disponíveis para compra atualmente. Esse número é possível graças ao impulso das lojas online que oferecem formatos digitais.

Por outro lado, as mídias físicas desapareceram, pela evolução natural da tecnologia, e porque Sony, Microsoft e (em menor porção) Nintendo trabalharam para exercer um controle ainda maior sobre suas respectivas propriedades intelectuais. E a justificativa para isso sempre foi o combate à pirataria.

Isso… e aumentar as margens de lucro de cada título, obviamente.

 

Os principais destaques do estudo

O estudo foi realizado utilizando uma lista aleatória de 1.500 jogos provenientes de uma fonte confiável. Durante sua condução, foram investigados diferentes ecossistemas de jogos, que foram categorizados como “abandonados”, “descuidados” ou “ativos”.

Ao longo da análise, os números se agravaram rapidamente, levando à expansão do estudo para incluir um total de 4.000 jogos. Entre as conclusões mais relevantes, destacam-se:

  •     Apenas 12% do catálogo da PlayStation 2 (PS2), considerado o console de videogames mais vendido da história, resistiu à prova do tempo.
  •     Estima-se que cerca de 1.000 jogos únicos tenham desaparecido quando as lojas online do Nintendo 3DS e Wii U foram encerradas.
  •     Leis obsoletas de proteção de direitos autorais nos Estados Unidos dificultam a preservação dos jogos clássicos.
  •     Em resposta ao amplo debate contra essas leis, espera-se uma revisão para 2024.

O estudo completo, com 51 páginas repletas de informações, pode ser acessado através deste link. Para uma leitura mais confortável em outro dispositivo, é possível fazer o download do documento sem nenhuma dificuldade.

 

Parte da nossa história pode desaparecer

Os videogames são muito mais do que meros produtos de entretenimento. Eles também desempenham um papel essencial em nossa cultura, refletindo aspectos importantes da sociedade de diferentes épocas e mostrando a evolução tecnológica ao longo dos anos. Seu valor como patrimônio cultural e histórico é indiscutível e deveria prevalecer acima de qualquer legislação de direitos autorais.

Tal e como acontece com o cinema, a música, a literatura, as artes plásticas e outras formas de expressão humana, os jogos de videogames falam muito sobre quem nós como humanidade ou coletivo organizado fomos, onde estamos e para onde vamos. O desaparecimento dos jogos clássicos é algo ainda mais alarmante do que parece.

Existe uma teoria que diz o seguinte: “quem controla o passado, controla o presente”. E os fabricantes de consoles e desenvolvedoras de jogos de videogames não podem controlar a nossa história como coletivo e indivíduo de forma irresponsável e, principalmente, sem se importar em nada com os investimentos que os jogadores fizeram, com o impacto desses jogos nas vidas de pelo menos três gerações, e com a memória afetiva que todos carregam por causa dessas histórias contadas por dispositivos eletrônicos que sempre representaram a mais moderna tecnologia.

Chega a ser contraditório ver os fabricantes apagando esses jogos de nossas vidas. E fica evidente que nenhuma das empresas envolvidas entendeu que todos nós ainda estamos envolvidos com os jogos de videogames porque essa memória do passado permaneceu viva, impulsionando essa paixão para as gerações que vieram depois de nós.

Marginalizar e criminalizar a emulação é uma tática burra de executivos imbecis, que só estão pensando no lucro imediato. Não entenderam que o mercado é enorme, com diferentes tipos de jogadores, com uma margem de crescimento absurda para a comercialização de títulos para todas as idades. Não permitir que as pessoas joguem os games de consoles que essas empresas retiraram do mercado e não ganham um centavo sequer com isso é uma postura retrógrada e preocupante.

A preservação dos jogos clássicos é essencial para garantir que futuras gerações possam apreciar e compreender o legado dessas obras-primas interativas. É necessário um esforço coletivo, da indústria, dos legisladores e dos próprios jogadores para que esses jogos sejam conservados, garantindo a disponibilidade desses títulos no futuro.

Não é apenas o passado dos videogames que está em jogo. É parte da nossa história. É o nosso passado gamer que está ameaçado.

E isso é algo muito sério.


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