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Alan Wake 2, e o início do fim dos videogames como conhecemos

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Aconteceu recentemente a edição 2023 da PlayStation Showcase, que é a forma da Sony se antecipar à concorrência que ainda participava da E3. Mas como a feira de videogames de Los Angeles está morta e enterrada, temos aqui uma apresentação mais tranquila e casual para os fãs de games.

Um dos destaques do evento foi o trailer de Alan Wake 2, um jogo que promete agradar em cheio os fãs da franquia. O único problema (e sempre tem um problema, pois nada é perfeito nesse mundo), é que a Remedy pegou muita gente de surpresa ao anunciar que o jogo será lançado de forma exclusiva para o formato digital.

E aqui, temos um precedente muito perigoso para o mundo dos games, apesar de ser mais um sinal de um futuro que considero como inevitável.

 

Jogos exclusivos em digital para combater a alta dos preços

A Remedy alega que seguiu o fluxo da história, já que estamos diante da primeira geração de consoles de videogames que contam com opções para uso exclusivo em formato digital.

Tanto a Sony com o PlayStation 5 Digital Edition como a Microsoft com o Xbox Series S são responsáveis diretas pela mudança de comportamento no mundo dos videogames. E nós, jogadores, caímos como patinhos nessa.

Até porque propostas como a Xbox Live Gold, Game Pass, Game Pass Ultimate e PlayStation Plus existem em nossas vidas há pelo menos uma década. Sem falar na Steam e outras propostas similares.

E… parando para pensar… alguns nem usam mais os consoles para jogar, pois smartphones, tablets e Smart TVs já são compatíveis com a plataforma Xbox, reproduzindo os jogos na nuvem com resultados bem aceitáveis.

Logo, não vejo espaço para um DVD com um jogo de videogame no cenário atual. E o “novo normal” é mesmo o lançamento exclusivo dos principais jogos em formato digital.

O segundo motivo da Remedy em lançar Alan Wake 2 de forma exclusiva no digital é driblar um possível escalonamento de preços, algo que está se estabelecendo na indústria dos videogames, principalmente depois da pandemia.

Os jogos AAA custavam lá fora em torno de US$ 60. Aí, veio o NBA 2K e inaugurou a era dos US$ 70 para essa categoria de games. E alguns desenvolvedores flertam com a possibilidade de cobrar US$ 80 por um jogo de videogame que, em alguns casos, nem merece custar esse valor.

Cyberpunk 2077 tinha que pagar para os jogadores por entregar aquela porcaria de jogo, por exemplo.

É um argumento válido, mas que cria efeitos colaterais diretos para uma grande comunidade de jogadores, que não vai querer lidar com a indigestão que a decisão pode causar.

Mas vamos avançar nas justificativas da Remedy para a sua decisão.

 

Por que fazer duas coisas quando pode fazer uma só?

O terceiro argumento da Remedy é bem inteligente, e faz sentido no mundo prático.

Quando você compra um jogo em mídia física para um console de última geração, é obrigado a fazer o download de conteúdos adicionais que são instalados de forma obrigatória no console. Sim ou sim.

Logo, a Remedy quer evitar esse trabalho extra para o jogador, na tentativa de melhorar a experiência de uso.

O único grande problema desse argumento é que os consoles em formato digital oferecem um espaço de armazenamento que é simplesmente ridículo (825 GB no PS5 Digital, 512 GB no Xbox Series S), obrigando aos jogadores a remover jogos para instalar outros títulos para não investir ainda mais dinheiro na compra de espaço de armazenamento.

O que é “menos pior” no caso de Alan Wake 2 é que esse jogo só deve sair para PS5, Xbox Series e PCs, evitando assim o indesejado “assets”, que eram necessários para melhorar o desempenho dos jogos da geração anterior dos consoles da Sony e da Microsoft.

Mesmo assim: o jogo vai ocupar mais espaço de armazenamento nos consoles em comparação com a oferta do mesmo jogo em formato de mídia digital.

Aqui, todo mundo sai perdendo.

 

Um precedente perigoso

A Remedy não tem planos para lançar Alan Wake 2 em formato físico no futuro, e tem motivos razoáveis para não mudar de ideia… no ponto de vista empresarial, evidentemente.

Os fãs de games obviamente não gostaram da notícia. Se bem que poderia ser pior: Redfall foi lançado em formato físico, e basicamente era o código de download, algo que poderia ser feito por um simples pedaço de papel ou, olha só você – que irônico – uma sequência de números ou QR code digital.

Lançar mídia física para autorizar o download de um jogo é dar na cara dos gamers, que já sofrem com os preços caros cobrados pelos produtos.

O grande problema da decisão da Remedy e de vários outros desenvolvedores de jogos de videogames (e devo aqui colocar a Sony, a Microsoft, a Valve e várias outras empresas do setor) é que os gamers ficam a mercê das marcas, que estão sempre jogando a favor delas mesmas.

Eu preciso recordar a todos tudo o que aconteceu com aqueles infelizes que apostaram no Google Stadia, plataforma de streaming de videogames que prometeu mundos e fundos, mas morreu mais rápido do que o esperado, deixando os gamers que investiram no serviço completamente abandonados no churrasco da vida… sem os jogos!

E o que é mais irônico nessa história é que a própria Remedy já foi protagonista dos riscos de desaparecimento de títulos em formato digital. Em 2017, Alan Wake para Xbox 360 foi removido do mercado por problemas com os direitos autorais da trilha sonora do jogo (e até por causa disso esse título recebeu uma remasterização).

 

A morte do mercado de revenda e da preservação histórica

Além de todos os efeitos colaterais apresentados até agora, a decisão pela exclusividade de lançamentos dos jogos de videogame em formato digital tem como resultado prático a morte do mercado de segunda mão, algo que a indústria quer acabar a todo custo porque, oras… não vamos ser ingênuos aqui… isso não gera lucro para essas empresas.

Mesmo que os gamers sejam muito criativos para encontrar alternativas para obter jogos mais baratos, o formato digital é muito mais fechado do que a compra de um DVD ou Blu-ray. E dessa forma, os títulos deixam de ganhar uma segunda ou terceira vida nas mãos dos jogadores.

Aliás, o mercado de games de segunda mão já sentiu os impactos de toda essa dinâmica dos últimos anos, com os preços dos jogos usados aumentando exponencialmente, principalmente depois da pandemia. Coincidência ou não, está mais difícil comprar e vender esses títulos, o que prejudica em larga escala os jogadores que não podem comprar esses games nos valores cobrados pela indústria.

E por falar nisso… já que estou perto do fim desse conteúdo…

O fim do legado…

Sem as mídias físicas, os jogos não podem ser preservados. Não poderemos recuperar esses títulos no futuro sem depender, de forma obrigatória, dos desenvolvedores e das gigantes do setor, que controlam tudo com mãos de ferro.

Algo que não aconteceu nas gerações anteriores.

Hoje, a nostalgia e a onda retrô permitiram que milhões de jogadores ao redor do mundo recuperassem os jogos do passado para o presente, e as novas gerações estão conhecendo os games que estimularam pais e avós a ingressar neste fascinante universo.

Agora, esse legado corre o sério risco de desaparecer, promovendo a morte do nosso passado gamer de forma quase implacável.

A ausência de formatos físicos não apenas dificulta o armazenamento e a conservação dos jogos, mas também a possibilidade dos futuros jogadores conhecerem o passado e compreenderem como chegamos até aqui.

E… antes que você diga que eu não falei da Nintendo neste artigo… a teimosa empresa japonesa tem a sua participação nessa mecânica nefasta, fechando as portas das lojas do 3DS e do WiiU, controlando de forma irritantemente patética as suas propriedades intelectuais do passado e travando uma batalha mordaz contra os adeptos da emulação.

As empresas envolvidas no processo deveriam ter uma responsabilidade legal ou um entendimento prático de que os jogos que nós compramos deveriam ser efetivamente nossos, mas não é isso o que acontece na realidade. Nós pagamos pelo direito de executar esses jogos nas plataformas, mas não somos proprietários daquilo que pagamos.

Eis os efeitos práticos da realidade digital, amigos. E temos que lidar com isso. Infelizmente.


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