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Uma geração completamente desconcentrada

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Eu pergunto, amigo leitor jovem millenial que, por obra do mero acaso, começou a ler este artigo: quanto tempo você consegue ficar longe do smartphone para ver qualquer coisa enquanto está lendo um livro, assistindo a um filme ou trabalhando com o computador?

Muitas pessoas afirmam que perderam a concentração por causa das pequenas olhadas no smartphone, e isso se tornou um comportamento mais comum do que se pode imaginar. As gerações mais novas estão simplesmente perdendo a concentração porque não conseguem controlar o uso do telefone móvel o tempo todo.

Outro comportamento que foi detectado por essa geração e usuários é o baixo volume de publicações nas redes sociais, mas um tempo muito elevado consumindo os conteúdos dentro dessas plataformas, criando assim uma necessidade da pessoa em interagir e visualizar tudo o que é publicado na internet, já que o medo de perder alguma coisa existe.

Se distrair com muita facilidade com plataformas como TikTok, Twitter, Instagram e YouTube se tornou o “novo normal”. Mas isso está gerando grandes problemas de concentração nos usuários mais novos. E precisamos conversar sobre isso.

 

 

 

Tudo muito rápido nas telas, tudo muito lento no mundo real

Muitas pessoas não estão conseguindo manter a concentração em algo que não está na tela do smartphone. E reconhecer que o problema existe pode ser o primeiro sintoma de cura para você e para o outro, que pode reconhecer que também sofre deste problema a partir da sua iniciativa.

Nós olhamos para o smartphone o tempo todo, mesmo nos momentos inadequados. Desviamos nossa atenção com muita frequência e nos aborrecemos com muitas coisas. Todos esses comportamentos são sintomas de baixa concentração e elevado índice de distração.

Se isso acontece com muitas pessoas, alguma coisa está acontecendo. E está relacionado com o fato das telas dos smartphones sempre buscarem captar ao máximo a atenção do usuário com o mínimo de esforço de nossa parte. Livros e outras atividades dependem de nós para se obter a máxima atenção e concentração. Já as telas de telefones mudam o tempo todo os estímulos visuais e auditivos, em uma velocidade muito maior que a do mundo real.

Algo que é até compreensível. Pois o mundo real sempre parece chato e lento o tempo todo. No mundo virtual, você é hiper estimulado. E, por isso, muitas pessoas podem reproduzir conteúdo de áudio e vídeo em uma velocidade 2x, para que o consumo seja mais rápido que o normal.

O sucesso do TikTok é um excelente exemplo do que estou falando. Vídeos muito curtos, feitos para o engajamento, que mudam o tempo todo. São estímulos. Os mecanismos neuropsicológicos que existem por trás da concentração e atenção conseguem promover o engajamento diante desse tipo de conteúdo. Na prática diária, isso pode (por exemplo) despertar nas pessoas o desinteresse por filmes e séries com longa duração, já que esse conteúdo será chato, mesmo que seja de elevada qualidade.

 

 

 

Desconexões laborais

Tantas distrações afetam (obviamente) o desempenho do usuário no trabalho, em um nível maior do que o desejado. Você até pode não ser demitido por causa disso, mas tende a trabalhar por mais horas do que o normal para compensar essas distrações, ou estender os prazos determinados para entregar projetos.

Tudo porque você vai começar a fazer pequenas pausas, se ocupar com coisas que envolvem um esforço menor e, de forma inevitável, um maior volume de distrações e menor tempo de descanso, já que o gerenciamento de tempo é menos eficiente.

Os estímulos rápidos e constantes também influenciam nos momentos em que estamos mais propensos de distração, que é quando procuramos mais o smartphone como meio de evasão instantânea para fugir de tarefas longas, difíceis ou incômodas. Sabe quando você fica rolando a tela do telefone o tempo todo, passando de uma rede social para outra além de ficar consultando as mensagens instantâneas? Então…

O fluxo de atenção intermitente já era um problema em 2008, quando os e-mails eram mais populares que hoje, e naquela época essa distração já resultava em um pior desempenho e um maior estresse no trabalho, além da queda do foco. Hoje, com todas as outras plataformas e a cobrança de todo e qualquer profissional ou usuário em ser multitarefa, entendemos que a produtividade pode ser morta aos poucos com essa prática. Passar do trabalho para a constante consulta do smartphone em busca de novidades é outra forma de multitarefa, mas que entra na lista das menos benéficas.

 

 

 

Quero voltar a fazer algo com as minhas mãos

Muitos profissionais que trabalham com telas todos os dias e o dia inteiro acabam despertando o desejo de fazer algo com as mãos, mas que não exijam o uso de um computador. Porém, essas mesmas pessoas acabam gastando um bom tempo no smartphone tão logo chegam na academia para realizar a sagrada rotina de exercícios.

O smartphone canibalizou vários tipos de produtos, e agora as pessoas estão tentando descentralizar algumas atividades para se desligar desse dispositivo. Um videogame portátil, um MP3 Player dedicado e outros dispositivos estão se tornando populares novamente para atender a essa demanda. E isso faz sentido: se fazemos algo criativo com as mãos, nos sentimos bem, úteis e conectados com a nossa parte criativa.

Por outro lado, sabemos que se sentir aborrecidos ou entediados é, de certa forma, algo necessário. Principalmente para gerar espaços vazios para novos pensamentos e ideias, permitindo assim que o fluxo da criatividade siga o seu caminho na sua mente. E (isso é muito importante) para abrir tempo para pensarmos em nós mesmos.

E quando estamos na sala de espera do consultório médico e tiramos o smartphone do bolso para consultar o feed do Twitter apenas para matar o tempo, estamos matando esses espaços preciosos.

 

 

 

Possíveis soluções

Será que nossa capacidade de concentração foi prejudicada de forma permanente?

Felizmente, não.

Isso pode ser recuperado quando voltamos a trabalhar nos processos de atenção, já que não estamos lidando com um cenário de danos cerebrais. Caso contrário, se a atenção é prejudicada, o cérebro é prejudicado junto, e não é assim que acontece. O que temos aqui é um comportamento compulsivo na consulta do smartphone que interfere na atenção sustentada em determinadas tarefas.

O comportamento compulsivo é muito semelhante ao de um fumante procurando o cigarro de tempos em tempos, mas se aproxima mais da mecânica dos jogos de azar. O cigarro entrega a sensação de prazer, mas através de um reforço negativo (para combater a abstinência de nicotina). Já a do smartphone é mais comparado com uma conduta de vício, já que não sabemos quando a recompensa esperada vai chegar. Logo, estamos o tempo todo procurando o prêmio em forma de um like em uma foto, uma notificação de status, um vídeo que nos faça rir, um texto interessante ou uma mensagem recebida no WhatsApp.

Neste caso, a saída passa por uma conscientização do usuário, acompanhada de ações graduais para se alcançar um uso mais consciente do smartphone, com menos inércias. Por exemplo, tente passar 15 minutos sem olhar para o smartphone. Depois, passe para 30 minutos. Com o tempo, para 60 minutos. E assim por diante.

É importante ter em mente que, para se livrar da dependência do smartphone, muito mais do que um problema de atenção, este é um problema de conduta e atitude. E esse tipo de mudança de comportamento depende muito de você, e não do mundo ao seu redor.

Muitas pessoas procuram profissionais de saúde por conta do vício no smartphone tão elevado, que já afeta a todos os aspectos da vida, incluindo a baixa autoestima. Normalmente se recomenda a terapia quando os sintomas são tão evidentes, como quando o círculo social da pessoa percebe esse vício como algo grave.

Normalmente não se chega ao extremo do vício no smartphone, mas também fica claro que a perda de atenção relacionada com o smartphone não pode ser ignorada e combatida da forma adequada, uma vez que não estamos falando de um problema meramente residual.


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