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O Irlandês, filme de Martin Scorsese que estreou recentemente na Netflix, está cercado de polêmicas. E não apenas porque o diretor decidiu ser “sincero demais” na sua opinião sobre os filmes da Marvel (o que, de certo modo, ajudou a levantar o hate contra ele e o filme), mas também pela proposta geral do longa em si, suas escolhas nos aspectos criativos e respectivas consequências.

Esse post não é um review do filme. Você não vai encontrar spoilers nesse artigo. Aqui, você vai encontrar uma análise sobre uma das maiores polêmicas envolvendo O Irlandês.

Polêmica essa que, ao meu ver, é meio burra. De qualquer forma…

 

 

O Irlandês pode representar a “morte” do cinema?

 

 

Muita gente fala que a Netflix e as plataformas de streaming vão matar o cinema como nós conhecemos. Eu discordo. O máximo que essas plataformas podem fazer é, tal e como aconteceu com vários outros formatos de entretenimento, promover uma mudança de comportamento nos usuários, que vão mudar os seus hábitos na hora de assistir filmes e séries de TV.

Na verdade, esta é a segunda geração que está vivenciando uma mudança no formato de consumo de conteúdo. A primeira geração é a da “era dos downloads”. Se teve um favor que Lost fez ao mundo foi mostrar ao mundo que as pessoas não estavam mais dispostas a esperar para ver aquele episódio de série que estava disponível nos Estados Unidos, e todo um mercado mudou o seu comportamento: os canais a cabo passaram a exibir episódios simultâneos, e para aqueles que gostariam de assistir na hora e na ordem que quisesse, tinha o streaming, hoje abraçado pelos filhos da segunda revolução no consumo de conteúdo.

No caso de O Irlandês, essa “polêmica” da “morte do cinema” foi alimentada pelo próprio Martin Scorsese, que só faltou implorar para que as pessoas não assistissem ao filme na tela de smartphones e tablets.

Ora, Martin… se você não queria isso, era só não colocar o seu filme na Netflix! Na hora de conseguir o dinheiro para produzir a história que você queria contar, você não pensou nisso?

 

 

As pessoas vão assistir ao filme no formato de tela que elas quiserem. Elas estão pagando para isso. O máximo que Scorsese poderia fazer era recomendar que O Irlandês fosse assistido nos cinemas ou em uma tela com resolução Full HD ou 4K para uma melhor experiência.

Mas jamais pedir para que o assinante da Netflix não assista em telas menores, com a desculpa que “esta não é a forma certa de ver esse filme”.

Perdeu, playboy… agora eu vou assistir ao seu filme na tela do Apple Watch!

Tá. Estou brincando.

E… na verdade… o que está matando o cinema não é a Netflix ou os diversos serviços de streaming que entregam conteúdo de qualidade e maior comodidade ao usuário e com o preço de um ingresso (no valor médio de uma capital).

O que realmente está matando o cinema é o alto custo para qualquer pessoa para assistir a um filme em uma sala de cinema.

 

 

Vender um rim para ver um filme: isso sim pode matar o cinema

 

 

Eu ainda tenho um pouco de sorte, pois moro perto do shoppping mais próximo (vou e volto de bicicleta, de ônibus ou a pé) e ainda compro um pacote que permite que eu assista a até 16 filmes por R$ 160 (todos ingressos de meia entrada, ou seja, R$ 10 o ingresso).

Agora, pense no cidadão que tem que ir com a namorada na sessão normal, em um shopping que fica fora do perímetro urbano, gastando uma nota de combustível, pagando estacionamento, desembolsando entre R$ 20 e R$ 30 o ingresso e entre R$ 40 e R$ 50 no combo de pipoca e refrigerante.

Para um casal ir ao cinema no Brasil, a conta pode passar dos R$ 100 com muita facilidade. E para qualquer pessoa que assina a Netflix ou outra plataforma de streaming de vídeo, os custos são muito menores, com um serviço que atende as expectativas da maioria das pessoas.

E isso quando não acontecem verdadeiras aberrações na cobrança de produtos e serviços em salas de cinema, como essa que ilustro abaixo.

 

 

Posso ser repetitivo, mas eu insisto na premissa: ou o cinema (especialmente as grandes redes de salas) se reinventam, ou com certeza vão perder mercado para as plataformas digitais. Não digo que o cinema vai morrer, pois assim como o vinil, ele terá os seus defensores incondicionais. Mas as salas ficarão cada vez mais vazias, e o serviço ficará insustentável.

Culpar a Netflix e o streaming pela “morte” do cinema é uma visão pobre do problema. É fechar os olhos para admitir que parte do problema está no próprio cinema. É querer deter a roda da evolução apenas pela comodidade de não reconhecer erros e mudar em função disso.

E para o Scorsese… lamento, amigo… mas você deveria saber que a Netflix funcionava exatamente desse jeito, e que o sucesso da plataforma aconteceu também por causa disso: a liberdade para assistir ao conteúdo na forma que quiser, do jeito que quiser e na tela que quiser.

Aceita, que dói menos.

 


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