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Monitorar profissionais em trabalho remoto é (obviamente) uma péssima ideia…

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O trabalho remoto foi adotado pelas empresas muito mais pela necessidade do que pela convicção em muitos casos. A consequência disso foi a popularização do uso de softwares de monitorização ou bosswares para controlar o desempenho desses profissionais durante o período de trabalho.

Sei que essa não é a prática mais prazerosa do mundo para os profissionais, e é uma péssima forma dos patrões demonstrarem que não confiam nos seus funcionários. E esse temor em evitar a procrastinação daqueles que estão trabalhando de forma remota se reflete em um comportamento totalmente inadequado para a relação patrão-empregado.

Porém, essa é uma tendência que, ao que tudo indica, não tem volta. Nos Estados Unidos, 60% das empresas com parte dos seus profissionais em trabalho remoto admitem que usam bosswares para monitorar o desempenho desses funcionários, e o mesmo está acontecendo no Brasil, em uma porcentagem menor.

Vamos então tentar entender o que se passa na cabeça dos executivos para estabelecer uma relação tão inconveniente com os profissionais em trabalho remoto.

 

 

 

Os motivos para a adoção do bossware

O principal motivo para uma empresa usar este tipo de ferramenta com os funcionários que ainda estão em trabalho remoto é bem simples de se entendida por qualquer pessoa: os chefes não confiam ou acreditam que os seus funcionários estão trabalhando no mesmo ritmo sem uma supervisão direta, como é feito nos escritórios.

Esse pensamento paranoico alugou um triplex na cabeça de muitos chefes de departamento e executivos de grandes empresas. Elon Musk é um desses executivos que declarou guerra contra o home office e o trabalho remoto, e foi ao extremo de tirar algumas facilidades dos funcionários que retornaram ao modo presencial, como a internet de boa qualidade e até mesas e cadeiras independentes para exercer as suas tarefas.

A falta de confiança dos chefes de departamentos e, de forma paradoxal, o aumento da monitorização dos funcionários só pode resultar em uma coisa tão óbvia quando os motivos para tal prática ser adotada: uma relação patrão-empregado extremamente tóxica e invasiva.

Bem sabemos que as empresas querem mesmo é que os seus funcionários mantenham o ritmo de trabalho e a produtividade, independente do local onde essa tarefa é realizada. Porém, pesquisas recentes focadas no uso de softwares de monitoramento mostram que aqueles profissionais que sabem que estão sendo monitorados o tempo todo se sente mais pressionados e estressados, o que resulta em elevada insatisfação nas atividades profissionais e, em consequência disso, encontramos empregados menos empenhados com os seus empregos, o que acaba reduzindo naturalmente a sua produtividade e aumenta as chances desse mesmo profissional procurar vagas de emprego em outras empresas que não adotam tais práticas.

Então… fica fácil perceber como esses temas (o monitoramento dos funcionários e a queda desempenho do profissional vigiado) estão diretamente relacionados. Apenas o executivo da empresa que decide fazer da vida do trabalhador remoto um verdadeiro Big Brother constante não consegue identificar isso.

 

 

 

Os motivos para as empresas desistirem do bossware

Um estudo da Universidade de Harvard mostra também que os profissionais que sabem que estão sendo monitorados pelas suas empresas podem se sentir injustiçados por essa situação, uma vez que esse comportamento ou condição laboral demonstra claramente que essa empresa não confia no seu profissionalismo. Isso pode resultar em um natural relaxamento das convicções morais do empregado, aumentando a tendência de transgressão com as regras estabelecidas pelo empregador. E essa rebeldia pode, inclusive, se converter em um número muito maior de pausas e descansos, ou na diminuição do ritmo de suas tarefas.

E é exatamente isso o que os empregadores querem evitar com o monitoramento remoto. Só não percebe que é ela mesma (a própria empresa) que está conduzindo o profissional a essa situação.

Diferentes estudos sobre o assunto mostram que essa monitorização das atividades dos funcionários em uma empresa não é algo completamente prejudicial. Alguns aspectos da prática podem ser benéficos para todas as partes envolvidas, sempre e quando os dados são coletados de forma anônima para oferecer uma visão global do desempenho da empresa como um todo.

Dessa forma, é possível identificar eventuais problemas que podem ser corrigidos para melhorar o coletivo de funcionários e a empresa como um todo. Jamais essa prática deve ser adotada para punir um funcionário em específico em função de uma queda de desempenho no trabalho remoto. É fundamental que a empresa tenha a maturidade de individualizar e abordar o problema com critério.

O monitoramento de funcionários também pode dar bons resultados quando os dirigentes da empresa informam sobre os resultados positivos alcançados com o procedimento. Isso pode ajudar a convencer os funcionários que a medida pode e deve ser encarada como justa.

Um exemplo do que estou falando é quando o sistema de monitorização de funcionários é utilizado também como sistema de sanção em caso de problemas e recompensas quando os objetivos globais são alcançados. Chamar a atenção quando a produtividade cai ou recompensar os funcionários que estão rendendo acima das expectativas.

Alguns estudos realizados pela consultora Gartner mostram que, quando a empresa comunica de forma aberta e transparente os funcionários quais dados serão compilados e como serão utilizados, até 70% dos profissionais aceitam o uso dos softwares de controle. E essa aceitação pode resultar no tão desejado aumento de desempenho laboral vindo de pessoas que não precisam estar presas nos escritórios para mostrar que estão trabalhando com empenho.

Até porque o salário ajuda a justificar o empenho de qualquer pessoa.

 

 

 

O crescimento do bossware

O uso de softwares específicos para monitorar os funcionários das empresas cresceu de forma exponencial nos últimos anos, chegando a duplicar em abril de 2020. As buscas na internet por informações para aplicar esse mecanismo nos empregados de diferente empresas cresceu nada menos que 1.705% nos últimos anos, o que mostra o evidente interesse pela adoção dessa ferramenta.

Com isso, foi registrado um substancial aumento nas vendas de softwares de monitorização remota, verificação de conteúdos digitados, capturas de tela periódicas e vigilância remota. E o controle não é feito apenas no trabalho remoto: algumas empresas rastreiam os dados de smartphones e repetidores de WiFi para obter mais dados sobre a eficiência do profissional e eventuais práticas inseguras ou não recomendadas para a execução do trabalho.

 

 

 

O que diz a lei sobre o uso do bossware

Tal monitorização tem respaldo legal, mas dentro de regras que respeitam a Lei Geral de Proteção de Dados e o Marco Civil da Internet brasileira. E, acima de tudo, adotando práticas que, de alguma forma, protegem (ou melhor, não violam) a privacidade do profissional.

A real necessidade de monitoramento dos profissionais deve ser demonstrada de forma muito clara pela empresa, justificando o uso das ferramentas pelo tipo de trabalho que é executado pelos funcionários, a sua idoneidade (adotando inclusive alternativas menos intrusivas para alcançar o mesmo resultado) e sua proporcionalidade em relação ao nível de intromissão e intimidade com a qual a prática é realizada.

Além disso, é sempre de bom tom (na verdade, obrigação moral mesmo) que a empresa informe ao funcionário sobre o uso do software ao funcionário, mesmo que o monitoramento aconteça sem a necessidade de permissão do empregado, caso a adoção dessa prática se faça necessária em um ambiente corporativo.

Por fim, se for realmente necessário, a empresa precisa obter a autorização expressa do funcionário a ser monitorado, além de informar ao profissional em questão que eventualmente pode ser necessário instalar softwares específicos em seus dispositivos pessoais utilizados para trabalhar, algo que pode ser negado a qualquer momento.

 

 

 

Conclusão

A ideia de ser monitorado o tempo todo pela empresa que paga o meu salário para saber se estou produtivo ou não no meu emprego e algo que não me agrada em nada. Pelo contrário: seria uma fonte de irritação constante, e isso faria com que eu simplesmente odiasse trabalhar para essa empresa.

A paranoia estabelecida por patrões e empregadores vai tirar o sono de muitas pessoas. E não pelo monitoramento em si ou total falta de confiança demonstrada pelo chefe daquele funcionário. A pior parte dessa prática é a falta de privacidade para o funcionário monitorado, e isso é algo que precisa ser revisto com urgência nos padrões de uso do bossware.

Caso contrário, muitas relações entre patrão e empregado serão destruídas com relativa facilidade.


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