Por que o Quibi morreu tão rápido?

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Alguns fracassos são tão previamente anunciados, que chega a assustar o fato de ninguém ter a capacidade de ver que o trem está vindo na direção contrária. O Quibi era um fracasso mais do que anunciado, mas muitos insistiram em acreditar que a visualização de conteúdos na vertical era a nova revolução do entretenimento, apenas porque o Instagram, o (finado) Snapchat e o TikTok disseram que seria assim.

Seis meses depois do seu lançamento, e após arrancar US$ 1.75 bilhão de investidores um tanto quanto cegos, o Quibi fechou as portas. E isso mostra também que a caríssima Samsung TV Sero, que tem orientação na vertical, será um retumbante fracasso.

 

 

 

O mundo não estava preparado para isso. Muito menos pedindo por isso

 

 

Para as gerações que passaram boa parte da vida assistindo filmes na SKY ou séries de TV na NET, a morte do Quibi não chega a ser nenhuma novidade. Ainda mais em um serviço pensado no público jovem que, por sua parte, fazem qualquer outra coisa melhor da vida… menos ver TV.

A apresentação do Quibi já dava a entender que todos os envolvidos não sabiam muito bem o que estavam fazendo ou no que estavam se metendo de verdade. Quando foi que Guillermo Del Toro teve algum tipo de doença cerebral para acreditar que os seus filmes poderiam ser vistos na vertical em dispositivos móveis?

 

 

Mas o problema do Quibi não foi o seu formato, mas sim o seu gerenciamento ruim desde o começo. O timing de lançamento foi ruim, os números que a plataforma queria alcançar não fechavam, e o confinamento jogou contra, já que todo mundo foi para as demais propostas tradicionais. Essa última desculpa não cola muito, pois é justamente agora que mais precisamos de uma maior variedade.

Até porque se eles conseguissem prender os adolescentes por apenas dez minutos (lembrando que a maioria fica pelo menos sete minutos nos vídeos do YouTube), já era uma vitória. Porém, se vender como a plataforma dos fãs de séries em mobilidade justo no ano onde meio mundo foi obrigado a ficar em casa foi um baita tiro no próprio pé.

Mais de US$ 1.7 bilhão foram investidos no Quibi, que recebeu investidores do porte de Disney e NBCUniversal. E os primeiros números da plataforma foram muito bons, com mais de 2 milhões de downloads graças ao tempo de testes de três meses e suas assinaturas com preços competitivos (US$ 4.99 com anúncios, ou US$ 7.99 livres de publicidade).

 

 

O problema é que 90% dos usuários abandonaram o Quibi depois dos três meses de testes, coincidindo com o lançamento do Disney+ nos EUA e a consolidação do Amazon Prime Video e HBO. Outras empresas não se interessaram em assumir a plataforma, muito menos com os conteúdos, que estão condenados a desaparecer ou fazer parte de catálogos de outras plataformas.

 

 

Por fim, o Quibi pensou demais no seu produto, mas não pensou no cliente. Não havia qualquer tipo de comunicação com o espectador, e nada foi feito para conquistar a audiência, muito menos ouvir o que esse público tinha a dizer. Sem falar que era um serviço exclusivo para smartphones, e muitos usuários gostariam de enviar o sinal do aplicativo para a TV via AirPlay ou Chromecast, e os episódios não eram adaptados para esse formato de tela, de forma quase irônica.

 

 

 

Qual é a lição que a morte do Quibi deixa?

 

 

Que qualquer plataforma precisa tratar os usuários com respeito e atenção, criando assim o mínimo de cumplicidade com quem paga pelo serviço. Ou seja, faltou um departamento de comunicação competente no Quibi para evitar essa morte.

E, principalmente: o mundo nunca quis ver filmes e séries na vertical. O formato pode valer a pena para os vídeos curtos no smartphone, nas plataformas que estão consolidadas. Porém, acompanhar histórias mais complexas e extensas sem contar com o ponto de vista na horizontal (que é o natural do ser humano desde sempre) jamais foi a melhor maneira de ver TV.

O Quibi morre para não deixar saudades, definitivamente.

 

 

Via Quibi, WSJ


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