Press "Enter" to skip to content

Xiaomi, e o preço que o bloatware cobra

Comprar um celular Xiaomi, especialmente das linhas Redmi ou Poco, é praticamente sinônimo de conseguir um bom hardware por um preço que faz a concorrência coçar a cabeça. O problema é que, ao ligar o aparelho pela primeira vez, você descobre que ele já vem com um “kit de boas-vindas” que ninguém pediu: dezenas de aplicativos pré-instalados que ocupam espaço e consomem recursos.

Essa prática, conhecida no mundo tech como bloatware, não é exclusividade da Xiaomi, mas a empresa chinesa levou o conceito a um novo patamar. Jogos que você nunca vai abrir, navegadores alternativos e ferramentas de “limpeza” que mais atrapalham do que ajudam fazem parte do pacote padrão de quase todo aparelho da marca.

A grande questão que muitos consumidores se fazem é: por que uma empresa tão grande insiste nessa prática que claramente irrita os usuários? A resposta está diretamente ligada ao modelo de negócio que permitiu à Xiaomi dominar o mercado de smartphones acessíveis no Brasil e no mundo, e entender essa dinâmica ajuda a decidir se vale a pena conviver com esse incômodo.

 

O modelo de negócio por trás dos preços baixos

A Xiaomi construiu seu império com uma filosofia que parece contraintuitiva à primeira vista: vender hardware com margens de lucro extremamente baixas, algo em torno de 5% segundo declarações da própria empresa ao longo dos anos. Isso significa que o celular que você compra por R$ 1.000 custou para a Xiaomi quase R$ 950 para produzir, distribuir e comercializar, deixando pouquíssimo espaço para lucro no produto físico em si.

Para compensar essa margem apertada, a empresa aposta pesado em serviços e publicidade como fontes complementares de receita, e é exatamente aí que entram os aplicativos pré-instalados. Cada app que vem de fábrica no seu Redmi ou Poco representa um acordo comercial entre a Xiaomi e desenvolvedores terceiros, que pagam para ter seus produtos expostos a milhões de usuários desde o primeiro momento em que ligam o aparelho.

Essa estratégia permite que a Xiaomi mantenha os preços competitivos que a tornaram famosa, mas transfere parte do “custo” para a experiência do usuário. Em outras palavras, você não paga apenas com dinheiro pelo seu smartphone barato — paga também com paciência, espaço de armazenamento e, em alguns casos, com seus dados de uso sendo compartilhados com parceiros comerciais da empresa.

 

Os tipos de bloatware que você vai encontrar

Ao desembalar um celular Xiaomi, especialmente os modelos mais acessíveis da linha Redmi, você vai se deparar com uma variedade impressionante de aplicativos que podem ser divididos em categorias bem definidas. Primeiro, existem os apps da própria Xiaomi que duplicam funções do Android, como navegador próprio, galeria, gerenciador de arquivos e até uma loja de aplicativos alternativa chamada GetApps, que insiste em mandar notificações mesmo quando você não quer.

Na segunda categoria estão os aplicativos de parceiros comerciais, que incluem desde jogos casuais como Candy Crush e similares até aplicativos de streaming, redes sociais e serviços financeiros que variam conforme a região e o modelo do aparelho. Muitos desses apps não podem ser desinstalados da maneira tradicional, apenas “desativados”, o que significa que continuam ocupando espaço no armazenamento interno mesmo quando você não os usa.

A terceira e mais irritante categoria são os serviços de sistema da MIUI (ou HyperOS, a nova interface da Xiaomi) que rodam em segundo plano e frequentemente exibem anúncios disfarçados de “recomendações” ou “ofertas especiais”. O aplicativo de segurança nativo, por exemplo, às vezes sugere que você instale determinados apps para “otimizar” o sistema, quando na verdade está apenas cumprindo acordos publicitários que a Xiaomi firmou com desenvolvedores terceiros.

 

O impacto real no desempenho do celular

Muita gente se pergunta se esses aplicativos pré-instalados realmente afetam o funcionamento do smartphone ou se é apenas uma questão estética de ter ícones indesejados na tela inicial. A verdade é que o impacto existe e vai além do visual: aplicativos que rodam em segundo plano consomem memória RAM, processamento e, consequentemente, bateria, mesmo quando você nunca os abre intencionalmente.

Em aparelhos de entrada com 4GB ou 6GB de RAM, essa sobrecarga pode ser particularmente perceptível, já que o sistema precisa gerenciar diversos processos simultâneos que o usuário nem sabe que estão acontecendo. Estudos e testes realizados por veículos especializados mostram que um celular Xiaomi “limpo”, com bloatware removido, pode apresentar melhorias notáveis em autonomia de bateria e fluidez geral de navegação.

Outro ponto que merece atenção é o armazenamento interno, recurso cada vez mais precioso em uma época de aplicativos pesados, fotos em alta resolução e vídeos em 4K. Os bloatwares podem ocupar facilmente de 3GB a 8GB de espaço dependendo do modelo e da região, o que representa uma fatia significativa em aparelhos que já vêm com armazenamento limitado de 64GB ou 128GB.

 

Como remover (ou pelo menos minimizar) o problema

A boa notícia é que existe luz no fim do túnel para quem quer recuperar o controle do seu celular Xiaomi sem precisar fazer procedimentos arriscados como root ou instalação de ROMs alternativas. O primeiro passo, mais simples e acessível, é desativar todos os aplicativos que o sistema permite através das configurações, o que impede que eles rodem em segundo plano e exibam notificações, mesmo que continuem ocupando algum espaço.

Para quem quer ir além, existem ferramentas como o ADB (Android Debug Bridge) que permitem remover aplicativos de sistema pelo computador, sem necessidade de desbloquear o bootloader ou fazer root no aparelho. O processo exige algum conhecimento técnico e cuidado para não remover componentes essenciais, mas tutoriais detalhados estão disponíveis em comunidades como o XDA Developers e fóruns brasileiros especializados em Xiaomi.

A própria Xiaomi tem dado sinais de que está ouvindo as reclamações dos usuários, com a nova interface HyperOS prometendo uma experiência mais limpa e menos carregada de aplicativos desnecessários em comparação com a antiga MIUI. Ainda é cedo para afirmar se essa promessa se concretizará na prática, especialmente nos modelos mais baratos onde a pressão por receita publicitária é maior, mas o movimento indica que a empresa reconhece o problema.

 

Vale a pena comprar mesmo assim?

Depois de tudo isso, a pergunta que fica é: considerando o bloatware, ainda faz sentido comprar um celular Xiaomi em vez de optar por marcas que oferecem uma experiência mais “limpa” de fábrica? A resposta, para a maioria dos usuários, provavelmente ainda é sim, desde que você esteja disposto a dedicar alguns minutos (ou horas, dependendo da sua paciência) para configurar o aparelho do jeito que deseja.

O custo-benefício que a Xiaomi oferece em termos de hardware continua sendo difícil de bater, especialmente no Brasil, onde os impostos tornam smartphones de outras marcas consideravelmente mais caros para especificações equivalentes. Um Redmi Note com câmera decente, tela de qualidade e bateria generosa por menos de R$ 1.500 ainda é uma proposta muito atraente, mesmo que você precise fazer uma “faxina digital” antes de começar a usar.

Para quem valoriza a experiência de software acima de tudo e não quer ter esse trabalho, alternativas como a linha Pixel do Google ou até mesmo o programa Android One (que a própria Xiaomi já utilizou em alguns modelos) oferecem o Android puro sem adições desnecessárias. A escolha final depende das suas prioridades: se o orçamento é apertado e você não se importa em colocar a mão na massa, a Xiaomi continua sendo uma excelente opção — só não espere que ela venha “pronta para uso” direto da caixa.