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WeTransfer quer seus arquivos para treinar IA

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Se você é daqueles que confia cegamente no WeTransfer para mandar aquele zip com as 50 fotos do ensaio da banda indie ou a apresentação da firma que ficou pronta às 2h da manhã, talvez seja hora de repensar sua fé digital.

A empresa está sendo apontada como mais uma das grandes que resolveu entrar na onda da IA – e, claro, usando os dados dos usuários como combustível.

Não é muito diferente de tudo o que as demais gigantes da tecnologia estão fazendo (e aqui, use esse caso como mais um sinal de alerta). O problema é que a WeTransfer simplesmente “se esqueceu de te avisar” sobre essas mudanças em seus termos.

E como você é o proprietário de tudo o que manda para lá, precisa saber que esses dados agora são utilizados para treinar uma IA, e sem o seu consentimento consciente.

 

Novos termos de uso que ninguém conhece

A treta começou quando circularam pelas redes sociais informações (nada conspiratórias, dessa vez) de que o WeTransfer pode usar os arquivos enviados pelos usuários para treinar modelos de inteligência artificial.

Ou seja, aqueles mesmos arquivos que você jurava que seriam apenas temporariamente transferidos de um lado pro outro agora são utilizados para treinar plataformas de inteligência artificial – e você não sabia disso.

De nada.

O pulo do gato está na famigerada cláusula 6.3 dos Termos de Uso – aquele documento que todo mundo finge que lê, quando na verdade só rola a tela rapidamente para poder usar a plataforma.

Nela, o WeTransfer se dá o direito perpétuo, mundial, não exclusivo e gratuito (sim, de graça, porque não bastasse usar seu arquivo, ainda não te pagam nada por isso) de usar os conteúdos enviados para operar, desenvolver e melhorar o serviço – inclusive por meio de modelos de aprendizado de máquina.

“Você nos concede uma licença perpétua, mundial, não exclusiva, isenta de royalties, transferível e sublicenciável para usar seu conteúdo com a finalidade de operar, desenvolver, comercializar e melhorar o Serviço ou novas tecnologias ou serviços, incluindo a melhoria do desempenho de modelos de aprendizado de máquina que melhoram nosso processo de moderação de conteúdo, de acordo com a Política de Privacidade e Cookies.”

Agora, depois de toda a bagunça e reclamações dos usuários, esta seção foi atualizada alterando o que dizia e não fazendo mais referência a nenhum tópico de aprendizado de máquina e IA:

“Para nos permitir operar, fornecer e melhorar o Serviço e nossas tecnologias, devemos obter de você certos direitos relacionados ao Conteúdo que são cobertos por direitos de propriedade intelectual. Você nos concede uma licença isenta de royalties para usar seu Conteúdo com a finalidade de operar, desenvolver e melhorar o Serviço, tudo de acordo com nossa Política de Privacidade e Cookies.”

Aqui, já era.

Como a primeira versão falava sobre APRENDIZAGEM DE MÁQUINA, os seus dados podem SIM ser utilizados para melhorar o desempenho de plataformas de IA.

Na prática, isso significa que seus arquivos podem ser processados por IA tão logo eles estejam armazenados na nuvem da WeTransfer.

Simples assim.

 

A desculpa da WeTransfer para a decisão

A empresa diz que o foco é melhorar a moderação de conteúdo, evitando spam, pornografia e arquivos ilegais.

Mas, com uma cláusula tão ampla e vaga (“novas tecnologias”, “comercializar serviços”…), vai saber o que entra nessa conta.

Modelos generativos? Textos? Imagens? A gente não sabe – e o WeTransfer também não se esforça muito pra deixar claro.

E nem faz tanto sentido esse lance de moderação de conteúdo, uma vez que, pelos mesmos termos tão abertos, até a pornografia pode ser utilizada como fonte de treinamento para a plataforma de inteligência artificial.

Legalmente, eles estão amparados.

E não são os únicos: Google, Meta e companhia também embutem esse tipo de cláusula em seus contratos, e a grande maioria dos usuários não sabe disso.

É o famoso “se é de graça, o produto é você”. A diferença aqui é que o WeTransfer parecia mais neutro nesse entendimento.

Entre os riscos práticos para você, reles mortal que só queria mandar um PowerPoint, está o simples fato de sua privacidade ter enormes chances de ir para o espaço, sua propriedade intelectual pode ser “emprestada” sem aviso, e você não tem como optar fora dessa festa.

Uma vez enviado, já era. Seu conteúdo vira parte do buffet de dados da IA.

Quer evitar isso? Pare de mandar arquivos sensíveis por lá.

Procure alternativas mais éticas ou com políticas menos esfumaçadas – como ProtonDrive, Dropbox (com ressalvas) ou até servidores próprios.

E, por favor, comece a ler os termos de uso.

Spoiler: eles não estão ali só pra encher a tela.

 


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