
Se você ainda paga aquela fatura mensal de TV por assinatura, saiba que está cada vez mais na minoria. O mercado brasileiro de TV paga viveu em 2025 a sua retração mais acentuada, perdendo cerca de 2,5 milhões de assinantes em apenas doze meses e consolidando uma debandada que já dura uma década inteira.
Dados oficiais da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostram que o país encerrou dezembro de 2025 com aproximadamente 7,6 milhões de pontos ativos no Serviço de Acesso Condicionado (SeAC), contra 9,2 milhões no mesmo período de 2024. Para efeito de comparação, em 2023 o número ainda era de 11,7 milhões — o que significa uma queda de 35% em apenas dois anos, um tombo impressionante para qualquer setor da economia.
Enquanto as operadoras tradicionais tentam estancar a sangria, o streaming segue avançando sem pedir licença nos lares brasileiros. A pergunta que fica já não é mais “se” a TV por assinatura vai perder relevância, mas “quanto tempo” ela ainda conseguirá se manter de pé nesse cenário de transformação acelerada.
Um setor que encolhe ano após ano

O recuo registrado em 2025 não é um tropeço pontual, mas sim a continuidade de uma curva descendente que se arrasta desde meados da década passada. De acordo com as séries históricas consolidadas pela Anatel, o número de acessos de TV por assinatura no Brasil despencou de cerca de 19,1 milhões em 2015 para menos de 8 milhões em 2025 — uma perda superior a 11 milhões de assinantes em dez anos, o que equivale a dizer que mais da metade da base simplesmente evaporou.
Esse movimento não é exclusividade brasileira, já que mercados maduros como o dos Estados Unidos também enfrentam o fenômeno do chamado “cord-cutting”, em que os consumidores cortam o cabo em favor de alternativas digitais mais baratas e flexíveis. No entanto, a velocidade do encolhimento por aqui chama atenção: perder 35% da base em dois anos é um ritmo que coloca pressão real sobre a sustentabilidade financeira das operadoras e sobre toda a cadeia de produção de conteúdo que depende desses recursos.
Além do contexto global de mudança de hábitos, fatores locais como a crise econômica prolongada, o alto custo dos pacotes e a percepção de que boa parte da programação está disponível em plataformas de streaming por preços menores ajudam a explicar por que tantos brasileiros estão desligando suas assinaturas sem olhar para trás. O cenário, em resumo, é de um setor que perdeu o timing de se reinventar e agora corre atrás de um consumidor que já encontrou outras formas de se entreter.
O mapa das operadoras: quem perde mais e quem resiste
A Claro segue como líder absoluta do mercado de TV por assinatura, mas nem mesmo sua posição dominante a protegeu da sangria: a operadora encerrou 2025 com cerca de 4,09 milhões de acessos e 53,7% de participação de mercado, contra 4,72 milhões no ano anterior — uma perda de mais de 630 mil clientes em doze meses.
A Sky, segunda colocada com 27,8% do mercado, sofreu proporcionalmente ainda mais, caindo de 2,67 milhões para 2,12 milhões de assinantes, uma retração que reflete a fragilidade do modelo baseado em satélite num mundo cada vez mais conectado pela internet.
A Vivo manteve uma posição mais discreta, com 733 mil acessos e 9,6% de participação, registrando uma queda menor em termos absolutos, mas ainda assim consistente com a tendência geral de encolhimento.
Já a Oi, que vinha numa derrocada acelerada após seus problemas financeiros, transferiu sua operação de TV paga para a Mileto Serviços de TV por Assinatura a partir de março de 2025, que aparece nos dados da Anatel com cerca de 320 mil acessos e 4,2% do mercado.
| Grupo/Empresa | Acessos
dez-2023 |
Acessos
dez-2024 |
Acessos
dez-2025 |
Market share |
| CLARO | 5.393.393 | 4.726.441 | 4.092.391 | 53,7% |
| SKY | 3.352.498 | 2.668.313 | 2.116.031 | 27,8% |
| VIVO | 844.910 | 785.191 | 733.292 | 9,6% |
| MILETO SERVIÇOS DE TV POR ASSINATURA S.A. | 320.848 | 4,2% | ||
| OI | 1.659.743 | 649.342 | * |
O que esses números revelam é que nenhuma operadora está imune ao movimento de cancelamento, independentemente do porte ou da estratégia adotada. A liderança da Claro, por exemplo, se mantém mais por inércia de uma base ainda robusta do que por um crescimento real — e a tendência, se nada mudar drasticamente, é que todas continuem perdendo clientes de forma progressiva nos próximos anos.
Por que a tecnologia de fibra ótica não salvou a TV paga
Muita gente imaginou que a expansão da fibra óptica pelo Brasil poderia dar um novo fôlego à TV por assinatura, já que a infraestrutura de alta velocidade permite entregar vídeo em altíssima qualidade sem as limitações do satélite ou do cabo coaxial. Na prática, porém, os números contam uma história bem diferente: os acessos de TV paga via fibra (FTTH) caíram de 1,29 milhão em 2023 para 1,02 milhão em 2025, mostrando que os consumidores que recebem fibra em casa preferem usá-la para acessar streaming, redes sociais e outros serviços de dados em vez de contratar um pacote de TV tradicional.
A tecnologia via satélite (DTH), que ainda responde pela maior fatia dos acessos, foi a que mais sofreu em termos absolutos, despencando de 6,33 milhões em 2023 para 3,70 milhões em 2025 — uma queda de mais de 2,6 milhões de pontos. O cabo coaxial também seguiu em queda, saindo de 4,08 milhões para 2,88 milhões no mesmo intervalo, enquanto tecnologias marginais como rádio e cabo metálico seguem praticamente residuais, com menos de 6 mil acessos somados.
| Meio de Acesso | Acessos 2023 | Acessos 2024 | Acessos 2025 |
| Satélite (DTH) | 6.330.178 | 4.602.376 | 3.702.990 |
| Cabo Coaxial | 4.078.872 | 3.468.382 | 2.883.144 |
| Fibra (FTTH) | 1.297.912 | 1.188.657 | 1.023.844 |
| Rádio | 4.174 | 3.505 | 3.730 |
| Cabo Metálico | 3.277 | 2.122 | 1.866 |
| Total de acessos | 11.714.413 | 9.265.042 | 7.615.574 |
Essa dinâmica demonstra que a fibra óptica não está funcionando como “salvadora” da TV paga, mas sim como um acelerador da migração para o streaming e para o consumo de conteúdo sob demanda. Em outras palavras, quanto melhor a internet do brasileiro, menos motivo ele encontra para manter aquela assinatura de TV que, convenhamos, cada vez mais parece um produto de outra era.
Streaming avança e domina os lares brasileiros

Enquanto a TV por assinatura amarga perdas consecutivas, o streaming segue numa trajetória exatamente oposta. Dados da PNAD Contínua TIC, pesquisa do IBGE, indicam que o número de domicílios brasileiros com acesso a serviços pagos de streaming de vídeo saltou de 31,2 milhões em 2023 para 32,7 milhões em 2024, chegando a 34 milhões em 2025 — um crescimento contínuo que já coloca o streaming em um patamar quase cinco vezes superior ao da base total de TV paga no país.
A proporção de domicílios com televisão que acessam plataformas de streaming passou de 42,1% em 2023 para 43,4% em 2024, e em 2025 o percentual se manteve estável nessa faixa, ainda que o número absoluto de lares com streaming tenha continuado subindo — o que se explica pelo fato de o total de domicílios brasileiros também ter crescido no período. Essa estabilidade percentual, longe de indicar estagnação, mostra que o streaming acompanha a própria expansão do país em termos de novos lares, mantendo sua relevância intacta.
| Ano | Domicílios com streaming | Percentual sobre total de lares | Crescimento |
| 2023 | 31,2 milhões | 42,1% | |
| 2024 | 32,7 milhões | 43,4% | +1,5 milhão |
| 2025 | 34 milhões | 43,4%* | +1,3 milhão |
O recado dos números é claro: o brasileiro não está consumindo menos conteúdo audiovisual, ele apenas trocou de plataforma. Serviços como Netflix, Globoplay, Amazon Prime Video, Disney+ e Max (antigo HBO Max) oferecem catálogos vastos, preços competitivos e a liberdade de assistir o que quiser, na hora que quiser — um modelo que faz o pacote engessado da TV por assinatura parecer, com todo respeito, um dinossauro simpático tentando competir com um foguete.
O que esperar do futuro da TV por assinatura no Brasil

Com a base de assinantes encolhendo em ritmo acelerado e sem sinais claros de reversão, o futuro da TV paga no Brasil passa inevitavelmente por uma reinvenção profunda — ou por uma despedida gradual. As operadoras já vêm apostando em pacotes integrados que combinam banda larga, telefonia e streaming como forma de reter clientes, mas até agora essa estratégia não tem sido suficiente para compensar o volume de cancelamentos que ocorre mês a mês.
Do ponto de vista regulatório, a tendência é que a Anatel e o Congresso acompanhem esse movimento de mercado e revisem as regras que ainda tratam a TV por assinatura como um serviço de massa, quando na prática ela caminha para se tornar um nicho cada vez mais restrito. A própria venda da operação de TV da Oi para a Mileto, concretizada em 2025, é um sinal de que até grandes grupos de telecomunicações enxergam o segmento como um ativo em declínio, do qual preferem se desfazer para concentrar esforços em conectividade e dados.
Para o consumidor, no entanto, o cenário é mais positivo do que negativo: nunca houve tanta oferta de conteúdo audiovisual acessível, diversificado e disponível sob demanda como agora. A era da TV por assinatura como protagonista do entretenimento doméstico parece estar chegando ao fim, e o que nasce no lugar dela é um ecossistema mais fragmentado, é verdade, mas também mais democrático e alinhado com a forma como as pessoas realmente querem consumir conteúdo em pleno 2026.
