
A Fox Corporation anunciou a aquisição da Roku em uma operação avaliada em aproximadamente US$ 22 bilhões (cerca de R$ 110 bilhões a R$ 111 bilhões na cotação atual), em uma das maiores movimentações da indústria de mídia e streaming dos últimos anos.
O acordo é um passo decisivo da companhia controlada pela família Murdoch para ampliar sua presença no universo da televisão conectada (CTV) e do streaming financiado por publicidade, unindo a força de seu catálogo de conteúdo ao enorme alcance tecnológico da Roku.
A transação será realizada por meio de uma combinação de dinheiro e ações da Fox. Pelos termos anunciados, os acionistas da Roku receberão US$ 96 em dinheiro mais 0,9693 ação Classe A da Fox para cada ação da empresa.
Após a conclusão da operação, prevista para ocorrer no primeiro semestre de 2027 (desde que obtenha aprovação dos acionistas e dos órgãos reguladores), os atuais acionistas da Fox deterão aproximadamente 73% da nova companhia, enquanto os acionistas da Roku ficarão com os 27% restantes.
Por que essa aquisição é importante?

A aquisição une dois ativos considerados altamente complementares.
De um lado está a Fox, dona de um dos portfólios mais robustos da televisão americana, especialmente nos segmentos de esportes ao vivo, jornalismo e entretenimento. A companhia possui direitos de transmissão de algumas das propriedades esportivas mais valiosas do mercado, incluindo NFL, MLB, Fórmula Indy, NASCAR e competições organizadas pela FIFA.
Do outro lado está a Roku, líder no mercado de TV conectada nos Estados Unidos, com uma plataforma presente em mais de 100 milhões de residências e responsável por controlar um dos principais sistemas operacionais para Smart TVs do mundo.
Mais do que uma fabricante de dispositivos de streaming, a Roku construiu ao longo dos anos um ecossistema completo que inclui sistema operacional, interface de navegação, mecanismos de recomendação de conteúdo, publicidade digital e relacionamento direto com o consumidor final.
Sua posição estratégica faz da empresa uma espécie de “porteira” de acesso ao conteúdo digital em milhões de televisores conectados, permitindo coletar dados de audiência, personalizar recomendações e monetizar usuários por meio de publicidade segmentada.
É justamente essa capacidade de monetização que transformou a Roku em um alvo tão valioso.
Atualmente, a divisão de publicidade da empresa gera mais de US$ 613 milhões em receita por trimestre, tornando-se uma das maiores plataformas de anúncios em televisão conectada dos Estados Unidos.
Ao adquirir a Roku, a Fox passa a ter acesso direto a uma infraestrutura altamente sofisticada de coleta de dados, segmentação de audiência e venda de publicidade digital, fortalecendo sua posição em um mercado cada vez mais dominado por modelos baseados em anúncios personalizados.
O impacto dessa compra no mercado de streaming

Especialistas do setor avaliam que a negociação representa um dos movimentos estratégicos mais ambiciosos da gestão de Lachlan Murdoch, presidente executivo da Fox.
A operação não apenas amplia o alcance da companhia no ambiente digital, mas também cria um dos maiores ecossistemas integrados de vídeo dos Estados Unidos, reunindo produção de conteúdo premium, distribuição digital, tecnologia de televisão conectada e publicidade baseada em dados.
Com a combinação das operações, a expectativa é que a empresa resultante se torne a terceira maior força de audiência da televisão americana, ficando atrás apenas dos maiores conglomerados do setor.
A nova estrutura terá capacidade para competir de forma mais agressiva com gigantes como Netflix, Disney, Amazon e outras plataformas que disputam a atenção do público e os investimentos publicitários.
Outro ponto central da estratégia envolve a integração entre a Tubi, serviço de streaming gratuito da Fox adquirido em 2020, e o The Roku Channel, plataforma gratuita da Roku. Ambas operam no modelo FAST (Free Ad-Supported Streaming Television), baseado em conteúdo gratuito financiado por publicidade.
A união desses serviços poderá criar uma das maiores ofertas de streaming gratuito do mercado americano, ampliando significativamente a escala de audiência e o inventário publicitário disponível para anunciantes.
A manutenção na aposta da TV ao vivo (e com publicidade)

A aquisição também aprofunda uma estratégia iniciada pela Fox nos últimos anos.
Indo na contramão dos concorrentes que investiram bilhões de dólares em plataformas de assinatura, a empresa apostou fortemente em conteúdos ao vivo, especialmente nos eventos esportivos, e em modelos gratuitos sustentados por publicidade.
A compra da Roku fortalece essa visão ao conectar conteúdo, distribuição e monetização em uma única estrutura corporativa.
Segundo as projeções divulgadas pela Fox, a fusão deverá gerar aproximadamente US$ 400 milhões em sinergias anuais, resultado da integração de operações, otimização de infraestrutura tecnológica e ampliação das oportunidades comerciais.
A expectativa é que a combinação das bases de usuários e das plataformas de publicidade permita aumentar receitas e reduzir custos simultaneamente.
Como será o futuro da Roku?

Apesar da mudança de controle, a Roku deverá continuar operando como uma plataforma aberta.
A empresa manterá suas parcerias com fabricantes de televisores, desenvolvedores de aplicativos e provedores de conteúdo, preservando o modelo que contribuiu para sua expansão global. A distribuição de dispositivos Roku e do sistema operacional Roku OS também continuará normalmente.
Em declaração oficial, Lachlan Murdoch classificou a aquisição como um “momento histórico” para a Fox, ressaltando que a operação fortalece a estratégia da companhia de concentrar investimentos em esportes, notícias e streaming gratuito.
Já Anthony Wood, fundador e principal executivo da Roku, afirmou que a união permitirá acelerar a inovação e o crescimento da plataforma. Como parte do acordo, Wood deverá integrar o conselho de administração da Fox após a conclusão da transação.
No Brasil, a operação também desperta atenção.
A Roku atua no país desde 2020, comercializando dispositivos de streaming e licenciando o Roku OS para fabricantes de Smart TVs. Atualmente, seus produtos são encontrados no mercado brasileiro em faixas de preço que variam aproximadamente entre R$ 190 e R$ 400, dependendo do modelo e da geração.
Embora ainda não existam anúncios sobre mudanças específicas para a operação brasileira, a aquisição pode fortalecer a presença da marca no país ao ampliar os investimentos em publicidade, distribuição de conteúdo e parcerias locais.
O mercado agora acompanha com atenção os próximos passos do processo regulatório e as possíveis reações dos principais concorrentes.
A combinação entre o catálogo da Fox, a tecnologia da Roku, a base superior a 100 milhões de lares conectados, a força da Tubi e a capacidade de monetização publicitária cria um novo gigante do entretenimento digital.
Caso a operação seja aprovada sem restrições relevantes, a indústria de streaming poderá testemunhar uma das mais profundas reconfigurações de poder desde o surgimento das plataformas digitais modernas.
Via TeleSintese, Tecnoblog, Variety, Bloomberg, PRNewsWire
