
O mercado audiovisual brasileiro e mundial vive uma transformação sem precedentes. As plataformas de streaming não representam mais apenas uma alternativa ao modelo tradicional de televisão, mas consolidaram-se como a principal forma de consumo de conteúdo.
A mudança estrutural reflete uma nova realidade do comportamento do público. Os espectadores migram definitivamente para formatos sob demanda, buscando personalização e flexibilidade que a TV convencional não consegue oferecer.
O marco alcançado em maio de 2025 simboliza o fim de uma era e o início de outra no setor de entretenimento. Pela primeira vez na história, o streaming superou a audiência combinada da TV aberta e a cabo, sinalizando uma virada irreversível no consumo audiovisual.
Um marco histórico

O relatório The Gauge, da Nielsen, registrou um feito inédito em maio de 2025. O streaming atingiu 44,8% de toda a audiência televisiva, superando pela primeira vez a soma da transmissão aberta (20,1%) e TV a cabo (24,1%), que totalizaram 44,2%.
Desde o lançamento do The Gauge há quatro anos, o streaming cresceu 71%. No mesmo período, a transmissão tradicional caiu 21% e a TV a cabo despencou 39%. Esses números evidenciam uma migração acelerada e consistente do público para as plataformas digitais.

A audiência está cada vez mais abandonando o formato de consumo tradicional de televisão, tanto na TV aberta quanto na TV paga. E essa mudança de comportamento é tangível para operadoras e plataformas de streaming.
De eventos esportivos até séries de TV, a grande maioria dos usuários está consumindo esses conteúdos por streaming. E o formato tradicional se vê cada vez mais estrangulado pelo novo.
Ascensão dos serviços gratuitos FAST

Os serviços gratuitos suportados por anúncios (FAST) impulsionaram significativamente esse crescimento. PlutoTV, Roku Channel e Tubi alcançaram conjuntamente 5,7% da audiência total, superando individualmente qualquer rede de transmissão tradicional.
O YouTube (excluindo o YouTube TV) registrou um aumento de audiência de 120% desde 2021. A plataforma mantém-se líder entre as empresas de mídia em tempo de visualização, demonstrando a força dos conteúdos criados por usuários.
O número de canais FAST ultrapassou 1.600 globalmente no início de 2025, crescimento de 42% em menos de dois anos. Essas plataformas oferecem mais de 178 mil programas e filmes distintos, ampliando drasticamente as opções disponíveis.
Ou seja, não é uma pedra cravada que as propostas monetizadas de assinatura no streaming são as principais responsáveis por esse aumento de audiência nas plataformas digitais.
Quem está liderando o crescimento são as plataformas FAST, que nada mais são do que a proposta modernizada da TV aberta tradicional.
Em troca de publicidade, a audiência recebe aquele conteúdo de graça, tal e como sempre fez. Isso mostra que a audiência segue optando por não querer pagar pelos conteúdos que assiste.
E, é claro, mostra que eu estava certo o tempo todo, pois falei sobre isso bem antes dos números da Nielsen mostrar o cenário prático dessa realidade.
O futuro

Pela primeira vez em 2025, o streaming superou a TV aberta em investimentos de conteúdo. Segundo a Ampere Analysis, as plataformas digitais investiram US$ 95 bilhões globalmente em novas produções, representando 39% do total contra 37% da TV aberta.
Essa transferência de recursos evidencia a mudança de poder no setor. As emissoras tradicionais enfrentam fuga de espectadores e redução de receita publicitária, enquanto os serviços digitais expandem seus orçamentos de produção.
A Nielsen consolidou-se como referência global para análise de audiência digital e linear. O The Gauge tornou-se padrão-ouro para medição de streaming, permitindo ajustes estratégicos precisos por empresas e anunciantes.
YouTube, Netflix, Hulu, Prime Video e Disney+ lideram o setor, mas o crescimento dos serviços gratuitos indica diversificação contínua. A competição intensificará nos próximos anos, com maior inovação em formatos e integração entre TV linear e streaming.
É o fim da TV tradicional?

Não necessariamente.
A TV tradicional mantém relevância em grandes eventos ao vivo, especialmente esportes, mas seu papel será progressivamente redefinido. O consumidor permanece no centro das decisões estratégicas das empresas de mídia nesta nova era digital.
O que a TV precisa fazer é se reinventar, da mesma forma como o rádio fez.
Quando a TV chegou ao grande público, ousaram dizer que o rádio iria desaparecer. O que foi uma ignorância sem tamanho dos analistas da época.
O rádio soube se reinventar. Deixou de lado o entretenimento e a simples reprodução musical para entregar emissoras temáticas, focadas no jornalismo, nos esportes e até nos estilos musicais segmentados.
O grande problema para a TV é que ela já se tornou segmentada antes mesmo do streaming chegar. Já temos os canais de diferentes categorias como parte da programação regular.
E até mesmo para os canais segmentados a vida passa longe de ser fácil, pois a internet em si contribuiu para a queda de audiência da TV tradicional antes mesmo da chegada de gigantes como YouTube e Netflix.
É difícil dizer como a TV pode se reinventar. Muitos apostam que a TV por assinatura, tal e como conhecemos, vai desaparecer.
Na verdade, já começou. As plataformas de TV paga no formato de streaming estão aparecendo justamente para evitar o desaparecimento.
E até elas sofrem com a ameaça do IPTV alternativo.
Sinal dos tempos. Uma mudança que, ao que tudo indica, é definitiva.
Via TVLine

