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Seu Bluetooth sabe mais que sua terapeuta

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Sabe aquela sensação de que o celular está te ouvindo? Aquela propaganda cirurgicamente certeira sobre um assunto que você acabou de comentar?

Eu tenho certeza de que isso já aconteceu com todo mundo pelo menos uma vez na vida. Você fala para a sua esposa que precisa comprar azeite e, poucos segundos depois, você é bombardeado por propagandas de supermercado oferecendo descontos exclusivos no item.

Se você sempre achou que o microfone do smartphone estava espiando suas conversas, pode deixar esse mito de lado. Na verdade, existe um ecossistema assustadoramente eficiente que usa Bluetooth e Wi-Fi para te rastrear com mais precisão do que o próprio GPS.

 

Um absurdo cruzamento de dados

Um estudo liderado por pesquisadores espanhóis escancarou um dos maiores conluios da privacidade moderna: os SDKs — pacotinhos de código aparentemente inofensivos — que vêm embutidos em milhares de aplicativos.

Eles não só escaneiam o ambiente em busca de redes Wi-Fi e beacons Bluetooth como também cruzam essas informações com seu ID de publicidade.

Na prática, esses pedaços de apps sabem que você está parado no corredor do leite desnatado número dois do supermercado da esquina, às 15h46 de um sábado.

E não é força de expressão ou exagero da minha parte. É literalmente isso o que acontece.

Os pesquisadores identificaram pelo menos 52 SDKs com capacidade de escaneamento ativo, usados por mais de 10 mil apps, que somam espantosas 55 bilhões de instalações no mundo todo.

Pelo menos 86% desses aplicativos combinam os dados de localização com informações pessoais. Tudo isso muitas vezes sem você sequer ter dado permissão explícita de localização.

A porcentagem, por si, é assustadora o suficiente para que todos concluam o óbvio: todo mundo que tem um smartphone nesse momento é monitorado de alguma forma, e a grande maioria não faz a menor ideia de que isso está acontecendo.

Que dirá dar autorização para esse monitoramento.

 

Um golpe sujo por parte dos desenvolvedores

O truque sujo está no uso de bancos de dados públicos com coordenadas GPS de milhões de beacons e redes Wi-Fi.

Quando o seu celular “fareja” um desses pontos, o app já sabe onde você está — mesmo com o GPS desligado, já que esse posicionamento foi previamente determinado pelas redes de internet sem fio.

É como jogar geoguessr com sua vida real, só que quem ganha é a indústria da publicidade hiper segmentada.

Vou explicar melhor como o sistema funciona a partir de um exemplo prático.

Você entra numa loja de conveniência e fica um tempinho perto da seção de energéticos. Minutos depois, recebe um anúncio de suplemento para malhar.

Coincidência? Só se for no horóscopo.

Outro exemplo mais sinistro: você baixa um app de namoro, que pede acesso ao Bluetooth. Conecta-se ao Wi-Fi do bar onde você marcou o encontro com o seu match e pronto — o app sabe quem é seu par, onde vocês estão e, com alguma sorte (ou azar), até que música romântica tocava no ambiente.

O estudo será apresentado na conferência PETS, voltada à privacidade, em Washington, e levanta um alerta sobre como estamos entregando nosso histórico de localização de bandeja.

O que antes parecia mágica ou teoria da conspiração agora é apenas engenharia de dados. Os apps não ouvem. Eles farejam. E, pelo visto, têm um olfato de cão farejador.

Portanto, da próxima vez que um app pedir permissão para usar Bluetooth, pare e pense: será que ele precisa mesmo disso pra te mostrar o clima?

Ou será que vai te seguir até o corredor das fraldas tamanho G?

Estamos sendo rastreados O TEMPO TODO — e sorrindo enquanto clicamos em “Permitir” sem ler nas permissões solicitadas pelos aplicativos.

É claro que o que esses apps fazem é algo desonesto.

Mas como somos nós que permitimos que isso aconteça, a culpa é nossa (também).

 

Via El País


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