
Sabe aquela sensação de que todo mundo começou a querer levar um e-reader no bolso da calça?
Não é só impressão sua. Ao que parece, o Kindle é grande demais para uma geração que quer um leitor de livros eletrônicos que realmente cabe no bolso.
Literalmente.
A Onyx, que até então parecia bem confortável dominando a faixa dos leitores digitais grandes e dos modelos que mais parecem smartphones com tinta eletrônica, resolveu que está na hora de encarar um desafio diferente.
E o BOOX Picco é exatamente isso: a resposta da marca a um movimento que, sinceramente, já vinha acontecendo há algum tempo sem que ela participasse ativamente dele.
Um nicho que cresceu pelas beiradas

É interessante observar como o mercado de e-readers sempre foi meio bipolar.
De um lado, você tem os gigantes como o Kindle e o Kobo, com suas telas de 6 a 7 polegadas, pensados pra quem quer a experiência completa de ler um livro digital. De outro, uma turma mais alternativa, que resolveu radicalizar na portabilidade e lançar aparelhos minúsculos, muitas vezes com telas de 4 polegadas ou até menos.
Foi aí que marcas menores, principalmente do mercado chinês, começaram a fazer sucesso com esses dispositivos quase do tamanho de um cartão de visita.
A Xteink, por exemplo, pegou carona nessa onda e conseguiu construir uma reputação sólida nesse segmento. Eles entenderam que nem todo mundo quer carregar um tablet ou um e-reader tradicional na mochila — tem gente que só quer algo pra ler no metrô, na fila do banco ou naquele tempinho morto entre um compromisso e outro.
E por muito tempo, a Onyx ficou de fora dessa conversa.
Até que…
O que a Onyx trouxe pra mesa

Com o Picco, a empresa está oficializando sua entrada nesse território.
As informações disponíveis até o momento — e que ainda são relativamente escassas, é bom que se diga — apontam pra um aparelho com tela ePaper monocromática de 3,97 polegadas. Isso coloca o dispositivo bem na média do que já existe no mercado de mini e-readers, mas com um diferencial importante: a iluminação frontal, que não é exatamente uma novidade, mas que faz toda diferença quando você tenta ler num quarto escuro ou num avião com as luzes apagadas.
Outro ponto que me chamou bastante atenção foi a confirmação de que o Picco terá slot para cartão microSD. Isso, para mim, é um detalhe que muita gente subestima, mas que pesa demais na decisão de compra.
Pode parecer besteira, mas quando você viaja ou quer levar uma biblioteca inteira no bolso, poder expandir o armazenamento sem depender de nuvem é uma mão na roda. Fora que, convenhamos, nem todo mundo tem paciência para ficar gerenciando espaço em dispositivo que não permite upgrade de memória.
A Onyx também está posicionando o Picco como parte da nova linha BOOX Tile, o que pode significar que não será um lançamento isolado, mas sim o começo de uma família de produtos compactos.
Ainda é cedo para cravar, mas a movimentação sugere que a empresa quer levar esse segmento a sério e não apenas testar as águas com um modelo único.
As grandes perguntas (que ainda estão sem resposta)

Agora, vamos ao que realmente importa e que ninguém ainda conseguiu responder com clareza.
A resolução da tela continua sendo um mistério. E isso não é um detalhe menor, porque em um dispositivo com apenas 4 polegadas, a densidade de pixels pode fazer a diferença entre uma experiência de leitura agradável e uma que força seus olhos a se ajustarem constantemente.
A Onyx já mostrou que sabe fazer telas boas, mas… será que vão caprichar aqui ou vão economizar para manter o preço competitivo?
Falando em preço, a empresa mencionou que o Picco será “acessível”, mas o que exatamente isso significa no universo Onyx?
Porque, convenhamos, a marca não tem exatamente um histórico de preços populares. Os modelos da linha Palma, que são os mais compactos da empresa até agora, não são exatamente baratos.
Então essa promessa de acessibilidade precisa ser analisada com cuidado. Ainda mais considerando que os concorrentes diretos, como os da Xteink, costumam praticar preços bem agressivos.
O sistema operacional é outra grande interrogação.
A Onyx tem tradição de usar o Android em seus dispositivos, o que permite instalar apps de leitura de diferentes lojas. Será que isso vai se repetir no Picco?
Porque se eles colocarem um sistema muito fechado, pode ser que percam justamente o diferencial que atrai muitos compradores pra marca.
Por outro lado, se mantiverem a abertura, o aparelho pode se tornar uma opção versátil demais pra ser ignorada.
Bateria, processador e memória RAM também não tiveram nenhum detalhe oficial divulgado. E isso é um ponto que me deixa um tanto cético, porque o que adianta ter um aparelho compacto e bonito se ele não dá conta do recado em termos de desempenho?
Especialmente considerando que telas ePaper consomem pouca energia, mas o mesmo não pode ser dito de conexões Wi-Fi, luz frontal e outros componentes.
O jogo de xadrez da Onyx
Na minha modesta opinião, o movimento da Onyx com o Picco vai além do simples lançamento de um produto. É uma jogada estratégica interessante, porque a empresa está entrando num segmento onde a concorrência é forte mas ainda não consolidou um líder absoluto.
A Xteink tem feito um bom trabalho, mas está longe de ter o reconhecimento de marca que a Onyx já construiu no mundo dos e-readers.
O ponto aqui é que a Onyx tem uma vantagem que seus concorrentes menores não têm: o nome já é conhecido, a marca já tem credibilidade no nicho. Então, se eles conseguirem entregar um produto que equilibre bem portabilidade, qualidade de tela e preço, é bem possível que consigam roubar uma fatia significativa desse mercado.
Mas também existe o risco de quererem fazer um produto muito sofisticado para um segmento que valoriza simplicidade e custo-benefício. Porque esse público não está procurando um smartphone com tinta eletrônica. Eles querem algo que seja pequeno, funcional e, acima de tudo, barato o suficiente pra não doer no bolso se acabar perdido ou esquecido em algum canto.
Um veredito que ainda não está escrito
O que me deixa com um pé atrás em toda essa história é a quantidade de informações que ainda não foram confirmadas.
Data de lançamento? Nada. Disponibilidade por região? Também não. Ficha técnica completa? Nem perto de ser revelada
Isso me faz pensar que talvez o anúncio oficial tenha sido feito um pouco antes do ideal, talvez pra testar o interesse do mercado ou talvez porque a Onyx esteja correndo atrás do prejuízo por ter demorado a entrar nessa brincadeira.
Enquanto isso, tudo o que temos são especulações baseadas em teasers e em alguns comunicados de imprensa. Muita coisa pode mudar até o lançamento de fato, e é importante ter isso em mente antes de criar expectativas irreais.
No fim das contas, o BOOX Picco é uma promessa interessante, mas ainda não passa disso. Se a Onyx entregar o que parece estar prometendo — um mini e-reader com tela iluminada, boa construção, sistema aberto e preço justo —, pode ser que a gente esteja diante do novo favorito do segmento. Mas se cortarem caminho na qualidade ou no software, pode acabar sendo só mais um na multidão.
O que eu acho que dá para afirmar com segurança é que, pelo menos, a Onyx finalmente acordou para esse mercado que estava crescendo sem ela. E dependendo de como jogarem as cartas, podem transformar o Picco num produto que vai incomodar bastante a concorrência.
Resta esperar os próximos capítulos dessa história para ver se a empresa vai conseguir transformar seu “preço acessível” e seu tamanho de bolso em armas realmente competitivas.
Via Liliputing, NotebookCheck, eWritable
