O primeiro videogame que os meus pais me deram foi um clone do Atari vendido no Brasil pela CCE. Era o que os meus pais podiam pagar. Nintendo 8 Bits e Master System eram caros na época. E, ainda assim, eu adorei: Enduro, River Raid, Decathlon, Asteroids, Space Invaders… tantos jogos… tantas tardes de jogatina…

Eu fui crescendo, e mudando de videogame de tempos em tempos: Top Game (Nintendo), Master System, Mega Drive, Super Nintendo, PSOne, PS2, PS3, Xbox 360, PCs… passei dias atirando em patos com Duck Hunt, batendo em bandidos em Streets of Rage 2, enfrentei lutadores do mundo todo em Street Fighter 2, arranquei a cabeça de muita gente em Mortal Kombat, matei terroristas com Counter Stirke. Derrotei Ayrton Senna em Super Monaco GP 2. Salvei a Princesa em Super Mario World.

Tantos jogos.

Eu não realizei a maioria dos meus sonhos mais loucos que os videogames me ofereceram, com exceção de um: ser um viciado em tecnologia. Se hoje eu escrevo sobre um universo tecnológico fascinante, cobrindo os principais lançamentos do mercado no Brasil e no mundo, é porque também eu joguei muito videogame no passado.

Aliás, o videogame em muitas vezes foi a minha companhia quando os meus pais não estavam presentes. Era o terreno seguro. Principalmente nos meus momentos de frustração: no lugar de bater em alguém que me provocava na escola, eu dava socos, chutes e hadoukens no Sagat, ou acabava com o chefão final de Final Fight.

Eu tenho 40 anos hoje, e passei pelo menos 32 anos da minha vida (que eu me lembre) jogando videogames.

Eu nunca matei alguém. Eu não sou um assassino.

Hoje, nem gamer direito eu sou. Me tornei jornalista e músico porque eu amo essas duas coisas muito mais do que eu amo os videogames. Hoje, eu sou um gamer casual. E continuo não matando pessoas.

Eu poderia ser um assassino. Não sou.

E a culpa não é e nunca foi dos videogames.

 

 

Culpar os videogames por qualquer massacre é algo simplório, vindo de pessoas que não sabem elaborar um raciocínio aprofundado, ou para quem quer se esquivar da responsabilidade e culpa pelos lamentáveis eventos que somos obrigados a testemunhar de tempos em tempos. Para mim, quem alimenta a cultura de ódio em seu discurso objetivo, acredita que armar a população é a solução para o combate à violência (que passa por tantas questões de gestão pública que não vem ao caso debater nesse post) e entende que, no caso específico do massacre de Suzano, se os professores e funcionários do colégio estivessem armados, tal tragédia seria evitada… me desculpe pelo linguajar que eu vou usar caro leitor, mas quem pensa assim simplesmente defeca pela boca, pois as chances de uma carnificina se estabelecer em tal cenário são gigantescas.

Policiais experientes sabem disso.

Eu quero lembrar que uma única funcionária do colégio conseguiu salvar 50 estudantes. Sozinha. Sem armas. Apenas bloqueou a porta que dava acesso à sala onde todos eles estavam.

A culpa pelo massacre de Suzano não é dos videogames. Está bem longe disso. Também não é das armas, apesar de entender que a tragédia não aconteceria se os assassinos não tivessem um acesso facilitado às mesmas.

Eu quero ir além.

A culpa é nossa. De todos nós.

Ninguém percebeu que vivemos hoje a cultura de ódio, que está crescendo no Brasil e ao redor do mundo há pelo menos duas décadas. Nós, como sociedade, estamos envenenados e alimentamos hoje de forma frequente a política do “resolver tudo na base do tiro e da porrada”. Queremos justiça a todo custo, mesmo que isso resulte em um derramamento de sangue. E, se possível, que seja o sangue do outro, e não do nosso.

De forma irresponsável, somos seletivos na criminalidade. A morte de Marielle Franco pode ser ignorada porque ela era uma mulher negra, lésbica, de esquerda e denunciava atitudes criminosas de policiais corruptos. O tempo mostrou que ela tinha razão em fazer isso, mostrando que ela foi vítima daqueles que ela combatia. Porém, por acusar policiais, foi marginalizada pelo coletivo.

 

 

Os assassinos de Suzano são vítimas de um coletivo que romantizou a violência em níveis absurdos. E tudo isso começou na tragédia de Columbine (EUA), em 1999. Ali, tudo começou. Uma geração inteira começou a olhar para aquele caso como algo épico, e começou a reproduzir o ato como se fosse o grande marco de suas vidas.

E os pais dessas crianças? Onde estavam?

Trabalhando fora de casa, bebendo, traindo a esposa ou o marido, a mãe ausente dentro de casa assistindo novela. Pais sem tempo para acompanhar os filhos. E.. na boa? A culpa é dos pais dessa geração. Ou seja, quem tem entre 35 e 40 anos e é pai ou mãe hoje tem parte da culpa. Nós somos lenientes demais com os filhos. Nós entregamos a tal liberdade a mais para eles. Nós induzimos eles ao erro de não respeitar os mais velhos, os professores e, obviamente, os próprios pais.

OK, pode nem ser você que está lendo esse texto. Eu estou tentando abordar a raiz do problema em um sentido mais amplo, na tentativa de mostrar que colocar a culpa nos games é algo imbecil e perigoso, pois ao pensar assim não se combate a cultura do ódio, que é a principal raiz do problema.

 

 

E a cultura do acreditar que é possível resolver tudo na base do tiro, porrada e bomba no Brasil não nasceu com Jair Bolsonaro (que sempre defendeu essa teoria em seu discurso), mas sim com o filme Tropa de Elite (2007). O Capitão Nascimento virou herói nacional ao combater o crime com as táticas mais extremas, e eu considero esse filme o início da construção do “Mito” que hoje é “presidente”. A diferença é que o Capitão Nascimento é um personagem de ficção. Já Bolsonaro é real. E ficção e realidade não se repetem.

Cultura do ódio, minha gente. Um adulto ensinar uma criança a fazer pose de arminha é alimentar a cultura do ódio. Um pai que diz que vai deixar o filho ir para a escola armado para dar tiro na cabeça de petista é alimentar a cultura do ódio. Criar um videogame onde um candidato a presidente tem como objetivo matar o maior número de negros, homossexuais e militantes de esquerda e achar isso legal é alimentar a cultura de ódio.

 

 

A culpa não é dos videogames. Nunca foi.

São gamers. Não assassinos.

Eu imploro. Vamos ser mais inteligentes nesse aspecto.