O guru do marketing moderno Stanley Rapp afirma que o segredo do sucesso está “na experiência da marca superando a percepção que se tem dela”. E no mundo da tecnologia, em algumas oportunidades, tal experiência é tão intensa como a de um festival de música ou uma torcida de futebol.

Os dispositivos de tecnologia não apenas conectam pessoas, mas também os seus interesses afinidades. E tanta gente gostando da mesma coisa só pode resultar em outra coisa: uma comunidade de fãs. Ou pior: em uma comunidade de fanboys.

Tá, vou tentar não ser tão provocador nesse texto.

Os fãs são um fenômeno antigo. Vem dos tempos do auge da cultura pop. Mas o termo fã vem do latim ‘fanum’, em alusão aos fiéis mais devotos de uma religião. Logo, não é nenhum absurdo dizer que um fã de tecnologia se comporta como um fanático religioso.

 

 

Dos Apple fanboys até os Mi Fans

 

Nos últimos anos, se existe uma comunidade de fã que cresceu ao redor do mundo foi a dos fãs da Xiaomi. Eles não são apenas devotos da marca. São verdadeiros doutrinadores, tal e como alguns membros de alguns segmentos religiosos. Eles não ficam satisfeitos em apenas utilizar os seus dispositivos, mas precisam “pregar a palavra” e tentar convencer o máximo de usuários a adotarem os dispositivos da Xiaomi como tábuas de salvação.

Os fãs da Xiaomi conseguem (em algumas oportunidades) ser mais fanáticos que os Apple fanboys, que até então eram os mais insuportáveis na defesa de algumas decisões esdrúxulas de Steve Jobs. Hoje, esses dois grandes grupos adotam o seu fanatismo de maneiras diferentes, e eu ainda consigo entender melhor o pessoal que defende a Xiaomi do que a turma que defende a Apple.

A Mi Community não apenas é mais próxima entre si, como também é mais próxima da própria Xiaomi, que convida os seus seguidores para apresentações de produtos ou eventos relacionados, sem falar que os usuários podem propor atividades que estreitam o laço entre as duas pontas, como oferecer feedback sobre novos produtos.

Se bem que não podemos desprezar o fato da Apple conseguir um monte de fãs ao redor do mundo com iPhones que custam o olho da cara. Tudo bem, isso hoje é mais brando. Mas… você se lembra das filas que se formavam em frente das lojas da Apple antes do lançamento de um novo iPhone? Pois é. Eu me lembro. O hype pode ter passado hoje, mas no passado foi tão forte quanto é o da Xiaomi nesse momento.

É o mesmo comportamento aplicado pelos fãs de música, Marveletes contra DCnautas, Sonystas vs Caixistas, PC vs Mac, iPhone vs Samsung e outros grandes duelos de fanboys. Cada um vai acabar se aproximando daquilo que tem maior afinidade, em um trabalho de evangelização que levanta sérias dúvidas sobre o nível de racionalidade dessas pessoas sobre o que elas realmente estão defendendo na vida.

Os dois grupos terão argumentos para justificar a sua fidelidade para uma ou outra marca, mas muito mais levando em conta o valor que pagaram para cada produto do que levantando elementos técnicos para uma discussão. Por outro lado, nos últimos temos, observamos que as guerras entre marcas de tecnologia resultam, na maioria dos casos, em fanboys (e fangirls) cada vez menos centrados em depreciar um ao outro, e mais propensos em se aproximar por algo que pode unir essas pessoas em torno de coletivos minimamente organizados.

E assim, nascem as comunidades.