Press "Enter" to skip to content

Por que um botão no controle remoto não resolve o problema da TV aberta (na minha opinião)

Sabe aquela sensação de ver os principais canais de televisão aberta perdendo o trem da história e, num ímpeto de desespero, tentar segurar qualquer coisa que esteja ao alcance das mãos, incluindo o próprio trem em movimento?

É exatamente assim que eu enxergo a atual movimentação dessas corporações por aqui. Tudo soa meio desesperado e patético.

Globo, SBT, Band e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão estão, segundo apurações recentes, articulando um decreto presidencial para obrigar fabricantes de Smart TVs a incluírem um botão físico dedicado à TV aberta nos controles remotos da geração atual de aparelhos.

A ideia, que teria partido do SBT e ganhado o apoio das concorrentes, tenta adiantar uma obrigação que já está prevista, mas apenas para o padrão TV 3.0.

A proposta até encontrou eco no Ministério das Comunicações, que confirmou estar discutindo o assunto internamente. Mas, ao olhar para essa movimentação com um pouco de distanciamento crítico, não consigo deixar de pensar: estamos mesmo tratando da doença ou apenas enfeitando o curativo?

E pior: será que não estão criando um efeito colateral ainda mais indigesto? Afinal de contas, os produtos seriam customizados para o Brasil, o que pode deixar as Smart TVs locais mais caras.

E ninguém quer isso.

 

A briga não é sobre um pedaço de plástico

Vamos combinar uma coisa: o controle remoto moderno deixou de ser aquele acessório simples que a gente usava para trocar de canal e ajustar o volume. Hoje, aquela peça de plástico que cabe na palma da mão se tornou uma das superfícies publicitárias mais disputadas do planeta.

Os fabricantes de televisores — Samsung, LG, TCL, Philips — negociam com gigantes como Netflix, YouTube, Prime Video e Disney+ a posição de cada logotipo impresso ali. É um leilão silencioso, movido a milhões de dólares, que acontece muito antes de o consumidor sequer ligar o aparelho pela primeira vez.

As emissoras, por sua vez, argumentam que, por prestarem um serviço público fundamentado em concessões estatais, não deveriam precisar pagar pedágio algum para ter seu espaço garantido.

A lógica tem um pingo de razão, sim, mas peca pelo anacronismo. Porque a briga verdadeira não está na superfície física do controle, e sim na arquitetura invisível que decide o que você vai assistir assim que a tela acende.

 

O que me preocupa de verdade

Sei que pode parecer estranho alguém defender que uma emissora de TV não deveria ter um botão dedicado. Mas não é sobre a falta de um atalho que eu estou falando.

O que me inquieta é a tentativa de tratar um problema estrutural com uma gambiarra de hardware.

A primeira questão que me vem à mente é de ordem prática.

Quantas pessoas, nos grandes centros urbanos, ainda conectam uma antena UHF na parte traseira da televisão?

A realidade é que o consumidor médio compra uma Smart TV, conecta ao Wi-Fi e passa a consumir vídeo exclusivamente pela internet. O sinal de TV aberta nem chega a ser sintonizado.

O pouco que a TV aberta foi utilizada em 2026 foi durante a Copa do Mundo FIFA. Nem mesmo em jogos de futebol dos campeonatos regulares teremos um uso mais amplo do serviço.

Um botão que, ao ser pressionado, exibe uma tela de “Sem Sinal” me parece mais um gesto de frustração do que uma solução.

Em segundo lugar, me pergunto se essa demanda não revela um certo descolamento da maneira como as pessoas consomem conteúdo hoje.

O público mais jovem, por exemplo, cresceu com a lógica do sob demanda. Para ele, a ideia de se sentar em frente à televisão em um horário determinado para ver o que a programação oferece é algo tão estranho quanto usar uma fita VHS.

Forçar a linearidade através de um atalho físico não vai mudar esse comportamento; no máximo, vai gerar um clique seguido por um rápido retorno ao menu principal.

 

Onde a TV aberta está perdendo o jogo

Se eu pudesse me sentar com os executivos dessas emissoras frente a frente em uma churrascaria rodízio (com o almoço pago pelo cartão corporativo deles, obviamente), diria a eles que estão atirando no alvo errado.

A perda de relevância não está na ausência de um botão, mas em quatro batalhas muito mais profundas:

  • A ascensão dos fabricantes como novos gatekeepers: Sistemas operacionais como Tizen, da Samsung, e webOS, da LG, controlam a tela inicial das Smart TVs. E mais: essas empresas criaram suas próprias plataformas gratuitas de canais lineares via streaming, financiadas por anúncios. O Samsung TV Plus e o LG Channels competem diretamente pela verba publicitária da TV aberta, sem depender de antenas ou concessões públicas. Eles viraram, na prática, novas emissoras.
  • A fragmentação do consumo: As gerações mais novas não conhecem o conceito de “horário nobre”. O que existe é o “meu horário”. Eles consomem o que querem, quando querem, guiados por algoritmos que aprendem seus gostos. A grade de programação engessada perdeu sua força.
  • A guerra das métricas: Enquanto a TV tradicional vende anúncios baseados em amostragens estatísticas, o mercado de TV conectada opera com dados precisos, segmentação demográfica e mensuração de conversão em tempo real. É uma diferença abissal de precisão e, consequentemente, de valor.
  • A verdadeira revolução que se aproxima: A TV 3.0 não é uma atualização qualquer. Ela unifica a transmissão por sinal aberto com a internet banda larga, sob o protocolo IP. Os canais deixarão de ser números (como 4.1 ou 5.1) para se tornarem aplicativos integrados, com resolução 4K e publicidade personalizada.

 

O que me parece uma saída minimamente aceitável

Não me entenda mal. Eu não quero que a TV aberta morra.

Ela tem um papel cultural e social imenso, especialmente em um país continental como o Brasil, onde ainda é o principal veículo de informação e entretenimento para milhões de pessoas.

Mas a resposta para a crise de relevância não está em forçar a inclusão de um botão de plástico. O caminho, na minha visão, passa por uma reinvenção mais corajosa.

Se as emissoras querem de fato garantir seu espaço no futuro, elas deveriam concentrar seus esforços em três frentes.

A primeira, e mais urgente, é a integração transparente dentro dos sistemas operacionais das Smart TVs, assegurando que o aplicativo do canal esteja visível e funcional na tela inicial, independentemente de um atalho físico.

A segunda frente é uma entrega técnica impecável. A modernização para o padrão TV 3.0 não pode ser apenas uma obrigação regulatória, mas uma oportunidade de oferecer qualidade de imagem, som e interatividade que os streamings puros não conseguem entregar.

E a terceira e, talvez, a mais desafiadora frente, é a produção de conteúdo.

Não adianta ter o melhor botão do mundo se a programação não for relevante. O público precisa ser atraído pela qualidade do que é oferecido, e não pela facilidade mecânica de um clique.

A briga é por atenção, e essa se vence com conteúdo, não com botões no controle remoto ou atalhos na interface da Smart TV.

 

Via Tecnoblog, F5 (Folha)