
Ultimamente, não dá para dizer que o setor de telefonia móvel está algo que podemos chamar exatamente de “inovador”, principalmente nos aspectos de design dos dispositivos.
Se até mesmo a Samsung abandonou as telas curvas para voltar para o display plano e básico, que dirá outros fabricantes. Alguns entendem que inovar é colocar o couro vegano na parte traseira do telefone, o que é algo até bacana, mas não é algo exatamente “inovador”.
A verdadeira inovação na telefonia móvel está no software, humanidade. Mais especificamente, na inteligência artificial. Pois é ela quem vai trazer mudanças significativas na experiência do usuário. E os fabricantes precisam se ligar em ensinar esses usuários.
O papel secundário do hardware

Hardware potente não é relevante para a telefonia móvel atual. Os avanços tecnológicos são mínimos neste aspecto, e um bom smartphone de linha média pode entregar uma ótima experiência de uso. E muitos vão se perguntar se realmente precisam vender um rim para ter um Galaxy S24 Ultra para ser feliz.
A grande maioria dos usuários precisa de necessidades básicas. Logo, ter uma maior quantidade de armazenamento ou um processador muito potente pode não ser algo tão relevante assim para os usuários mais casuais.
Além disso, o simples fato do smartphone ter espaço limitado impede mudanças radicais no hardware. E na prática, temos smartphones muito potentes, com especificações técnicas muito parecidas.
E a principal diferença entre eles está no único aspecto onde os fabricantes podem mudar ou inovar: no software.
O software é o novo protagonista

O software é responsável por oferecer recursos e funcionalidades que podem melhorar a usabilidade, a segurança, a personalização e a interação dos usuários com os aparelhos.
E os usuários contam com a vida ainda mais complicada quando se deparam com um Android que tem múltiplas caras. Cada interface de usuário é uma forma de uma marca oferecer a sua identidade e interpretação do sistema operacional do Google, mas isso mais confunde do que ajuda.
Alguns fabricantes são competentes em oferecer tutoriais para ensinar o usuário a manejar nos novos recursos de software. E isso não é um elogio: entendo que é obrigação da marca com o consumidor, que paga caro por um telefone e, em muitos casos, fica que nem um idiota olhando para tela, sem saber o que fazer direito.
O melhor exemplo da Samsung em como apresentar os novos recursos em um smartphone é o próprio Galaxy S24 Ultra, que abraçou a Inteligência Artificial com toda força através da Galaxy AI, que entrega uma experiência de uso bem diferente dos seus principais concorrentes.
Sem falar nos recursos nativos que já estava presente nas gerações anteriores do dispositivo, o que faz do telefone premium da Samsung um dos melhores da temporada.
Mas de nada adianta o telefone ter tudo isso se os usuários não sabem usar os novos recursos de IA. Então, a Samsung fez a lição de casa: produziu uma série de vídeos mostrando como o usuário pode se beneficiar das novas funcionalidades.
O Google Pixel 8 Pro, que também aposta na IA para se diferenciar dos demais, é outro exemplo de inovação de software. E aqui, ele tende a ser ainda mais singular com a chegada do Gemini Nano no dispositivo.
Aqui, não temos vídeos em série explicando os novos recursos. Mas o Google deu um bom tempo durante a apresentação do telefone para mostrar o que ele é capaz de fazer (e como fazer isso).
A essa altura do artigo, não é difícil pensar que o caminho para qualquer fabricante de smartphone Android para convencer o consumidor é mesmo a customização de software.
E em 2024, a principal aposta é na naturalização da Inteligência Artificial no smartphone, integrando recursos inteligentes em tarefas simples ou que já fazem parte do cotidiano do usuário.
Ou seja, os fabricantes precisam se preparar para ensinar todo mundo a usar os novos recursos e, dessa forma, valorizar de forma objetiva os novos telefones. Ou me pagar para fazer o trabalho deles, com vídeos tutoriais.
Os usuários querem recursos interessantes e acessíveis

Na verdade, não é apenas o desejo de ter recursos inovadores nos telefones, mas que os fabricantes deixem esses recursos bem na cara dos usuários. Várias funções avançadas no smartphone são ignoradas ou subutilizadas pela maioria das pessoas.
Um exemplo disso é o modo “Pro” da câmera, que permite ajustar manualmente diversos parâmetros da fotografia, como exposição, foco, ISO e balanço de branco. Esse recurso pode melhorar significativamente a qualidade das imagens capturadas pelos usuários, mas muitos não sabem como ativá-lo ou usá-lo adequadamente.
Até porque os fabricantes destacam o recurso nas apresentações dos smartphones, mas poucos se dedicam a fazer o trabalho básico de mostrar como utilizar essa função para os usuários mais leigos. Apenas os especialistas ou Pros usam o modo Pro de câmera.
Outro exemplo é o bloqueio do balanceamento de branco, que permite manter uma temperatura de cor constante nas imagens, o que é bem útil para evitar variações indesejadas na tonalidade das fotos.
Agora… responda com sinceridade: você, pessoa que gosta de mandar memes e mensagens de Bom Dia no ZapZap… você sabia o que era “bloqueio de balanceamento de branco” até ler essa frase no parágrafo anterior?
Sim… eu sei que a resposta muito provavelmente é NÃO. Mas a culpa não é sua por não saber que esses recursos existem.
É o fabricante que poderia (ou melhor, deveria) fazer algo melhor neste aspecto.
O desafio na ativação de recursos escondidos

Ativar recursos escondidos nos smartphones é um enorme problema para os usuários mais leigos. Afinal de contas, essas funcionalidades avançadas estão escondidas em configurações específicas, exigindo uma navegação em menus que pode ser um processo confuso para os usuários mais leigos.
E eu estou sendo gentil quando falo sobre confusão. Muitos usuários precisam passar por uma faculdade de física quântica para usar o próprio telefone.
Não é estranho ver tantos usuários frustrados e desinteressados por essas funcionalidades que, por mais que ofereçam benefícios objetivos para as tarefas do dia a dia, acabam sendo ignorados ou esquecidos.
E tudo isso acontece porque falta uma orientação mais aprofundada por parte dos fabricantes. No final, os produtores de conteúdo de tecnologia ficam com a árdua tarefa de apresentar e ensinar os usuários em como usar essas funcionalidades.
Em muitos casos, não recebemos absolutamente nada para fazer esse trabalho.
Quanto tempo a humanidade levou para descobrir que a parte traseira do iPhone contava com o recurso de interação por toque para executar ações personalizadas, como abrir aplicativos ou tirar screenshots?
Isso aconteceu porque a Apple basicamente escondeu o recurso no iOS e nem se importou em mostrar de forma clara para os usuários que a funcionalidade existe. E tem gente ignorando essa dica até hoje.
Além disso, a própria customização de dispositivos pode resultar em recursos invisíveis em alguns telefones. Não são todos os smartphones Android que podem gravar as chamadas telefônicas, e alguns dispositivos pedem a permissão prévia do interlocutor.
Ou seja, não é uma configuração universal, o que deixa os mais leigos ou aqueles que trocaram de smartphone confusos. E isso é péssimo para quem só quer utilizar uma função diferente no telefone.
A necessidade de mudanças na experiência do usuário

A inovação do software tem como principal objetivo melhorar a experiência do usuário com o dispositivo. Mas sem uma abordagem mais intuitiva e educativa, temos como resultado avanços tecnológicos subutilizados.
Os fabricantes de telefonia móvel devem investir em formas de tornar os recursos mais visíveis e acessíveis, além de instruir os usuários sobre o caminho das pedras para chegar até esses recursos.
Tutoriais interativos na primeira ativação do dispositivo, explicando didaticamente o funcionamento e os benefícios dos principais recursos é o mínimo que se pede para um fabricante que chega a cobrar mais de R$ 10 mil em um smartphone.
Nem todo mundo que compra um Galaxy S24 Ultra é um geek especialista em tecnologia. Aquele empresário com 70 anos de idade que tem dinheiro de sobra também tem o direito de ter um telefone premium, e merece utilizar todo o potencial que o dispositivo pode oferecer.
Além disso, notificações inteligentes e periódicas podem sugerir recursos que o usuário pode experimentar, mostrando como aquele recurso pode ser útil para determinadas situações.
Incentivar o usuário a explorar e descobrir os recursos e funcionalidades no smartphone é agregar valor ao investimento, e isso tem que fazer parte do DNA do fabricante.
Ou as marcas podem pagar os produtores de conteúdo que fazem vídeos de tutorial no YouTube de graça, fazendo o trabalho que as marcas deixam de fazer. E está tudo certo.
