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Por que o Xbox é um desastre

Tem uma diferença enorme entre uma empresa que erra e uma empresa que insiste no erro. O Xbox, nos últimos anos, virou exemplo do segundo caso.

Com o passar do tempo, estamos testemunhando o fato de que Phil Spencer, aquele mesmo que salvou o Xbox do desaparecimento, estava completamente perdido no final de sua era. E que a jornada a partir de agora tende a ser cada vez mais penosa para o gamer que apostou na plataforma.

Depois de ler o memorando de Asha Sharma e, principalmente, a matéria do Tom Warren para o The Verge, “Xbox is a disaster” (Xbox é um desastre), é difícil não sentir uma mistura de espanto e frustração.

Como uma divisão que gastou mais de 20 bilhões de dólares em cinco anos chegou a esse ponto de fragilidade?

A partir de agora, dou a minha opinião sobre tudo o que deu errado com o Xbox, resultando neste cenário de momento.

 

Uma crise que não nasceu ontem

O discurso oficial trata o “reset” como uma correção de rota necessária. Mas quem acompanha o mercado de consoles sabe que isso é, na verdade, a conta chegando com juros.

A aposta pesada no Game Pass, o modelo inspirado na Netflix, prometia crescimento infinito de assinantes. Mas a realidade entregou algo bem mais modesto.

Segundo os dados citados na reportagem, o serviço estaciona em torno de 30 milhões de assinantes, longe da meta de 100 milhões projetada para 2030. Essa é a prova de que o pilar central da estratégia simplesmente não sustentou o peso que a Microsoft colocou sobre ele.

Phil Spencer apostou alto em transformar o Xbox na “Netflix dos games”. E pagou o preço de forma quase inacreditável.

 

O preço de tentar ser tudo ao mesmo tempo

Existe um ponto em especial que me incomoda nessa história (entre tantos): a Microsoft tentou transformar o Xbox em conceito, não em produto. A campanha “This is an Xbox” resumia bem esse raciocínio, já que qualquer tela vira Xbox, seja PC, celular ou smart TV.

Só que marca forte se constrói com identidade, não com onipresença. Quando tudo é Xbox, nada precisa ser Xbox de verdade, e o consumidor comum simplesmente perde a referência do que está comprando.

O Xbox, como console de videogames, era um produto facilmente reconhecido. Como produto, não era tangível. E não estava pronto para rodar em todo e qualquer dispositivo.

De fato, a Microsoft daquela época queria mesmo acabar com o console. E entendeu com o tempo que não tinha condições de fazer isso.

Porque, depois de tanto tempo, os gamers da Microsoft sabiam muito bem o que era um Xbox.

Na verdade, sempre souberam.

 

Estúdios pagando a conta de decisões que não tomaram

A parte mais dura de toda essa crise recai sobre quem faz os jogos, não sobre quem toma as decisões de bilhões de dólares. Até porque os engravatados com altos salários só agora começaram a ser demitidos dos seus postos dentro da Microsoft.

Estúdios diversos aparecem nas reportagens da mídia especializada como possíveis alvos de fechamento ou venda forçada. Aqui, profissionais e gamers perdem em conjunto, já que as mentes criativas não contam com a estabilidade de entregar suas visões para os jogadores.

O detalhe mais revoltante nessas decisões é o timing que a Microsoft usa para adotá-las. Esses mesmos estúdios tiveram jogos anunciados poucos dias antes, no Summer Game Fest, o que gerou acusações de que os anúncios teriam sido usados como isca para atrair compradores.

Aqui é importante ser honesto: essa é uma leitura da imprensa, não um fato confirmado oficialmente pela Microsoft. Mas se isso acontecer desse jeito, é muita sacanagem por parte da gigante de Redmond (convenhamos).

Vale destacar os nomes que aparecem sob risco nas apurações:

  • Ninja Theory (Hellblade)
  • Arkane Lyon (Dishonored, Marvel’s Blade)
  • Double Fine (Psychonauts)
  • Compulsion Games (South of Midnight)
  • Undead Labs (State of Decay)

 

Hardware, discos físicos e o fim de uma era

Enquanto a crise de conteúdo se desenrola, o hardware também mostra sinais de esgotamento. E vários fatores entram na equação para deixar tudo ainda mais complicado para o futuro do Xbox.

Os custos de memória e armazenamento dispararam por causa da corrida global por infraestrutura de inteligência artificial, e isso afeta diretamente o próximo console, o chamado Project Helix. O dispositivo vai custar mais caro do que muitos estimavam e, aparentemente, nem Asha Sharma, nem a Microsoft podem voltar atrás no seu desenvolvimento e entrega.

Ou talvez não queiram mudar de ideia, já que o mercado pode simplesmente estabelecer que tudo vai ficar mais caro… e pronto.

A Valve anunciou a Steam Machine por US$ 1.049 no seu preço base. A Sony deve colocar o PS6 na casa dos US$ 1.000, e sem mídia física.

Por que não a Microsoft inflacionar o preço do seu console para o mesmo patamar de valor?

Segundo Jez Corden, a saída encontrada será eliminar o leitor de disco físico nativo. E aqui cabe uma ressalva: essa informação vem de uma fonte jornalística específica, e não de um anúncio oficial da Microsoft, então trata-se de algo ainda não confirmado publicamente pela empresa.

Mas não temos motivos para não acreditar que foi exatamente isso que a Microsoft pensou para resolver não só o problema dos custos, mas também das perdas nas vendas diretas e do mercado de revenda.

Com o digital, o usuário é obrigado a comprar da Microsoft, e a empresa terá todos os ganhos diretos com isso.

Só o gamer perde nessa.

 

O tabu que finalmente foi quebrado

O ponto mais chocante de toda a cobertura sobre o assunto é a possibilidade, hoje discutida abertamente, de transformar o Xbox em subsidiária independente ou até vendê-lo. Isso seria impensável há cinco anos, quando a Microsoft ainda tratava jogos como pilar estratégico de longo prazo.

Hoje, com a inteligência artificial consumindo boa parte do apetite de investimento da empresa, o Xbox virou um negócio que precisa provar seu valor internamente. E o mais irônico de tudo isso é que foi a mesma Microsoft quem ajudou a deixar o cenário da indústria de componentes do jeito que estamos testemunhando.

Tudo bem, sei que essa hipótese de venda ou spin-off aparece como especulação de bastidores relatada pela imprensa, e não como plano confirmado por Satya Nadella. Mas… quem duvida que não existe uma chance de isso acontecer?

 

Um diagnóstico difícil de contestar

A sensação que fica é que o Xbox se tornou um projeto que perdeu clareza sobre o que quer ser. E todos nós, que gostamos do console como produto, pagamos o caro preço da falta de visão coorporativa da empresa ao longo dos últimos anos.

Não faltou dinheiro, faltou direção. E, cá entre nós, isso é bem mais grave do que qualquer prejuízo trimestral.

Asha Sharma terá a hercúlia missão de tentar recuperar algo que está totalmente desconfigurado e descontextualizado. Se tudo der errado para o Xbox a partir de agora, nem dá para culpá-la tanto por isso.

O que é fato diante de tudo isso é que o Xbox é sim um desastre.

De difícil solução.