
O Super Bowl não é apenas uma partida de futebol americano como outra qualquer — é um fenômeno cultural que movimenta bilhões de dólares e paralisa os Estados Unidos todo início de fevereiro. E parte dessa aura grandiosa passa por um detalhe que muita gente nota, mas poucos entendem de verdade: os algarismos romanos estampados no nome de cada edição.
O Super Bowl LX que se aproxima carrega uma tradição numérica que já dura mais de cinco décadas, mas poucos conhecem suas verdadeiras origens e motivações. Esses números romanos, longe de serem meros ornamentos, são fruto de uma estratégia cuidadosamente planejada.
Apenas nas primeiras edições é que o evento não foi identificado por algarismos romanos, algo que foi implementado a partir do Super Bowl V em 1971. A mudança para os números romanos veio como uma solução para um problema logístico que confundia até mesmo os fãs mais dedicados.
Para quem cresceu contando em 1, 2, 3, ver “Super Bowl LX” no lugar de “Super Bowl 60” pode parecer um capricho desnecessário, quase uma provocação para quem não lembra das aulas de história antiga. Mas a verdade é que essa escolha tem raízes práticas e estratégicas que remontam ao início dos anos 1970.
A tradição virou marca registrada, literalmente, e ajudou a transformar um jogo de campeonato em algo que se sente maior do que qualquer outro evento esportivo do planeta. Entender como isso aconteceu é mergulhar numa história que envolve brinquedos de criança, marketing visionário e até medo de uma letra do alfabeto.
Como um brinquedo de criança batizou o maior jogo do mundo

Antes de existir o “Super Bowl”, o confronto final entre as ligas AFL e NFL tinha o nome absolutamente empolgante de “AFL-NFL World Championship Game” — um título tão burocrático e sem graça que parecia ter sido inventado por um comitê de advogados numa segunda-feira chuvosa. Ninguém conseguia lembrar desse nome numa conversa de bar, muito menos transformá-lo num evento que vendesse ingressos e atraísse anunciantes dispostos a pagar fortunas por 30 segundos de tela.
Foi aí que entrou Lamar Hunt, o lendário proprietário do Kansas City Chiefs e um dos fundadores da AFL, com uma inspiração que só poderia vir de um pai atento. Seus filhos andavam obcecados por uma “Super Ball”, aquela bolinha de borracha que quicava de forma absurda, e Hunt começou a usar o termo “Super Bowl” de brincadeira nas reuniões da liga — uma mistura do brinquedo com o sufixo “Bowl”, herdado de estádios universitários clássicos como o Rose Bowl, em Pasadena.
O comissário Pete Rozelle torceu o nariz no começo, achando o nome informal demais para um evento que pretendia ser grandioso, mas a força popular do termo foi impossível de conter. A partir da terceira edição, “Super Bowl” virou nomenclatura oficial, e o que começou como uma piada de pai acabou se tornando uma das marcas mais valiosas e reconhecidas do esporte mundial — prova de que às vezes a genialidade nasce nos lugares mais inesperados.
A confusão dos calendários e a solução romana

O motivo mais prático para a adoção dos algarismos romanos tem a ver com um problema que qualquer fã de NFL conhece bem: a temporada começa num ano e termina no seguinte, o que gera uma bagunça cronológica considerável. A temporada de 2025, por exemplo, só encontra seu desfecho no Super Bowl disputado em fevereiro de 2026, e essa defasagem ficava ainda mais confusa quando o jogo acontecia em janeiro, como era o costume até o início dos anos 2000.
A partir do Super Bowl V, em 1971 — logo após a fusão definitiva entre AFL e NFL —, a liga decidiu que numerar cada edição sequencialmente com algarismos romanos eliminaria a ambiguidade de qual campeonato pertencia a qual temporada. Em vez de dizer “o Super Bowl de 1971” e deixar as pessoas em dúvida sobre se era o jogo da temporada 1970 ou 1971, bastava falar “Super Bowl V”, e pronto: cada edição ganhava uma identidade única, independente do calendário civil.
Os quatro Super Bowls anteriores receberam a numeração romana retroativamente, e os dois primeiros — que ainda carregavam aquele nome quilométrico de “Jogo do Campeonato Mundial” — foram oficialmente rebatizados como Super Bowl I e Super Bowl II. A solução era elegante, funcional e, como bônus, dava ao evento um ar de permanência histórica que nenhum outro campeonato profissional americano conseguiu replicar com a mesma força.
O marketing por trás da toga: grandeza emprestada de Roma

Além da clareza, Hunt e os dirigentes da NFL entenderam que os algarismos romanos traziam consigo uma carga simbólica poderosa — uma espécie de gravidade imperial que transformava cada edição em um capítulo de uma saga épica, e não apenas mais um jogo numa temporada qualquer. Enquanto a World Series do beisebol e as finais da NBA simplesmente usam o ano correspondente, o Super Bowl se apresenta como algo que transcende o tempo, quase como se cada partida fosse um monumento erguido para a posteridade.
Essa estratégia de diferenciação funcionou tão bem que os algarismos romanos se tornaram indissociáveis da identidade visual do evento, aparecendo em logotipos, anéis de campeão, mercadorias oficiais e em praticamente toda peça de comunicação da NFL relacionada ao grande jogo. O anel do Super Bowl IV, por exemplo, trazia sete folhas de carvalho e sete de louro — uma referência direta à estética romana — homenageando os jogadores do Chiefs que haviam participado de três títulos da franquia.
É claro que isso irrita algumas pessoas todo santo ano, especialmente aquelas que precisam parar, pensar e fazer contas mentais para descobrir que “LX” significa 60, mas é justamente essa estranheza calculada que mantém o Super Bowl num patamar à parte. Nenhum outro evento esportivo nos Estados Unidos exige que você lembre de uma aula de civilização antiga para saber qual edição está assistindo — e, por mais que pareça um exagero, essa excentricidade virou parte do charme.
O aspecto prático por trás da tradição

Além do apelo estético, o uso de números romanos traz uma vantagem prática importante para a organização do evento. Como o Super Bowl acontece em um ano civil diferente da temporada em que é disputado, o sistema sequencial romano ajuda a manter clara a cronologia da competição, evitando confusões entre fãs e na mídia.
Para aprender matemática romana, é mais simples do que parece: o número LX (60) deste ano, por exemplo, significa simplesmente 50 (L) + 10 (X). O sistema segue a lógica de que os números menores que aparecem antes de um maior são subtraídos, enquanto os que vêm depois são somados, criando combinações que vão desde o I (1) até números mais complexos.
A escolha por esse sistema demonstra como a NFL conseguiu transformar uma necessidade prática em um elemento diferenciador que contribui para a identidade única do Super Bowl.
O Super Bowl 50: quando o “L” virou problema

Se a tradição dos algarismos romanos parece inabalável, a quinquagésima edição provou que até a NFL tem seus limites. Quando chegou a hora de planejar o logotipo do Super Bowl L, em 2016, os executivos da liga se depararam com um problema inesperado: a letra “L”, sozinha, não tinha o menor apelo visual e, pior ainda, carregava uma associação cultural desastrosa no universo esportivo americano, já que “L” é universalmente reconhecido como abreviação de “Loser” — perdedor.
Jaime Weston, então vice-presidente de design e marca da NFL, liderou uma equipe que testou nada menos que 73 versões diferentes do logotipo tentando fazer o “L” romano funcionar, mas nenhuma delas conseguiu transmitir a grandiosidade que o aniversário de 50 anos merecia. A solução foi inédita: abandonar temporariamente os algarismos romanos e usar um elegante “50” em dourado, celebrando o jubileu de ouro no “Golden State” da Califórnia, onde o jogo seria realizado, no Levi’s Stadium, em Santa Clara.
Logo na edição seguinte, porém, a NFL voltou aos trilhos romanos com o Super Bowl LI — aquele em que o New England Patriots protagonizou a maior virada da história contra o Atlanta Falcons — e deixou claro que a exceção confirmava a regra. Se a liga chegar ao centésimo Super Bowl, é bastante provável que teremos outra pausa criativa, já que “Super Bowl C” soa mais como uma nota musical ou uma vitamina do que como o maior espetáculo esportivo do planeta.
O império jurídico que protege cada numeral

A NFL não apenas criou uma tradição icônica com os algarismos romanos — ela a defende com unhas e dentes nos tribunais, tratando qualquer uso não autorizado do termo “Super Bowl” como uma invasão territorial digna de resposta militar. Empresas que não possuem contratos de patrocínio oficial são obrigadas a recorrer ao eufemismo “The Big Game” em suas campanhas publicitárias, porque até mesmo uma referência indireta ao nome pode render cartas de “cessar e desistir” enviadas pelo exército de advogados da liga.
Essa proteção se estende a variações criativas e tentativas de associação indireta, atingindo desde grandes corporações que tentam surfar na popularidade do evento até pequenos negócios locais que cometem o pecado de usar o termo em promoções sem autorização. O conceito jurídico de “Uso Justo Nominativo” permite que jornalistas e comentaristas mencionem o Super Bowl factualmente, mas qualquer sugestão de parceria comercial é imediatamente combatida.
Os algarismos romanos, nesse contexto, funcionam como um atalho visual tão poderoso que a NFL praticamente não precisa escrever mais nada para que o público reconheça do que se trata — basta ver um “LX” estilizado para saber que estamos falando do maior evento anual do esporte americano.
A exclusividade é o que permite à liga cobrar valores astronômicos por patrocínios e direitos de transmissão, mantendo o Super Bowl como um produto cuja marca é tão valiosa quanto o próprio jogo disputado dentro de campo.
A tradição dos números romanos se provou um elemento duradouro na identidade do Super Bowl, resistindo a tendências passageiras e se adaptando quando necessário, enquanto mantém sua essência como parte fundamental da história desse espetáculo esportivo único.
O Super Bowl LX, que será disputado em 8 de fevereiro de 2026, em San Francisco, Califórnia, entre New England Patriots e Seatle Seahawks, carrega em seu nome não apenas o número 60, mas seis décadas de uma tradição que mistura marketing visionário, estética clássica e uma dose generosa de ousadia.
E enquanto a gente continuar precisando de alguns segundos a mais para decifrar aquelas letras, o Super Bowl seguirá sendo exatamente o que sempre quis ser: um evento que se recusa a ser comum.
