
A Meta, empresa por trás do Facebook, Instagram e WhatsApp, está no centro de uma das polêmicas mais intensas do mercado de tecnologia em 2026. A companhia instalou um novo software de rastreamento nos computadores dos funcionários nos Estados Unidos para capturar movimentos do mouse, cliques e pressionamentos de teclas para uso no treinamento de seus modelos de inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, prepara uma das maiores ondas de demissões de sua história recente. E é quase impossível desvincular um evento do outro neste caso.
O timing não é coincidência. A combinação de vigilância comportamental e cortes em massa revela uma aposta calculada: substituir tarefas humanas por agentes digitais, usando os próprios trabalhadores como fonte de dados para acelerar o processo.
Vamos entender melhor o que está em jogo neste caso.
O que é o Model Capability Initiative
O software de monitoramento, chamado Model Capability Initiative (MCI), é instalado nos computadores de trabalho da companhia e acompanha o uso dos periféricos por colaboradores enquanto navegam por aplicativos e sites relacionados à sua função.
Não se trata de uma ferramenta genérica de monitoramento de desempenho. A ferramenta também tira instantâneos ocasionais do conteúdo nas telas dos funcionários para contexto, de acordo com um memorando publicado por um cientista de pesquisa de IA da equipe em um canal interno dedicado ao Meta Superintelligence Labs.
A divulgação veio de dentro da própria empresa, o que amplificou a repercussão pública.
A internet fornece volumes massivos de texto, imagens e vídeo para treinamento de modelos generativos, embora existam limitações legais significativas e ainda em disputa judicial. O mesmo não ocorre com dados de alta qualidade que documentem ações físicas ou interações virtuais em PCs da própria empresa.
Daí a lógica por trás da iniciativa.
Por que a Meta quer esses dados
O objetivo do exercício, de acordo com o memorando, é aprimorar os modelos da empresa em áreas em que eles ainda têm dificuldades, como escolher em menus suspensos e usar atalhos de teclado.
Na prática, a IA da Meta ainda imita mal o comportamento humano em tarefas rotineiras de escritório.
A Meta planeja monitorar o movimento de mouse, teclados e funcionários para o treinamento de agentes de inteligência artificial, cujo objetivo é replicar a interação humana com os computadores. O ponto central não é espionar trabalhadores, mas transformar comportamentos reais em conjuntos de dados funcionais.
O CEO Mark Zuckerberg já havia sinalizado no início do ano que a empresa poderia ver mudanças na força de trabalho por causa da tecnologia. Na chamada de resultados de janeiro, ele chamou 2026 de “o ano em que a IA começa a mudar dramaticamente a forma como trabalhamos.”
Como funciona na prática
Imagine um funcionário do setor financeiro da Meta abrindo uma planilha, navegando por abas, copiando dados e colando em outro sistema.
Movimentos do mouse, cliques em botões e navegação por menus suspensos estão entre os comportamentos que o treinamento pretende refinar. Cada uma dessas microdecisões, capturada em escala, vira material de aprendizado para agentes de IA.
Antes, a atividade de trabalhadores já era acessível, mas a monitoração com esse fim específico é uma prática nova para a Meta. A diferença fundamental é a intencionalidade: o dado coletado agora tem destino declarado e uso estruturado.
Relatórios indicam que startups mais antigas estão sendo reaproveitadas por suas comunicações corporativas, como arquivos Slack e Jira, para criar dados de treinamento adicionais para modelos de IA — o que mostra que a Meta não é caso isolado, mas representa um movimento mais amplo no setor.
O que a empresa diz sobre privacidade
A Meta tentou antecipar a reação negativa com garantias formais.
O porta-voz Andy Stone disse que os dados coletados não seriam usados para avaliações de desempenho ou qualquer outra finalidade além do treinamento de modelos e que havia salvaguardas para proteger conteúdos confidenciais.
Segundo a Meta, o MCI só coletará dados e não será usado para avaliar a performance dos funcionários, incluindo salvaguardas para proteger informações sensíveis dos trabalhadores. Por esse motivo, o monitoramento também é limitado somente aos colaboradores alocados nos Estados Unidos.
Embora não haja limite federal para a vigilância de trabalhadores nos EUA, especialistas apontam que leis europeias, como a GDPR, provavelmente proibiriam a ferramenta. Na Alemanha e na Itália, por exemplo, o monitoramento eletrônico de produtividade é ilegal ou restrito a suspeitas de crimes graves.
A reação dos funcionários e dos especialistas
Dentro da empresa, o clima foi de inquietação.
Aplicativos de monitoramento de funcionários costumam levantar discussões acerca de privacidade e são citados como elementos que geram um ambiente de trabalho pouco saudável. Relatos internos mencionaram o uso de termos como “distópico” para descrever a iniciativa.
A professora de direito da Universidade de Yale Ifeoma Ajunwa disse à Reuters que submeter funcionários de escritórios a esse nível de vigilância em tempo real era uma prática antes restrita a motoristas de aplicativo e entregadores.
O comentário aponta para uma mudança estrutural no perfil de quem está sujeito a esse tipo de rastreamento.
O rastreamento aplicado nos Estados Unidos dificilmente seria replicado nos países da União Europeia sem enfrentar barreiras legais difíceis de lidar. Legislações nacionais do bloco impõem restrições rigorosas ao monitoramento de ações de funcionários por empregadores.
As demissões em massa que chegam junto
Enquanto o monitoramento avança, os cortes também.
A Meta pretende cortar cerca de 10% de sua força de trabalho global — quase 8.000 funcionários — em uma rodada inicial de demissões no dia 20 de maio. A empresa também planeja demissões adicionais no segundo semestre do ano, embora detalhes como timing e escala ainda não estejam definidos.
Os cortes foram anunciados em um memorando interno enviado pela diretora de RH da empresa, Janelle Gale, que disse que as reduções de quadro visavam melhorar a eficiência e permitir que a Meta “compensasse os outros investimentos”.
A linguagem corporativa aqui é bastante reveladora: demitir pessoas para pagar pela infraestrutura de IA.
As demissões estão acontecendo enquanto a Meta registra lucros recordes, e a tensão gerada por isso impulsiona o verdadeiro contragolpe dentro da empresa. E não estamos falando aqui de uma empresa em dificuldade financeira cortando custos para sobreviver.
Muito pelo contrário. A Meta (ainda) está muito bem nos aspectos financeiros.
A não ser é claro que aquela porcaria chamada Metaverso tenha incinerado mais dinheiro do que todos nós imaginamos.
Os números que explicam a lógica financeira
A receita de 2025 da Meta alcançou 201 bilhões de dólares, alta de 22% em relação ao ano anterior. No primeiro trimestre de 2026, a receita foi de 56,31 bilhões de dólares, superando as expectativas de Wall Street de 55,45 bilhões.
O anúncio dos cortes vem após a empresa gastar 72,2 bilhões de dólares em despesas de capital em 2025, incluindo custos relacionados a data centers e outra infraestrutura de IA — valor que deve quase dobrar em 2026, com previsão entre 115 e 135 bilhões de dólares.
Zuckerberg foi direto sobre o motivo dos cortes:
“Basicamente temos dois grandes centros de custo na empresa: infraestrutura de computação e coisas orientadas a pessoas. Se estamos investindo mais em uma área para servir nossa comunidade, então temos menos capital para alocar para a outra.”
O padrão histórico de cortes da Meta
Em novembro de 2022, foram 11.000 cortes. Em março de 2023, outros 10.000 acompanharam o que Zuckerberg chamou de “Ano da Eficiência”.
Em janeiro de 2025, mais 3.600 foram dispensados, descritos como demissões baseadas em desempenho, embora funcionários com avaliações positivas tenham sido incluídos no grupo.
A rodada de maio representa uma mudança de reduções pontuais para uma reestruturação em toda a empresa que afeta todas as principais unidades de negócio. Áreas como Reality Labs, divisão social do Facebook, recrutamento, vendas e operações globais estão na lista.
A Meta está atraindo talentos de elite em IA com pacotes que chegam a 1,5 bilhão de dólares para um único engenheiro. As pessoas sendo contratadas não são as mesmas sendo demitidas. Esse é o ponto central.
O que está sendo construído no lugar
Alexandr Wang, CEO da Scale AI, foi contratado em junho de 2025 como Chief AI Officer para comandar o Meta Superintelligence Labs. A Meta adquiriu 49% da Scale AI por 14,3 bilhões de dólares para garantir o envolvimento de Wang.
Cargos tradicionais estão sendo substituídos por novos títulos: “AI builder”, “AI pod lead” e “AI org lead”. Aproximadamente 1.000 funcionários já foram afetados pela reformulação, e engenheiros de toda a empresa estão sendo transferidos para a organização Applied AI.
A empresa está construindo o Prometheus, um supercluster de IA de um gigawatt em Ohio que entra em operação este ano, e o Hyperion, uma instalação de 2.250 acres e 10 bilhões de dólares na Louisiana capaz de cinco gigawatts.
O cenário maior: uma crise de trabalho impulsionada por IA
A Meta não está sozinha nesse movimento.
Os mais de 20.000 cortes potenciais revelados pela Meta e pela Microsoft, meses após a Amazon anunciar suas demissões mais amplas de todos os tempos, podem ser apenas o começo.
As mesmas empresas que coletivamente gastam centenas de bilhões de dólares por ano para construir infraestrutura de IA estão buscando eficiências por meio da IA ao cortar funcionários.
O índice de Confiança dos Funcionários do Glassdoor mostrou que o setor de tecnologia registrou a maior queda anual de confiança de qualquer setor, caindo 6,8 pontos percentuais em março em relação ao ano anterior, para 47,2%.
Para especialistas em liderança corporativa, “isso representa uma mudança estrutural fundamental, e não uma correção temporária de mercado.” O que a Meta faz hoje com seus funcionários sinaliza o que outras corporações farão amanhã.
O que esperar daqui para frente
A diretora de RH da Meta afirmou que não há garantia de estabilidade para quem permanecer após os cortes. A incerteza não termina no dia 20 de maio.
Cortes adicionais planejados para o segundo semestre de 2026 ainda não foram finalizados em termos de timing ou escala, segundo a Reuters. A reestruturação, portanto, ainda está em andamento.
O que o caso da Meta revela, acima de tudo, é a lógica de um ciclo que está se tornando padrão no setor: usar comportamento humano como matéria-prima para treinar IA, e depois reduzir gradualmente a dependência do humano que forneceu esses dados.
Via: InfoMoney, Tecnoblog, The Next Web, CNBC, Fox Business
