
Não é um exagero, e não estou sendo alarmista. Os sites de tecnologia estão morrendo. Aqui no Brasil, e ao redor do mundo.
Recebi com uma certa tristeza a notícia da morte do Laptop Mag, uma das referências do setor lá fora. E esse desaparecimento veio mais ou menos no mesmo tempo que o AnandTech também anunciou o seu fim.
Existem algumas coisas em comum com esses términos de projeto, que vão além do fato de pertencerem ao mesmo grupo editorial.
E estou escrevendo sobre isso porque o fechamento dessas editorias é apenas um reflexo de algo que pode acontecer inclusive com o TargetHD.net.
O fim do Laptop Mag

Vamos começar por aquele que fechou as portas recentemente: o Laptop Mag.
Eu não sei há quanto tempo você, que está lendo este artigo, acompanha o mundo da tecnologia. Eu faço isso a sério desde 2005, e escrevo para a internet desde 2008.
Ou seja, já se vão pelo menos 20 longos anos de serviços prestados, ou de interação constante com o universo tech na internet.
O Laptop Mag tinha nada menos que 35 anos de vida.
O projeto começou como uma revista de tecnologia em 1991, para depois migrar totalmente para o digital em 2011, pelas mãos da TechMedia Network (hoje, Purch).
Desde então, se tornou uma das grandes referências entre as editorias do setor.
Por sua vez, a Purch foi adquirida pela Future PLC, proprietária de marcas relevantes como PC Gamer, Tom’s Hardware e TechRadar. E a Laptop Mag foi absorvida com a aquisição.
E coube à Future PLC desligar a Laptop Mag da tomada de vez, acabando com uma história que é tão longeva quanto a internet que conhecemos.
Não há informações se os artigos produzidos pela Laptop Mag serão migrados para outro site dentro do guarda-chuva de editorias da Future PLC, ou se vão cair no esquecimento.
O que é certo é que, além do lamentar por um grande website desaparecer dessa forma, é triste testemunhar que parte da história contada pelos seus jornalistas correr o risco de desaparecer para sempre.
E o que chama a atenção mesmo é que o Laptop Mag não foi o único que desapareceu recentemente entre as editorias de tecnologia.
Ele não está sozinho nessa.
O desaparecimento do AnandTech

Aqui, temos uma história semelhante, mas com o mesmo desfecho triste.
O AnandTech encerrou o seu ciclo após 27 anos de serviços prestados aos entusiastas do hardware ao redor do mundo.
Ao menos o site teve um post de despedida digno, redigido pelo seu último editor-chefe, Ryan Smith. E em suas palavras podemos começar a entrar no tema que me motivou a escrever esse artigo.
“… Poucas coisas duram para sempre, e o mercado de jornalismo de tecnologia escrito não é o que era antes – nem nunca mais será. Portanto, chegou a hora de a AnandTech encerrar seu trabalho e deixar a próxima geração de jornalistas de tecnologia ocupar seu lugar dentro do zeitgeist.”
O AnandTech foi criado em 1997 por Anand Lai Shimpi, que liderou o site até a sua aposentadoria do jornalismo, em 2014. Depois disso, ele foi trabalhar na Apple.
Na época, antes de sair do site que ele mesmo criou, Anand chegou a criticar o andar da carruagem do jornalismo online.
Em uma entrevista ao The Verge, Anand afirmou que estava frustrado com “a TV a cabo da internet”, em uma analogia sobre como a mídia online estava se afastando da análise aprofundada e de alta qualidade.
No lugar disso, todos estavam se tornando mais sensacionalistas, em busca do clique fácil e rápido.
E nisso, até eu faço a minha mea culpa.
No desespero de gerar engajamento e audiência, sinto que me perdi completamente no meu objetivo principal de compartilhar minhas opiniões e impressões sobre o mundo da tecnologia de forma mais racional e responsável.
E acabei me deixando levar pela superficialidade das hard news, ou pelos tutoriais com aproximadamente 500 palavras.
Palavras do Anand:
Algo que chamo de TV-cabo da internet. Nos últimos anos, parece que tem havido uma tendência de afastamento da compreensão final do conteúdo online e em direção aos princípios da grande mídia moderna (sensacionalismo e a tolice geral que você vê nos noticiários da TV a cabo dos EUA).
A transição não está nem perto de ser completa, mas sinto que essa é a direção que as coisas estão tomando. Temos que aprender com os erros de nossos antecessores, não repeti-los com uma tecnologia mais doce.
Ao longo dos anos, o AnandTech construiu uma base de leitores fiéis, justamente porque se afastou dessa ideia de pasteurização do jornalismo de tecnologia que testemunhamos há pelo menos 10 anos.
Em comum com o Laptop Mag, o AnandTech tem como seu proprietário o mesmo grupo Future PLC, que se comprometeu a manter suas postagens por tempo indeterminado.
Além disso, os fóruns ativos do site seguem em funcionamento, sendo moderados pela equipe da comunidade do grupo Future.
Por que o jornalismo de tecnologia está morrendo?
Para começo de conversa, porque ele se tornou algo muito mais parecido com o TMZ do que com os tradicionais sites de tecnologia, que analisavam produtos, comentavam as notícias e discutiam aspectos do mundo tech, tal e como estou fazendo neste artigo.
De novo: o TargetHD.net é parte do problema.
Eu não me lembro da última vez que sentei diante do notebook para escrever um artigo com mais de 1.000 palavras que fosse além da repercussão de uma notícia ou de um lançamento de produto.
Não me lembro da última vez que simplesmente decidi deixar as minhas ideias fluírem para compartilhar com o leitor o que estou pensando sobre um produto ou serviço.
Faço isso de forma mais natural e orgânica através do canal de vídeos e, mesmo assim, ainda sofro a pressão do Google para falar dos temas que a audiência quer ver e ouvir.
Nós abandonamos o que amávamos fazer em nome de um jogo contra um algoritmo, que precisava ser jogado a todo custo.
E todo mundo perdeu nessa história.
Nos iludimos com a crença de que viver de AdSense era o suficiente. Enchemos o site de propagandas e banners. Publicamos opiniões com base em briefings e leads enviados pelas marcas, sem ter a coragem de fazer críticas contundentes quando necessário.
Parte do problema é nosso.
Foi por nossa causa que as pessoas começaram a buscar outras mídias, se informando sobre qualquer coisa em outras plataformas.
O YouTube gera mais engajamento e responde a qualquer dúvida, principalmente em forma de tutoriais.
E aquela plataforma de vídeos curtos com dancinhas virou o novo Google para a Geração Z.
E para completar o combo, temos a inteligência artificial que, além ser mais rápida e eficiente, poupa o usuário de refletir sobre as respostas recebidas.
Afinal de contas, quem não gosta de ter o pacote pronto, entregue na tela do notebook ou do smartphone?
É meio alarmista dizer que o ChatGPT será o novo Deus dos burros, pois a coisa mais fácil do mundo para quem tem preguiça de raciocinar é retirar o senso crítico das pessoas.
Mas é o que está acontecendo.
Blogs e sites de tecnologia, que escrevem longos textos como esse, desenvolvem um raciocínio completo sobre o assunto, o que pode despertar no leitor o desejo de pensar no que acabou de ler.
Porém, infelizmente, a maioria das pessoas não estão interessadas nem mesmo em clicar em um link para ler um artigo. Que dirá em pensar no que alguém escreveu por mais de 1.000 palavras.
Com tudo isso, os sites e blogs de tecnologia estão cada vez mais obsoletos. As editorias estão menores, com demissões em massa.
E até mesmo os blogueiros “raiz” como eu deixaram de produzir artigos originais.
Tal e como esse que você está lendo (ou talvez não, pois não tem mais paciência com textos longos).
Existe alguma salvação?
De acordo com o Neil Patel, um dos maiores especialistas em blogs do planeta, sim. E eu quero acreditar nele, de verdade.
E é por isso que estou escrevendo este artigo. Porque acredito que conteúdos originais ainda podem atrair leitores de alguma forma.
Por isso, vou ter a coragem de, mais uma vez, mudar o meu ritmo de postagens aqui, para oferecer um conteúdo que eu realmente acredito que pode funcionar.
Para driblar a era das inteligências artificiais dominando a escrita, ou do Google boicotando os sites com um Gemini que entrega tudo na sua cara, a única salvação é oferecer o conteúdo mais autêntico possível.
Oferecer ao leitor a sua opinião, visão de mundo ou até mesmo a provocação explícita, na esperança de também extrair uma reação autêntica de quem está lendo.
Porque a autenticidade na escrita é algo que nenhuma inteligência artificial pode reproduzir, por melhor que seja o seu prompt.
É óbvio que ainda vou seguir utilizando os recursos disponíveis na tecnologia de momento para acelerar os processos.
Mas vou tentar ao máximo oferecer para os meus leitores o melhor conteúdo que minhas mãos e meu cérebro puderem produzir.
O TargetHD.net está no ar como site de tecnologia em português do Brasil (e conversando com brasileiros) desde 2008. São 17 anos (e contando) com uma história incrível para um cara que veio do interior de São Paulo, sem muitas perspectivas na vida.
Esse site é o meu maior projeto de vida. É o meu legado para a comunidade de produtores de conteúdo de tecnologia. É algo do qual tenho um enorme orgulho em manter, mesmo com todas as dificuldades.
É o que me fez chegar aonde estou.
Por isso, a partir de hoje, esse trabalho começa uma nova fase. Uma fase de produção de conteúdo autêntico, original e pessoal.
Você não será apenas informado sobre as novidades do mundo da tecnologia.
Você vai ter um parecer de alguém que acompanha esse mundo de perto nos últimos 20 anos – pelo menos (não estou considerando o fato de que jogo videogame desde o início da década de 1990, pois foi lá que meu amor pelo mundo tech começou).
E se você ficar por aqui, pode ter certeza que será um apaixonado por tecnologia, tanto quanto você é, que vai escrever o conteúdo que você vai ler.
O jornalismo tech pode sim estar morrendo.
Porém, eu serei um dos últimos a me atirar do navio.
Ou muito provavelmente vou afundar com ele.

