
Preparem os seus cartões de crédito, brasileiros endinheirados.
A decisão de introduzir uma versão “Ultra” na linha de dobráveis da Samsung no mercado brasileiro escancara uma mudança clara na conduta da empresa. Mudança essa necessária, já que a estratégia agora é buscar o bolso de quem não impõe limites para ostentar a última palavra em tecnologia móvel.
Com a chegada do Galaxy Z Fold8 Ultra ao mercado brasileiro, o teto de gastos para ter o modelo mais sofisticado da marca bateu a impressionante marca de R$ 19.399 na opção de 1 TB de espaço. Nem mesmo o modelo mais básico dessa nova família dá trégua ao consumidor, estreando por salgados R$ 14.599.
Essa jogada cria um patamar inédito de ostentação corporativa, reposicionando o formato flexível não como uma ferramenta de produtividade ampla, mas sim como um item de superluxo.
Alguém aí, que tem um cartão de crédito com fundos ilimitados, está interessado na compra do Galaxy Z Fold8 Ultra no Brasil?
A comparação com o modelo do ano passado

Olhar para o passado recente ajuda a dimensionar o salto financeiro praticado pela Samsung no país. E é certo que algumas pessoas vão usar a calculadora neste momento, mesmo que seja na base da brincadeira.
Na geração anterior, a versão topo de linha do Z Fold7 desembarcou custando R$ 16.599. Agora, o novo teto estabelecido pela variante Ultra representa um encarecimento nominal de R$ 2.800 para quem busca o máximo de memória e armazenamento.
Agora, agradeçam ao fato de a Samsung lançar o Galaxy Z Fold8, criando uma subdivisão entre seus dobráveis em formato livro. Esse é o modelo menos caro da série neste momento, mas ajudou a empurrar para cima o valor do, agora, modelo dobrável mais premium e completo da Samsung.
Para piorar, o antigo valor cobrado na estreia da opção intermediária de 512 GB do Fold7 virou o preço inicial da linha Ultra, que agora entrega somente 256 GB. E nem preciso me estender muito no que aconteceu aqui.
Exatamente isso que você está pensando: pague a mais para receber menos.
A marca tentou amaciar o impacto da pancada empurrando a versão convencional do Z Fold8 para patamares abaixo dos R$ 14 mil, mas a verdade é que o topo absoluto da categoria nunca esteve tão distante do público geral.
E o que é pior: com uma relação custo-benefício que também piorou.
A concorrência contribuiu para o aumento de preços

Toda essa audácia da Samsung na precificação dos seus dobráveis não acontece “do nada” ou em um vácuo comercial. A sul-coreana encontrou amparo nas estratégias agressivas de rivais asiáticas que decidiram testar a elasticidade do mercado brasileiro.
Aparelhos como o Honor Magic V3, tabelado em quase R$ 20 mil, e o Huawei Mate X6, que rompeu a barreira dos R$ 22.999 no lançamento oficial, criaram uma espécie de efeito anestésico sobre o consumidor. Sem falar no Huawei Mate XT Ultimate Design que, até hoje, recebe o indigesto título de “smartphone dobrável mais caro do mercado brasileiro”, custando indigestos R$ 32 mil.
Quando a Samsung viu que os concorrentes diretos estavam cobrando valores estratosféricos por aparelhos importados de nicho, a marca pensou: “É só a gente cobrar um pouco menos que eles, que tudo vai dar certo, já que vamos sair no lucro de qualquer maneira”.
A tabela de preços do Galaxy Z Fold8 Ultra estabelecida pela Samsung passa a impressão distorcida de ser razoável, embora continue exigindo quantias exorbitantes por um único dispositivo móvel.
O que dá para comprar com esse orçamento?

Quando colocamos esses números na ponta do lápis, a lógica financeira por trás do produto desmorona diante do custo de oportunidade.
O montante de R$ 14.599 cobrado pelo Ultra mais simples financia nada menos do que a dupla formada por um iPhone 16 Pro Max e um MacBook Air equipado com chip M3. Não é o ecossistema mais atualizado da Apple, mas é um conjunto de produtos de respeito para a maioria das pessoas.
Subindo para a versão de R$ 16.199, a mesma quantia paga um ecossistema completo da própria Samsung, juntando o Galaxy S25 Ultra a um notebook Galaxy Book4 Pro com tela AMOLED. O que é mais do que suficiente para que qualquer profissional de tecnologia, jornalista, estudante ou desocupado possa trabalhar bem o dia inteiro, cobrindo um amplo leque de possibilidades laborais.
Por fim, o valor da opção de 1 TB permite adquirir o smartphone mais caro da Apple e ainda sobra verba para um notebook gamer de alto desempenho equipado com placa gráfica dedicada. Se bobear, ainda sobra um troco para fazer um lanche em algum lugar, já que é raro sair de casa com mais de R$ 19 mil de saldo, comprar eletrônicos caros e não ficar com fome depois disso.
Não dá para te defender, Samsung!
Diante de escolhas tão distintas, fica difícil defender a aquisição de um único celular flexível em detrimento de uma bancada de trabalho inteira. E sei que o modelo chegaria ao Brasil caro de qualquer maneira.
Mesmo assim: não me imagino pagando quase R$ 20 mil em um único dispositivo de tecnologia, por melhor, mais exclusivo e diferenciado que ele seja. Ainda prefiro ter um ecossistema de produtos do que colocar toda minha usabilidade em um único gadget.
O Galaxy Z Fold8 Ultra até concentra feitos invejáveis de engenharia, possui um excepcional processador, um conjunto de câmeras melhorado e uma tecnologia que, em teoria, contempla todas as frentes possíveis para esse produto.
Contudo, o bom senso do mercado corporativo aponta em outra direção: nenhum aparelho dobrável, por mais moderno que seja, consegue entregar mais valor prático do que a união de dois dispositivos topo de linha dedicados.
E digo mais: nenhum produto de tecnologia deveria custar tanto apenas e tão somente por causa do seu formato diferenciado.
Para a grande maioria, a conta não fecha. E a minoria que pode pagar não vai se importar para nada do que escrevi neste artigo.
Via Mundo Conectado

