
Colocar um smartphone dobrável no bolso sempre teve menos a ver com utilidade prática e muito mais com ostentar o auge da engenharia móvel. Mas quando olhamos para a chegada do Galaxy Z Fold8 ao mercado brasileiro, fica evidente que a Samsung tentou vestir a carcaça de uma empresa consciente.
Ao trazer de volta a opção com 256 GB por R$ 12.599 — derrubando a barreira inicial cobrada no ano anterior com o Z Fold7 —, a fabricante sul-coreana criou uma narrativa de “acessibilidade”. Pelo menos em teoria, pois pagar esse preço em um smartphone, mesmo sendo dobrável, não é pouca coisa.
Além disso, a Samsung reduziu em quatrocentos reais na variante de 512 GB, o que não deixa de ser uma mudança nos valores de qualquer forma. Considerando o fato de que o dispositivo mudou de formato (adotando o formato passaporte, que achei uma decisão bem interessante).
Mas convém não engolir o discurso publicitário sem mastigar os fatos: essa manobra não torna o aparelho barato, apenas reorganiza o degrau da prateleira.
O topo verdadeiro agora atende pelo nome de Z Fold8 Ultra, liberando a versão convencional para parecer uma escolha racional, ainda que continue custando uma pequena fortuna para os padrões do consumidor brasileiro.
O que a concorrência direta oferece

O movimento ganha força pelo descalabro praticado pelas concorrentes chinesas que desembarcam no país. Os preços dos rivais diretos do Galaxy Z Fold8 são obscenamente mais caros, o que facilita de alguma forma a missão do novo dobrável da Samsung no Brasil.
Com a Honor tabelando o Magic V3 na casa surreal dos R$ 20 mil reais e a Huawei cobrando impressionantes R$ 23 mil pelo Mate X6, a Samsung faz o Z Fold8 parecer quase uma pechincha por comparação direta. E sempre fui muito crítico em relação aos preços cobrados para os dobráveis da marca chinesa.
E não estamos colocando na equação o Huawei Mate XT Ultimate Design, que chegou ao Brasil com preço superior aos INACREDITÁVEIS 32 MIL REAIS. É tão fora da realidade, que não dá para comparar com absolutamente nada.
Só que essa ilusão de ótica comercial não apaga o fato de que esses valores inflados de tabela logo despencam nas promoções do varejo. A regra para os smartphones Android ainda não mudou, e vale também para os dobráveis.
Para piorar a vida do novo lançamento, o verdadeiro rival do Galaxy Z Fold8 mora dentro de casa, por incrível que pareça.
As gerações anteriores, como o Fold6 e o Fold7, continuam perfeitamente funcionais e aparecem nas lojas por valores entre R$ 6.200 e R$ 8.500, entregando quase toda a experiência dobrável pela metade da conta e sem exigir o desembolso absurdo da nova geração.
A grande diferença do novo modelo está no formato. E quem se apaixonou pela tela mais quadrada, compacta e ergonômica, terá que pagar o preço por isso.
Onde os concorrentes indiretos atrapalham

É no custo de oportunidade que a conta do Z Fold8 perde o sentido para quem pensa com o bolso e trabalha com tecnologia.
Pela quantia cobrada no modelo básico do dobrável, qualquer profissional consegue montar um ecossistema completo de altíssimo nível. Com um orçamento de R$ 12.5 mil, dá para comprar um iPhone 16 Pro zerado e ainda colocar na mochila um MacBook Air de última geração.
Tudo bem, eu sei. Quem compra um telefone dobrável o faz por causa da proposta de design. Mesmo assim, não dá para dizer que não montamos um ecossistema Apple que atende a qualquer pessoa que queira usar a tecnologia a sério.
Se a preferência for manter tudo no universo Galaxy, o mesmo valor paga o topo de linha Galaxy S25 Ultra acompanhado de um notebook Galaxy Book4 Pro com tela AMOLED. Se você subir um pouco só o orçamento (algo que não é tão absurdo assim, considerando os produtos envolvidos), dá até para levar o Galaxy S26 de 512 GB para casa.
Para quem precisa de força gráfica pesada, o valor da versão de 512 GB do Z Fold8 financia a combinação do melhor celular convencional da Apple com um notebook gamer munido de placa dedicada RTX para tarefas exigentes.
Ou seja, é importante que cada um estabeleça prioridades na vida. E tão importante quanto é entender que o valor a ser pago por um produto pode ser melhor investido em um ecossistema que oferece um leque maior de possibilidades.
Mas a decisão é sempre sua. Só estou dando a minha opinião neste artigo.
O que vale mais a pena?
Trocar dois dispositivos especializados, portáteis e eficientes por um único aparelho que tenta ser celular e tablet ao mesmo tempo continua sendo uma escolha financeira questionável.
Ainda mais pagando este valor.
E, antes de terminar, é importante deixar uma coisa muito clara. Principalmente para o pessoal da assessoria de imprensa da Samsung que, com alguma sorte, vai ler este artigo no futuro.
O Galaxy Z Fold8 é indiscutivelmente uma peça de engenharia admirável, além de ser um excepcional smartphone premium. Eu mesmo gostaria de testar e até ter o dispositivo para o meu uso pessoal, trabalhando com ele a sério na produção e consumo de conteúdo.
Mas a sua precificação no mercado brasileiro só atende entusiastas dispostos a pagar a taxa do privilégio. Penso que só quem vai querer ter a exclusividade e o ineditismo oferecidos pela nova versão se sentirá realmente motivado a investir dinheiro nele neste momento de lançamento.
Para todo o resto do mercado, o bom senso dita que um ecossistema duplo (composto por um smartphone tradicional e um notebook robusto nas configurações) entrega muito mais produtividade, autonomia e durabilidade do que uma tela flexível que custa o preço de um escritório móvel inteiro e depreciará pela metade em poucos meses.
O Galaxy Z Fold8 é sim caro. Nasceu para ser caro.
O que é uma pena. Porque gostei muito dele.

