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Por que o Facebook “não é mais para amizades”

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A Meta enfrenta um processo antitruste histórico em Washington, onde seu fundador Mark Zuckerberg prestou depoimento na última segunda-feira (14/04). Durante o julgamento, o bilionário admitiu que o Facebook transformou completamente sua missão original nas últimas duas décadas, afastando-se das conexões pessoais para priorizar descoberta de conteúdo e entretenimento.

Para muitos, as declarações de Zuckerberg são “conversa fiada” ou “distorção de narrativa para desvio de foco”. Quem usa o Facebook todos os dias sabe muito bem que a plataforma deixou de ser sobre as relações entre amigos e familiares há muito tempo. Mas parece que os investidores não sabiam disso.

Muito provavelmente porque os investidores não usam o Facebook.

Vamos explorar algumas camadas mais profundas sobre as declarações de Mark Zuckerberg, e contar aquilo que ele não confessou no julgamento. Pois existem interesses ocultos que o CEO do Meta não poderia compartilhar conosto.

 

A confissão que chocou investidores

“A parte da amizade caiu bastante”, declarou Zuckerberg perante o juiz federal James Boasberg. A afirmação contradiz diretamente o conceito fundador da plataforma, que nasceu como espaço para cultivar relacionamentos pessoais.

De novo: novidade zero.

Hoje, as pessoas não usam o Facebook para fazer novas amizades ou fortalecer os elos de longa data. A plataforma virou um verdadeiro campo de batalha, com escancarada disseminação de discursos de ódio e preconceito, além de toda a desinformação disseminada pelas mentes mais inescrupulosas.

O depoimento ganhou dimensões ainda mais significativas quando representantes do governo apresentaram evidências internas sobre esse entendimento do Zuckerberg.

Um e-mail de 2022 revelou que o CEO considerou uma proposta surpreendente: eliminar completamente todas as conexões de amizade existentes na plataforma.

No memorando, classificado pelo próprio Zuckerberg como uma “ideia maluca”, o executivo sugeria duas alternativas radicais – intensificar o foco nas interações entre amigos ou migrar para um sistema baseado exclusivamente em “seguidores”.

A proposta mais extrema envolvia apagar integralmente os “gráficos sociais”, forçando usuários a reconstruir suas redes do zero.

Bom… dá para dizer que essa versão do Zuckerberg é bem mais próxima daquela interpretada por Jesse Einsenberg no genial filme “A Rede Social”.

Aliás, o próprio Eisenberg deu uma entrevista recentemente, afirmando que não gostaria de ser associado à uma personalidade como Mark Zuckerberg.

E Eisengerg está certo.

 

Resistência interna e preocupações estratégicas

Tom Alison, diretor do Facebook, respondeu negativamente à proposta, alertando sobre a inviabilidade, especialmente considerando a importância das conexões de amizade no Instagram.

Zuckerberg, aparentemente frustrado com a resistência, questionou:

“Você tem noção de quanto trabalho daria para converter perfis em modelos de seguidores?”.

A troca de mensagens internas expõe tensões na estratégia da empresa e levanta questões sobre o futuro das redes sociais como plataformas de conexão humana genuína.

E o mais grave não é exatamente a mudança de perspectiva do Facebook a partir da visão do seu criador. É o simples fato de Zuckerberg não se importar com o histórico construído pelos seus usuários ao longo de quase duas décadas de rede social.

Acontece que essa mudança (se executada) teria método e objetivos claros.

Zuckerberg sabe muito bem que o Facebook deixou há muito tempo de ser uma rede social de interações orgânicas e relevância em tempo real. E isso acontece porque outra plataforma que, de forma muito irônica, está nas mãos do seu rival e adversário direto: o X (finado Twitter), de Elon Musk.

Mesmo com “apenas” 300 milhões de usuários (aproximadamente – a conta pode variar, dependendo de quando você vai ler este artigo), o X é indiscutivelmente mais relevante para os internautas, grande mídia e empresas na sua capacidade de viralização e relevância como plataforma de comunicação rápida do que o Facebook, que conta com um número de usuários (pelo menos) 9 vezes maior.

Hoje, várias contas do Facebook (e aqui, não falo de páginas de produtores de conteúdo) já estão disponíveis apenas para que outros usuários possam seguir as postagens, sem a interação de amizade (que, neste caso, acontece se o dono da conta permitir).

Além disso, no modelo de negócio através de seguidores, o interesse do usuário por aquele conteúdo tende a ser mais genuíno, diferente do formato atual que, na grande maioria dos casos, aposta na convenção social (ou “sou obrigado a ter aquela pessoa na minha lista de amigos por pura obrigação”).

Se bem que… tem mais uma coisa que Mark Zuckerberg não falou no julgamento. E nem podia, pois toda a concorrência estava de olho nele.

 

O verdadeiro motivo para a mudança: coletar dados para treinar IA

A Meta já deixou bem claro para os seus usuários (bom… mais ou menos, já que fez isso em uma discreta mensagem) que vai sim utilizar os dados de interações do Facebook para treinar as suas plataformas de inteligência artificial.

Mas quando o xAI absorve o X (Twitter), consolidando de vez a manobra do Grok utilizar as interações da rede social para o treinamento da IA, tanto a OpenAI quanto a Meta levantaram as sobrancelhas, em claro sinal de alerta.

Lembra das tais “interações orgânicas” que mencionei mais cedo?

Com esse volume de dados espontâneos, a IA do Grok será treinada com uma eficiência muito maior do que as demais, pois vai receber dados que emulam o comportamento real dos usuários.

E não estou aqui falando da qualidade desses dados, pois o X virou um antro de fake news tanto quanto é o Facebook hoje. Falo da originalidade e espontaneidade desses dados, e a forma em como essas interações acontecem em um campo prático entre os humanos.

A OpenAI entendeu o movimento. Tanto, que Sam Altman agora quer uma rede social para chamar de “sua”. O ChatGPT, trabalhando com dados sintéticos e com conteúdos protegidos por direitos autorais, pode ficar para trás naquilo que uma inteligência artificial mais precisa fazer: emular o comportamento humano.

Para a Meta, o Facebook do jeito que está não consegue fazer isso. O volume de dados é sim gigantesco na rede social, mas sem essa interação orgânica e em “tempo real” como o X faz, ela perde terreno na corrida do treinamento mais eficiente de sua IA.

Eficiente… e barato, pois dados de usuários reais não custam nada para a Meta.

Não custa nada lembrar: quando algo é oferecido “de graça”, o produto é sempre o usuário.

 

Impacto potencial do julgamento antitruste

O processo contra a Meta, liderado pela Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC), poderá estender-se por até oito semanas. A agência reguladora acusa a empresa de práticas anticompetitivas, alegando que aquisições como Instagram e WhatsApp foram estrategicamente executadas para eliminar concorrentes.

Para vencer, a FTC precisa comprovar dois elementos: que a Meta detém poder monopolista no mercado de redes sociais e que agiu ilegalmente para conquistar ou manter essa posição dominante.

As consequências de uma derrota seriam devastadoras para o império digital de Zuckerberg. A Meta poderia ser forçada a desfazer-se de aquisições bilionárias, incluindo o WhatsApp, que sozinho gera aproximadamente US$ 10 bilhões anuais em receita.

O julgamento representa uma encruzilhada histórica não apenas para a Meta, mas para todo o ecossistema digital, potencialmente redefinindo os limites do poder corporativo nas plataformas sociais que moldaram a comunicação global nas últimas décadas.

O que consola Zucerberg neste momento é que o Google está enfrentando algo muito similar nos tribunais dos Estados Unidos. De repente, podem cair as duas. Ou uma pode ajudar a outra a salvar o seu caso.

Por outro lado, a gigante Microsoft passou por essa situação no passado, e perdeu. Foi obrigada a mudar a sua filosofia comercial para se manter no jogo. O que indica que temos um precedente jurídico CONTRA Meta e Google.

Veremos o que o futuro nos mostra sobre essas batalhas jurídicas do mundo tech.

 

Via Business InsiderThe Verge


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