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Por que o 99Food está de volta ao Brasil

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A 99, conhecida por seu serviço de transporte de passageiros, está pronta para retornar ao mercado de delivery no Brasil com uma proposta ousada: relançar o 99Food ainda este ano e investir até R$ 1 bilhão na operação.

A iniciativa marca não apenas a volta da marca ao segmento, mas também uma tentativa ambiciosa de disputar território diretamente com o iFood, líder absoluto no setor.

O plano não é modesto: além de oferecer preços mais acessíveis aos consumidores, a companhia quer integrar mobilidade, serviços financeiros e entrega de refeições em um superaplicativo nos moldes do que já acontece em plataformas populares na China, como WeChat e Meituan.

O projeto é comandado por Stephen Zhu, CEO da Didi, controladora chinesa da 99, que declarou em entrevista exclusiva à Folha de São Paulo estar confiante no potencial do mercado brasileiro e na receptividade de um app multifuncional.

 

Superapp é peça-chave da estratégia

Segundo Zhu, a ideia é transformar a 99 em uma plataforma essencial no cotidiano das pessoas. O novo 99Food será um dos pilares desse superaplicativo, que também reunirá serviços como o 99Pay, voltado para transações financeiras.

A empresa quer unir alimentação, mobilidade e pagamentos em um ecossistema digital completo — acessível, intuitivo e eficiente.

Essa aposta se apoia em um modelo que já mostrou resultados expressivos na Ásia. A Didi acredita que, ao criar sinergias entre diferentes serviços, será possível reduzir custos operacionais, fidelizar o usuário e entregar mais valor por menos dinheiro. O executivo também defende que o Brasil tem o perfil ideal para esse tipo de integração.

Com a palavra, Stephen Zhu, executivo principal da Didi:

“Queremos construir uma plataforma única em torno desses serviços que as pessoas não vivem sem. Criando pequenas melhorias, tornando-os mais baratos e acessíveis.”

 

Concorrência acirrada e cenário promissor

O mercado de delivery no Brasil está prestes a se tornar ainda mais competitivo. Além da 99, outra gigante chinesa do setor, a Meituan — maior plataforma de entregas do mundo, com 30 bilhões de pedidos por ano — já confirmou interesse em desembarcar no país.

Isso ocorre em um momento em que o iFood reina praticamente sozinho, sendo considerado por muitos um monopólio de fato.

A entrada de grandes concorrentes, com capital e estrutura robustos, deve provocar mudanças relevantes nos próximos meses. Zhu afirma que a nova fase da 99Food terá foco especial na ampliação da rede de restaurantes parceiros, especialmente pequenos estabelecimentos que ainda não estão em apps de entrega.

Além disso, haverá investimentos em logística, segurança e eficiência de entregas.

 

Compromisso com o Brasil e foco na acessibilidade

Diferente de outras empresas com interesses mais voltados à importação e exportação, a 99 deixa claro que sua prioridade é construir soluções locais.

A empresa quer empoderar a economia brasileira, colaborando com restaurantes independentes, profissionais autônomos e consumidores em geral. Zhu acredita que, ao agregar valor para todos os envolvidos na cadeia, a empresa conquistará sua relevância natural no país.

Uma das estratégias para atrair e reter consumidores será a implementação de programas de benefícios. “A cada corrida os clientes podem acumular pontos que se tornam descontos”, explicou o CEO.

O modelo de negócio visa criar um ecossistema que incentiva o uso contínuo de todos os serviços oferecidos pela plataforma.

A abordagem integrada permitirá que usuários dos serviços de transporte possam obter vantagens nos pedidos de comida, criando um ciclo virtuoso de utilização da plataforma como um todo.

Ele também evita entrar em polêmicas geopolíticas, como a guerra comercial entre EUA e China ou a mudança de governos no Brasil. Para o CEO, o que importa é a capacidade de adaptação e a entrega de um serviço de qualidade, acessível e eficiente.

O objetivo da 99 não é ser a maior em número de entregas, mas sim a mais útil, a mais prática e a mais vantajosa para os brasileiros.

 

Mais parceiros para reduzir custos

A nova empreitada da 99 visa enfrentar diretamente o atual dominante do setor no Brasil. O iFood estabeleceu uma presença tão forte no mercado nacional que seu nome se tornou praticamente sinônimo da categoria, levando alguns analistas a caracterizarem sua posição como monopolista.

A empresa já conta com uma base expressiva de aproximadamente 1,5 milhão de motoristas e motociclistas distribuídos em mais de 3.300 municípios brasileiros, o que pode representar uma vantagem competitiva significativa para a rápida expansão do serviço.

Para oferecer preços mais competitivos, a 99 pretende implementar diversas estratégias. Uma delas é a expansão da base de restaurantes parceiros, incluindo estabelecimentos menores e familiares que oferecem comida de qualidade a preços acessíveis e que ainda não estão presentes em plataformas de delivery.

Outra abordagem envolve o aprimoramento da eficiência logística. Zhu mencionou a possibilidade de um mesmo entregador transportar múltiplos pedidos em uma única viagem, o que reduziria os custos de entrega e, consequentemente, os valores repassados aos consumidores.

“Se pudermos criar um ambiente onde, em uma única viagem, eles [motociclistas] possam carregar vários pacotes de comida, as pessoas vão pagar menos. Com esse tipo de melhorias de eficiência, a base de custos geral dessa indústria melhorará gradualmente”, explicou o executivo.

 

Segurança como prioridade

Além das questões comerciais, a 99 também destacou sua preocupação com a segurança dos entregadores. Zhu mencionou duas frentes principais de atuação: prevenção de crimes e redução de acidentes de trânsito.

Para mitigar os riscos de acidentes, a empresa implementará alertas de excesso de velocidade, notificando os entregadores quando estiverem dirigindo em velocidade perigosa. Adicionalmente, a companhia fornecerá equipamentos de proteção, incluindo capacetes.

No aspecto da segurança contra crimes, a 99 já mantém parceria com autoridades policiais, como no caso do Rio de Janeiro, onde compartilha dados em tempo real sobre seus motoristas, contribuindo para a proteção dos profissionais.

A abordagem multifacetada à segurança reflete a compreensão da empresa sobre os desafios específicos enfrentados pelos entregadores no contexto brasileiro, demonstrando um compromisso que vai além das questões puramente comerciais.

Com a intensificação da concorrência no setor de delivery de alimentos, os próximos meses prometem ser decisivos para o redimensionamento deste mercado no Brasil, com potenciais ganhos para consumidores, estabelecimentos e profissionais de entrega.

 

Mercado em efervescência

O retorno do 99Food não é um movimento isolado no setor. O mercado brasileiro de delivery de alimentos promete entrar em ebulição nos próximos meses, com novas empresas de grande porte demonstrando interesse em operar no país.

A Meituan, gigante chinesa e maior player global do segmento, já manifestou seu interesse no mercado brasileiro e iniciou negociações com operadores logísticos locais. Com um impressionante volume de 30 bilhões de entregas anuais em seu mercado de origem, a empresa representa uma potência significativa caso concretize sua entrada no Brasil.

É importante reforçar que o 99Food não é uma novidade completa para os consumidores brasileiros. O serviço já operou anteriormente no país entre 2019 e 2023, coexistindo com outros players como Uber Eats, Rappi e Aiqfome, além do próprio iFood.

 

Previsão de lançamento e os próximos passos

Ainda sem uma data exata, o relançamento do 99Food está previsto para ocorrer até o final de 2025. A expectativa é que o serviço comece a operar em fases, priorizando regiões com alta demanda e boa infraestrutura de transporte.

Com um mercado em transformação, a chegada da 99Food pode representar um divisor de águas na forma como os brasileiros se relacionam com os aplicativos de entrega. A promessa de menor custo, eficiência logística e foco no consumidor pode, finalmente, oferecer uma alternativa real ao domínio do iFood.

Se os planos se concretizarem, o Brasil poderá ser palco da mais intensa disputa de mercado no setor de delivery da América Latina — e quem tem mais a ganhar com isso, no fim das contas, é o usuário final.

 

Via Tecnoblog, Folha de São PauloNeofeed


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