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A Netflix ressuscitou várias séries canceladas de outros canais ao longo dos anos, mas não faz isso com muita frequência com as suas produções originais. Assim como outros canais ou plataformas de streaming, que não se interessam muito pelas produções da empresa.

No caso das séries da Marvel, fica fácil explicar o cancelamento em massa: o fim do acordo com a Disney. Porém, o que pouca gente sabia é que se tornou algo comum o desinteresse da Netflix em renovar as suas séries menos badaladas.

Isso só foi revelado com o cancelamento de One Day at a Time (e a comoção que esse cancelamento gerou). A Netflix impõe em seus contratos um tempo entre dois e três anos para uma série cancelada não encontrar um novo lar, tornando a sua ressureição algo virtualmente impossível.

E isso é um enorme problema para elenco e produção das séries, que ficam presos ao contrato. Sem falar que as demais plataformas e canais que não se interessam em resgatar uma série depois de tanto tempo.

Um exemplo do quanto isso é ruim é o caso de American Vandal. Cancelada pela Netflix em 2018, a série era produzida pela CBS TV Studios. Em outro cenário, ela fatalmente seria resgatada, por ser sucesso de crítica e público.

 

 

 

Por que One Day at a Time foi uma exceção?

 

 

One Day at a Time foi cancelada em 14 de março de 2019, e a nova temporada da série estreou no Pop TV em 24 de março do mesmo ano. Mas aqui, a restrição contratual era diferente: a janela de delay de exibição de novos episódios era de alguns meses, mas os dois anos para encontrar uma nova casa estavam mantidos.

Por casualidade, o Pop TV é um canal pago de propriedade da ViacomCBS, que até queria que a série acabasse no CBS All Access. Por entender que a Netflix não ia gostar disso, ela optou por levar a série para o canal pago e, depois, exibir a produção na CBS (TV aberta). Mas não se descarta uma inclusão no serviço de streaming da empresa no futuro.

 

 

 

O que a Netflix oferece para impor algo assim?

 

 

Dinheiro e confiança (em forma de liberdade criativa). É isso o que a Netflix oferece pelo poder de cancelar séries e mantê-las na plataforma por três anos. Na produção de outros estúdios, uma série estreia e tenta ser vendida por um custo baixo para um canal de TV, e o preço pelos direitos de exibição vão aumentando conforme a produção aumenta a sua popularidade.

Na Netflix, é diferente: ela paga todos os custos de produção, mas 30% adicionais. Assim, a produtora está no lucro desde o começo, em troca de ceder algumas coisas, como por exemplo os direitos de distribuição internacional.

Ou seja, as séries vão custando mais caras com o passar do tempo. E é por isso que existe a maldição da terceira temporada da Netflix, com vários cancelamentos no terceiro ano (séries que não atraem novos assinantes não compensam para o serviço de streaming).

Mas essas séries podem interessar para outros canais ou empresas. E aqui está o pulo do gato da Netflix: se eu não quero, ninguém mais pode querer, e as séries ficam presas na plataforma por um tempo, até mesmo para que as mesmas percam interesse e valor de mercado.

 

 

 

Um futuro incerto

 

 

Será que a Netflix vai chegar em um ponto que não vai mais comprar séries de produtoras que não são suas? Na TV norte-americana, está estabelecido que cada canal vai ficar com séries realizadas por produtoras próprias.

Foi isso o que resultou no curioso cancelamento de Brooklyn Nine-Nine pela Fox e sua ressureição na NBC, que faz parte do grupo NBCUniversal, que por sua vez é dona da produtora da série. Está cada vez mais raro um estúdio vender a sua série para canais concorrentes.

Vamos ver o que o futuro reserva para a Netflix nesse aspecto, pois mais e mais serviços de streaming estão aparecendo, com condições bem restritas. Outra possibilidade é que as demais sigam o mesmo modelo de negócio, o que vai tornar a ressureição de séries em outros canais e plataformas algo cada vez mais difícil de acontecer.


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