
A Marvel Studios ainda lida com as maldições da “era Bob Chapek”, que fez o estúdio desenvolver projetos em escala industrial, o que comprometeu a qualidade como um todo.
Várias séries lançadas não deram certo. Outras foram canceladas antes mesmo da produção acontecer. Mas no caso de Coração de Ferro, que coloca Riri Williams como prodígio das armaduras tecnológicas, não tinha como voltar atrás.
A série vai estrear no Disney+ naquele sentimento agridoce do “não tem como desistir e jogar tudo fora, então vamos lançar da forma mais discreta possível”.
E isso, porque é uma série produzida por ninguém menos que Ryan Coogler, diretor de Pantera Negra.
Do entusiasmo ao abandono

Introduzida em Pantera Negra: Wakanda Para Sempre há dois anos e meio, Riri Williams representou uma das tentativas mais evidentes de crossover forçado na história do estúdio.
A produção de sua série própria finalizou em novembro de 2022, permanecendo engavetada desde então – um claro indicativo da mudança de prioridades no império Disney/Marvel.
A decisão em lançar Coração de Ferro como uma série de seis episódios dividida em duas partes (os três primeiros episódios vão ao ar em 24 de junho, e os três restantes em 1 de julho de 2025) mostra claramente que a Marvel Studios quer minimizar danos, e não maximizar sucessos.
Nem mesmo o nome de Ryan Coogler conseguiu reverter a decisão da Disney quanto ao projeto. Sem falar no timing horroroso para lançamento do trailer (na mesma janela do trailer final de Superman de James Gunn).
Não é a primeira vez que a Marvel Studios tenta esconder de todo mundo que tem uma série nova que está fadada ao fracasso.
O mesmo aconteceu com Echo.
O spin-off de Gavião Arqueiro foi reduzida de oito para cinco episódios, e estreou em janeiro, quando o grande público estava mais voltado para os playoffs do futebol americano da NFL.
Para o padrão de lançamentos semanais no Disney+, a mudança de protocolo ativa todos os sinais de alerta em fãs e especialistas.
Os números por trás do descaso

O investimento estimado nos seis episódios de Coração de Ferro gira em torno de 100 milhões de dólares – orçamento semelhante a outras séries Marvel produzidas nos últimos três anos.
Lançar essa série quase sem uma campanha de marketing representa, na prática, um sacrifício consciente do potencial retorno financeiro do projeto.
E, particularmente, eu nem achei o seu trailer ruim. Porém, vai ser muito estranho ver essa mesma Riri Williams crescida, desenvolvida e envelhecida se ela estiver lutando ao lado dos Vingadores em Doomsday.
Neste momento, a mesma Marvel Studios está focando esforços nos projetos com maior potencial de retorno para a sua reestruturação junto ao público.
Aqui, estou falando de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, a grande aposta do estúdio para preparar terreno para o que está por vir.
Outro projeto relevante para Kevin Feige é Demolidor: Renascido. Mesmo com uma primeira temporada regular, a série de Matt Murdock vai expandir o seu universo e, de quebra, resgatar a Jessica Jones do limbo.
E eu nem preciso me estender em comentários maiores sobre os dois filmes dos Vingadores que estão chegando.
Qualquer produção que não se alinhe a esse plano central foi relegada à categoria de “dispensável”. E Coração de Ferro é um desses projetos.
A mesma coisa deve acontecer com Wonder Man, que tem estreia prevista para o final de 2025. Essa série só não é sacrificada de vez porque o personagem já foi confirmado em Doomsday.
Se não fosse isso, a Marvel nem exibia.
Fatores externos que explicam (mas não justificam)

As transformações políticas nos EUA desde a filmagem de Coração de Ferro também influenciam este cenário de descarte absoluto da personagem e de sua trama.
Em 2022, uma super-heroína afro-americana desenvolvendo sua própria versão da armadura do Homem de Ferro harmonizava com as políticas de inclusão então vigentes.
Hoje, com Donald Trump na presidência e suas políticas contra a diversidade e inclusão, tal narrativa se tornou potencialmente controversa para a Disney.
O que é mais irônico de tudo isso é que Coração de Ferro carrega um considerável potencial narrativo, que poderia ser interessante inclusive para que a Marvel conquistasse o público mais jovem.
Nos quadrinhos, Riri Williams protagonizou arcos importantes como a herdeira conceitual de Tony Stark. E a direção de Ryan Coogler aponta para uma interessante qualidade produtiva.
O grande problema é o timing de lançamento.
Coração de Ferro se tornou um “produto esquecido no fundo da geladeira” – ou uma espécie de limão velho que é mantido por obrigação, não por convicção.
É a Marvel tendo que lidar com seus monstros do passado, eliminando os últimos vestígios de sua fase menos criteriosa.
A missão de conquistar a confiança de um público cada vez mais exigente e fragmentado é árdua. Os fãs querem histórias de qualidade, independente da visão de mundo.
E Coração de Ferro parece estar mesmo condenada ao sacrifício em nome da reinvenção da Marvel Studios, que se tornou vítima de si mesmo, de Bob Chapek (mesmo que ele seja passado), e do momento em que a série chega ao público.
Lamento por Riri Williams, mas a vida também é feita de verdades inconvenientes.

