
Antes de 2010, a bateria removível era um recurso indispensável nos celulares. Usuários frequentes de SMS e pessoas sempre em movimento carregavam reservas de bateria para fugir do temido aviso de energia baixa, já que a tecnologia da época era faminta por energia e os carregadores portáteis eram raros.
O mercado era outro. Nos primeiros anos da telefonia móvel, a grande maioria dos aparelhos contava com bateria removível pelo usuário, tornando a troca ou substituição do componente algo simples e acessível.
Com o tempo, a tendência ao design mais fino e durável com estrutura unibody foi se tornando cada vez mais prevalente entre os fabricantes, tornando quase impossível acessar a bateria sem ferramentas especializadas.
Mas isso vai mudar em 2027, quando as novas leis europeias sobre o tema entrarem em vigor. E a partir de agora, explico tudo o que você precisa saber sobre esse assunto.
A Apple e o início do design fechado

Desde o primeiro iPhone, nunca houve um modelo Apple com bateria removível no sentido tradicional, ou seja, com uma tampa traseira que o usuário pudesse abrir com as mãos. A bateria não foi projetada para ser acessada pelo consumidor com facilidade.
A Apple abandonou a ideia de produtos com bateria removível pelo usuário a partir de 2009. O último dispositivo Apple com bateria considerada “substituível pelo usuário” foi o MacBook de 2009, completando mais de 15 anos sem que o consumidor pudesse trocar a bateria de forma casual.
O impacto foi imediato no setor. Tanto o iPhone 6, quanto o Samsung Galaxy S6, lançados em sequência, passaram a ter traseiras seladas, tornando os aparelhos mais resistentes à água e mais compactos do que os modelos anteriores.
Por que a Samsung e outros fabricantes seguiram o mesmo caminho

A Samsung é um bom exemplo: a linha de flagships perdeu as baterias removíveis a partir do Galaxy S5. Desde então, a bateria ficou selada no aparelho e muitos outros fabricantes copiaram a abordagem.
A lógica por trás da mudança era técnica e comercial. Um dos principais motivos para a adoção de baterias não removíveis foi a possibilidade de usar materiais mais premium no design do celular. Nos novos modelos, os fabricantes passaram a criar um design “unibody”, permitindo aparelhos mais confortáveis de segurar e com visual mais sofisticado.
O ganho em resistência também pesou na decisão. A mudança melhorou a resistência à água e ao pó, além de aumentar a compacidade dos dispositivos, mas sacrificou a facilidade de reparo pelo usuário.
As vantagens reais do design fechado

Um design sem bateria removível permite melhor aproveitamento do espaço interno. Com a bateria removível, o aparelho precisa ser projetado de forma que o componente seja acessível, sem que nada o cubra, e ainda exige uma tampa com travas para mantê-lo no lugar. Com o design selado, todas essas peças extras desaparecem, resultando num produto mais fino e mais leve.
A segurança também entrou na conta. O design fechado elimina o risco do uso de baterias não originais. O emprego de componentes contrafeitos ou não certificados pode representar riscos sérios, e em um celular selado esse problema simplesmente não existe.
Há ainda o aspecto da rastreabilidade. Retirar a bateria facilmente abria caminho para que ladrões desabilitassem ferramentas de rastreamento como o “Find My Device”, e o design selado tornou a recuperação de aparelhos roubados muito mais viável.
Os argumentos a favor da bateria removível

As baterias têm vida útil limitada. Garantir que sejam removíveis e substituíveis é fundamental para prolongar a vida dos produtos além do ciclo de uma única bateria.
Para quem trabalha em campo, a diferença é prática e imediata. A troca rápida leva o celular de 0% a 100% em segundos sem parar tudo.
O dispositivo tem vida útil mais longa, pois uma bateria gasta pode ser trocada sem substituir o aparelho inteiro.
Para trabalhos em construção, logística ou serviços de emergência, não há tempo para aguardar horas de carregamento. Viajantes também se beneficiam, pois é possível levar baterias sobressalentes em vez de pesados power banks.
Por anos, os fabricantes priorizaram estética e resistência à água, muitas vezes à custa da capacidade de reparo pelo usuário. O resultado foi um ciclo de obsolescência programada, onde uma bateria com defeito frequentemente significava a compra de um aparelho novo, contribuindo massivamente para o crescente acúmulo de lixo eletrônico.
A regulação da UE que está mudando tudo
A Regulação de Baterias da União Europeia (2023/1542) exige que baterias portáteis incorporadas a produtos colocados no mercado europeu sejam removíveis e substituíveis. O objetivo é aumentar a vida útil dos produtos dos consumidores, reduzir o lixo eletrônico e ampliar o número de baterias recicladas e descartadas corretamente.
O prazo está definido. A regulação prevê que, até 2027, as baterias portáteis incorporadas em aparelhos sejam removíveis e substituíveis pelo usuário final, deixando tempo suficiente para que os fabricantes adaptem o design de seus produtos.
O requisito de remoção e substituição, que representa um desafio significativo de conformidade para os fabricantes, entrará em vigor em 18 de fevereiro de 2027. Unidades individuais de produtos colocadas no mercado antes dessa data não precisarão atender ao requisito.
A exceção que gerou polêmica

Após várias mudanças de direção por parte da Comissão ao longo do processo legislativo, as diretrizes indicam que, para baterias portáteis cobertas pelo regulamento Ecodesign para smartphones e tablets, o segundo prevalecerá sobre o Regulamento de Baterias, permitindo uma isenção importante para dispositivos que atendam a certos requisitos de longevidade e impermeabilização.
A crítica dos grupos de defesa do consumidor foi imediata. Além de ir diretamente contra o objetivo do próprio Regulamento de Baterias, a decisão arrisca criar um precedente perigoso para futuras exigências de Ecodesign específicas por produto, reforçando uma falsa dicotomia entre durabilidade e capacidade de reparo.
Ao contrário do regulamento aprovado pelo Parlamento Europeu, a lei Ecodesign para smartphones propõe um caminho alternativo de conformidade: desempenho de longa duração da bateria.
Especificamente, os fabricantes de celulares podem evitar os requisitos de substituibilidade em telefones equipados com baterias duráveis capazes de manter 80% da capacidade após 1.000 ciclos, equivalente a cerca de cinco anos de uso típico do consumidor.
O que a Apple já fez para se antecipar

O design interno do iPhone 16 e do iPhone 16 Plus foi reformulado para comportar uma bateria maior, dissipar calor com mais eficiência e tornar o serviço de troca de bateria mais simples.
No início de 2024, um relatório do The Information indicou que a Apple introduziria um novo método de substituição de bateria nos modelos iPhone 16, como exigência de uma nova lei europeia.
A solução encontrada pela empresa foi inovadora. O novo método pode envolver uma tecnologia de descolagem de adesivo por indução elétrica.
Usar baixa voltagem para remover a bateria exigiria que ela fosse encapsulada em metal, e esse invólucro metálico traz o benefício adicional de melhorar a regulação térmica do aparelho.
John Ternus, vice-presidente sênior de engenharia de hardware da Apple, explicou publicamente por que seria muito difícil fabricar iPhones com baterias removíveis novamente. Um dos motivos centrais é a resistência à água.
A posição dos fabricantes diante da regulação

Marcas como Apple, Samsung, Xiaomi, Nokia e outros fabricantes terão de ajustar o design de seus novos dispositivos para cumprir a regulação.
A transição representa um desafio técnico e de engenharia real, já que os designs unibody atuais são focados em integração e durabilidade.
Os principais obstáculos são bem conhecidos pela indústria:
- Manter a proteção contra água, pó e impacto sem abrir mão da bateria removível.
- Preservar a leveza e a finura que os consumidores esperam dos celulares modernos.
- Garantir que o usuário consiga substituir a bateria sem dificuldade excessiva, enquanto os fabricantes exploram opções como tampas traseiras removíveis por encaixe, parafusos intuitivos ou sistemas modulares.
Divergir dos padrões globais ao exigir variantes de produtos específicas para a UE aumenta os custos de design, fabricação e certificação, sendo um custo que, no final, recai sobre o consumidor.
Quem já aposta no modelo de reparo fácil

Nesse contexto regulatório, vários fabricantes Android continuam lançando smartphones com baterias removíveis em 2025 e 2026.
Enquanto o mercado principal ainda é dominado por designs unibody selados, um segmento nichado, mas comercialmente relevante, prioriza a facilidade de manutenção e a substituição de bateria em campo.
Esses dispositivos atendem à demanda de usuários industriais, trabalhadores remotos e consumidores preocupados com reparo.
O Fairphone 6 representa a abordagem modular mais abrangente entre os dispositivos Android atuais.
Com preço em torno de 690 euros, combina processador Snapdragon 7S Gen 3 com tela OLED de 6,3 polegadas. Além da bateria removível, quase todos os componentes principais são substituíveis pelo usuário, incluindo câmeras, porta USB e módulo de tela.
O HMD Skyline 5G representa uma interpretação mais popular da modularidade. Vendido por cerca de 368 euros, o aparelho combina processador Snapdragon 7s Gen 2 com 8 GB de RAM e 256 GB de armazenamento.
A bateria removível vem acompanhada de guias de reparo mantidos pelo fabricante no iFixit, sinalizando um alinhamento intencional com o ecossistema de reparo.
O impacto global além da Europa

Dada a impraticabilidade de produzir smartphones separados para o mercado europeu, a regulação provavelmente moldará o mercado global de smartphones.
O precedente não é novo. A regulação europeia se aplica apenas à Europa, mas os fabricantes dificilmente criarão modelos significativamente diferentes para mercados específicos.
Por exemplo, a Europa obrigou a Apple a migrar para o USB-C, e a empresa simplesmente fez a mudança para todos os mercados.
Da mesma forma, há uma grande chance de que os fabricantes adotem baterias removíveis globalmente.
A convergência entre a clarificação regulatória e o interesse renovado em smartphones com bateria removível sinaliza uma possível recalibração das prioridades de design dos dispositivos.
Se a aplicação do Regulamento de Baterias da UE se intensificar, os fabricantes poderão precisar repensar as arquiteturas seladas que complicam a remoção da bateria.
O que esperar até 2027

A Fairphone tem liderado consistentemente a corrida com seus designs modulares focados em reparo desde 2013. Os anos de 2025 e início de 2026 testemunharam um aumento do interesse de fabricantes maiores, que começaram a testar as águas da modularidade.
O Fairphone 6 não é apenas um celular com bateria removível, mas um dispositivo totalmente modular projetado para reparos e atualizações fáceis. O aparelho recebe oito anos de atualizações do sistema operacional Android e permite que quase todos os componentes sejam substituídos pelo próprio usuário.
Para o mercado secundário global de celulares, designs com bateria removível se traduzem em benefícios mensuráveis. Eles prolongam a vida útil, reduzem descartes causados por falha de bateria e sustentam redes de reparo descentralizadas.
À medida que as métricas de sustentabilidade moldam cada vez mais as decisões de compra e o escrutínio dos investidores, a substituibilidade da bateria migra de preferência de nicho para requisito estratégico.
Via: Right to Repair Europe, MacRumors, Conselho da União Europeia, Android Authority, Secondary Market News
