
Parece que finalmente chegou a hora de encarar a realidade: o 2G, aquela tecnologia que nos trouxe os primeiros SMS, as telas verdes e a sensação de liberdade de poder falar com alguém enquanto andávamos pela rua, está com os dias contados.
Pelo menos é o que a Vivo quer fazer parecer. Durante a divulgação dos resultados financeiros do segundo trimestre de 2026, Christian Gebara, o CEO da operadora, foi direto e reto ao afirmar que o desligamento da rede de segunda geração é uma prioridade máxima para a companhia.
E olha, sinceramente, faz todo o sentido do mundo se a gente parar para pensar nos números. Mas… como os números são frios e não contam tudo o que está por trás de cada movimento ou decisão…
Vamos conversar sobre o assunto.
O peso morto nas contas da operadora

Vamos combinar que manter uma tecnologia que surgiu no início dos anos 90 funcionando em pleno 2026 é praticamente um ato de nostalgia que custa caro demais. E quando eu digo caro, não estou sendo eufemístico ou retórico.
A Vivo mantém antenas, equipamentos e uma infraestrutura inteira dedicada exclusivamente ao 2G – e isso representa uma conta de energia elétrica gigantesca, equipes de manutenção que precisam ficar de plantão, peças de reposição que são cada vez mais difíceis de encontrar e um custo operacional que não se justifica mais.
O mais impressionante é que essa rede antiga, que um dia foi revolucionária, hoje gera uma receita praticamente irrisória para a operadora. É como manter um telefone fixo em casa sendo que todo mundo já usa celular – você paga a assinatura por pura teimosia.
A Vivo não tem mais interesse em gastar dinheiro com algo que não traz retorno financeiro, e convenhamos, é uma posição compreensível do ponto de vista empresarial.
O espectro que vale ouro

Outro ponto crucial nessa história toda é a questão do espectro de radiofrequência. Para quem não é do ramo, isso é basicamente o “espaço” no ar onde as redes de celular se comunicam.
E esse espaço é limitado, viu? É um recurso finito que as operadoras disputam entre si.
O 2G ocupa faixas de frequência que, se fossem liberadas, poderiam ser usadas para turbinar o 4G ou expandir o 5G.
O termo técnico pra isso é “refarming”. É basicamente uma limpeza geral pra reaproveitar as frequências antigas com tecnologias novas.
E faz todo sentido, porque enquanto o 2G fica ocupando espaço com suas conexões minúsculas que mal carregam uma foto, o 5G poderia estar usando essas mesmas ondas para entregar velocidades estratosféricas.
É tipo ter um estacionamento enorme ocupado por bicicletas enquanto os carros não têm onde parar.
A verdade inconveniente chamada IoT

Agora, se você acha que o 2G vai ser desligado amanhã, preciso te dar uma notícia desagradável. A vida real é mais complicada que os planos bonitos no papel.
O grande gargalo nessa história toda não são os consumidores comuns, pois esses já migraram pro 4G e 5G faz tempo. O problema está no mundo corporativo, especificamente na Internet das Coisas.
Parece contraditório, não é? Como pode uma tecnologia tão antiga ainda ser relevante em plena era do 5G e da inteligência artificial?
Mas os números não mentem.
Dados de maio de 2026 mostram que o 2G ainda representa 6,7% das conexões corporativas – e pasmem, isso é mais que o 3G, que tem apenas 5,1%.
O 4G lidera com 64,4% e o 5G aparece com 23,9%, mas esses 6,7% do 2G estão em setores que não podem simplesmente desligar o interruptor.
O que ainda funciona com 2G

Vou listar para você o tipo de equipamento que ainda depende dessa rede antiga:
- Rastreadores veiculares usados em frotas de caminhões, carros de seguradoras e sistemas de logística
- Medidores inteligentes de energia elétrica, água e gás
- Máquinas de cartão de crédito e débito mais antigas que ainda circulam por aí
- Equipamentos industriais que foram instalados há anos e nunca foram atualizados
- Sistemas de comunicação máquina-a-máquina (M2M) que usam pouquíssimo consumo de dados
A pergunta que fica é: por que essas aplicações ainda usam 2G se existe tecnologia melhor?
A resposta é simples, mas frustrante.
Primeiro, a cobertura do 2G é absurdamente ampla e estável, funcionando em áreas remotas onde o 4G ou 5G ainda nem sonham em chegar.
Segundo, o custo operacional desses dispositivos é baixíssimo. Eles consomem pouca energia e os módulos de comunicação são baratos de fabricar.
E terceiro, essas aplicações não precisam de muita banda, só precisam transmitir pequenos pacotes de dados de vez em quando.
O grande problema é que migrar tudo isso pra tecnologias mais novas não é trivial. A gente está falando de trocar fisicamente milhares, quem sabe milhões, de dispositivos que estão instalados em campo.
E tudo isso custa dinheiro. Muito dinheiro.
Não é à toa que as empresas não estão correndo para fazer essa substituição.
A faca de dois gumes dos celulares básicos

E tem mais um detalhe que complica ainda mais a vida da Vivo.
Enquanto todo mundo acha que celular 2G é coisa do passado, os fabricantes continuam lançando aparelhos básicos que usam exclusivamente essa tecnologia.
Um exemplo citado nas fontes utilizadas para este conteúdo é o Nokia 123 Shield, lançado recentemente. Esses telefones são baratos, têm bateria que dura dias e atendem perfeitamente quem só precisa fazer ligações e mandar SMS.
Aí a gente chega num dilema: como a Vivo vai convencer uma dona de casa ou aquele avô que mora na cidade do interior do Brasil que usa um celular desses há anos a comprar um smartphone 4G?
Como convencer uma empresa de segurança que usa rastreadores 2G a trocar toda a frota?
Não é simples, e a operadora sabe disso.
Por isso, enquanto houver demanda – por menor que seja – e enquanto os fabricantes continuarem produzindo esses aparelhos, fica difícil simplesmente cortar o sinal.
A Anatel entrando em cena

A Agência Nacional de Telecomunicações, mais conhecida como Anatel, está de olho nessa situação. E parece que o órgão regulador já está tomando algumas providências.
Pelo que foi divulgado, a Anatel estuda impedir a homologação de novos dispositivos que funcionem exclusivamente em 2G e 3G. Isso significa que, em breve, nenhum celular, rastreador ou qualquer outro equipamento novo poderá ser certificado no Brasil se não suportar pelo menos o 4G.
Essa é uma medida esperta, porque evita que mais equipamentos obsoletos entrem no mercado enquanto a transição acontece.
Mas também é uma faca de dois gumes, porque pode prejudicar fabricantes menores ou criar um mercado paralelo de equipamentos não homologados.
Ainda assim, parece um caminho sem volta.
O compartilhamento de redes como solução temporária

Enquanto o desligamento total do 2G não acontece, Vivo e TIM encontraram uma solução criativa para diminuir os custos: o compartilhamento de infraestrutura, tecnicamente chamado de RAN Sharing.
A ideia é simples e engenhosa. Em vez de cada operadora manter sua própria rede 2G em determinada região, elas dividem a mesma estrutura.
Na prática, funciona assim: em uma cidade, só a Vivo mantém suas antenas 2G ligadas, e a TIM desativa as dela. Os clientes da TIM passam a usar a rede da Vivo como se fosse a própria, sem nem perceber a diferença. Em outra cidade, pode ser o contrário.
O resultado é que as duas economizam energia, manutenção e aluguel de espaço em torres.
Esse acordo já cobre cerca de 2.000 municípios e a previsão é que chegue a aproximadamente 4.000 cidades. Isso é um alívio financeiro significativo para as duas operadoras, mas também mostra que o 2G ainda tem pernas pra andar.
Se a tecnologia fosse realmente inútil, elas teriam desligado tudo de uma vez. Mas não é o que está acontecendo.
Por que o 2G morre primeiro
Entre as redes legadas (2G, 3G e 4G), a que está mais próxima do fim é, sem dúvida, a segunda geração. Mas isso não significa que as outras vão ficar para sempre.
A ordem natural das coisas é que o 2G seja desligado primeiro, depois o 3G, e só então, quando o 5G estiver onipresente, o 4G começará a ser desativado.
O 2G é a tecnologia mais antiga, a menos eficiente energeticamente, a que ocupa espectro de forma menos produtiva e a que tem o menor valor estratégico. O 3G ainda serve como rede de fallback – quando o 4G não pega, o celular cai para o 3G – mas também está com os dias contados.
O 4G continua sendo a espinha dorsal da conectividade no Brasil, enquanto o 5G é o grande sonho de consumo das operadoras.
O que vem depois do 2G
Se você chegou até aqui, provavelmente está se perguntando:
“Afinal, quando o 2G vai acabar?”
Ótima pergunta. E a resposta mais honesta é: ninguém sabe ao certo.
A Vivo não divulgou um cronograma, um ano-limite ou uma data definitiva. E isso não é por acaso. A operadora quer manter a flexibilidade para negociar com clientes corporativos, com a Anatel e com seus parceiros de infraestrutura.
O cenário mais provável, baseado nas informações disponíveis, é que o desligamento aconteça de forma gradual e regionalizada.
Primeiro em grandes centros urbanos, onde o 4G e o 5G têm cobertura excelente. Depois em cidades médias, e por fim (quem sabe) em áreas remotas onde o 2G ainda é a única opção.
Nesse meio tempo, o compartilhamento de redes vai sendo expandido e a Anatel vai endurecendo as regras para a homologação de novos equipamentos.
Minha opinião sobre essa história toda

Olhando de fora, o que a Vivo está fazendo é absolutamente racional do ponto de vista empresarial.
Nenhuma empresa saudável mantém uma operação inteira só porque “sempre foi assim”. O mundo muda, a tecnologia avança, e as empresas precisam acompanhar.
O 2G já cumpriu seu papel, trouxe a telefonia móvel para as massas, conectou milhões de brasileiros, e agora merece uma aposentadoria digna.
Mas também acho que a Vivo subestima um pouco a complexidade da migração no setor corporativo.
Não é tão simples convencer uma transportadora a substituir milhares de rastreadores 2G por equipamentos 5G. O custo é altíssimo, a logística é complicada, e muitas vezes os benefícios não são imediatamente óbvios para os gestores.
A operadora vai precisar de paciência, de políticas de incentivo, e quem sabe até de subsídios para acelerar essa transição.
Outro ponto que me preocupa é o consumidor de baixa renda. Muitas pessoas ainda usam celulares básicos porque não têm condições financeiras de comprar um smartphone.
O desligamento do 2G pode excluir digitalmente quem já está à margem. Aí entramos numa discussão mais ampla, que vai além da Vivo e da Anatel.
É uma questão de inclusão digital e de acesso à comunicação como direito básico.
A boa notícia, se é que existe uma, é que os preços dos smartphones mais simples estão caindo continuamente, e programas de reciclagem de celulares podem ajudar a distribuir equipamentos usados.
Mas ainda assim, a transição não vai ser indolor. Muito pelo contrário.
Pode ser consideravelmente dolorosa para todos os envolvidos. Inclusive o consumidor final com orçamento mais limitado.
O que fica de lição
No fim das contas, o desligamento do 2G no Brasil é uma história que se repete em vários países do mundo.
A Europa já desligou o 2G em muitos lugares, os Estados Unidos estão no mesmo caminho, e o Brasil inevitavelmente vai seguir o mesmo rumo. A diferença é que aqui o processo tende a ser mais lento por causa das desigualdades regionais e da dependência do setor corporativo.
A Vivo quer se livrar do 2G o mais rápido possível, e por motivos bastante compreensíveis. Mas a realidade é teimosa, e a transição vai levar alguns anos ainda.
Talvez a gente veja o fim do 2G no Brasil lá pra 2029 ou 2030, talvez mais cedo, talvez mais tarde. O importante é que o movimento já começou, e não há mais volta.
E você, leitor, já parou para pensar em quantos dispositivos 2G você ainda usa? Seu rastreador veicular, seu medidor de energia, aquele celular velho que você guarda na gaveta “pra emergência”?
Se a resposta for SIM, talvez seja hora de começar a planejar a migração.
Porque, como diz o ditado, “quem avisa amigo é”.
E eu sou seu amigo. Ou pelo menos me considero.
Via: Convergência Digital, TeleSíntese, Tecnoblog, Canaltech
