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Por que a TV por assinatura no Brasil foi humilhada pelo streaming, que nem precisou fazer força

Tem gente que ainda paga boleto de TV por assinatura todo mês. E esse é um grupo cada vez menor no Brasil.

Confesso que estou nesse grupo em clara extinção. Muito mais por gostar da experiência da TV paga do que por qualquer outra coisa. Sou adepto do streaming como proposta principal, e tenho dúvidas sobre quanto tempo vou me manter nessa de queimar dinheiro com um serviço cada vez mais obsoleto e retrógrado.

Uma hora, vou tomar vergonha na cara e seguir o coletivo.

Os dados de 2025 mostram que essa turma que ainda está na TV paga virou minoria no Brasil ao longo dos últimos 10 anos, e uma minoria cada vez menor. A ponto de a afirmação “o último que sair, por favor, apague a luz” ser uma realidade prática.

Vamos conversar sobre isso. Com números, dados e realidades.

 

O tamanho do estrago

Apenas 23,5% dos domicílios brasileiros ainda mantêm TV por assinatura em 2025. É o menor número da série histórica da Pnad Contínua TIC, do IBGE, e o recorde não é motivo de festa para quem vende parabólica.

Enquanto isso, o streaming por assinatura chegou a 44,4% dos lares. Pela primeira vez, ver conteúdo pela internet deixou de ser coadjuvante e assumiu o papel principal na sala de estar brasileira.

Nem precisava de números para provar isso, já que o próprio comportamento dos usuários nas redes sociais comprova isso. Mas é sempre bom ter os dados para confirmar o que está evidente para todo mundo.

A conta é simples de fazer, mas dolorosa para quem vive do modelo antigo. Quase o dobro dos domicílios prefere streaming à TV paga tradicional, e a distância só tende a aumentar.

E que os executivos que ainda acreditam que o formato tradicional de TV paga funciona entendam, de uma vez por todas, que essa proposta se esgotou. É um formato fadado ao desaparecimento, e isso é uma questão de tempo.

 

Nove anos de queda livre

Ninguém pode dizer que essa queda pegou o mercado de surpresa. Em 2016, 33,9% dos domicílios tinham TV por assinatura, e desde então o número despenca ano após ano.

O ápice da TV paga no Brasil foi em 2014, ano da Copa dp Mundo FIFA, que aconteceu no Brasil. Em 2016, aconteceram os Jogos Olímpicos em nosso país, e mais uma vez o contexto esportivo conseguiu segurar o declínio.

É um comportamento crível, já que até hoje os esportes acumulam a maior audiência da TV paga. Mas como até mesmo os principais eventos podem ser assistidos no YouTube ou em outras plataformas, fica cada vez mais difícil justificar a mensalidade naquela caixinha ocupando espaço no móvel da sala.

A queda, ano a ano, em números:

  • 2016: 33,9% dos domicílios
  • 2018: 31,8% dos domicílios
  • 2019: 30,3% dos domicílios
  • 2021: 27,8% dos domicílios
  • 2022: 27,7% dos domicílios
  • 2024: 24,3% dos domicílios
  • 2025: 23,5% dos domicílios

Fazendo as contas, o setor perdeu quase um terço da sua base em menos de uma década. Não é uma crise passageira; é um apagão estrutural que se arrasta em um ritmo constante.

A “sorte” (se é que dá para dizer isso) das operadoras tradicionais é que essa queda é menos acelerada do que poderia ser. E isso acontece por conta de um público que ainda está apegado ao formato e experiência de troca de canais ou gravação de programação.

Os números da Anatel reforçam o quadro sem qualquer margem para dúvida. O SeAC fechou 2025 com cerca de 7,6 milhões de pontos ativos, o menor patamar desde 2009.

Um retrocesso de mais de quinze anos em pouco tempo. Ou uma morte lenta e dolorosa para um formato de consumo de conteúdo que era símbolo de conforto, sofisticação e status no passado.

Hoje, você ter uma CazéTV da vida pode ser mais do que o suficiente. Com uma GE TV para complementar os jogos do Brasileirão que, pasmem, passam na Rede Globo.

Sinal dos tempos.

 

Por que o brasileiro chutou o balde da TV a cabo

A resposta está na cara de todo mundo e, em partes, já foi antecipada pelo artigo: preços historicamente caros e o streaming que chegou atropelando tudo.

Mas acho que consigo ser mais preciso e detalhado para explicar melhor os fatores que resultaram no cenário de momento.

A pandemia até deu uma segurada na queda por alguns meses. Todo mundo ficou preso em casa, as pessoas precisavam ficar bem-informadas sobre a crise, e TV era uma via relevante de entretenimento.

Mas assim que a poeira baixou, a migração para o streaming voltou com força total, provando que o problema nunca foi conjuntural. Várias plataformas surgiram durante a crise, o que fez com que a TV por assinatura enfrentasse de vez a concorrência online, que chegou de forma avassaladora.

Vários fatores empurraram essa mudança de comportamento ao mesmo tempo. A seguir, apresento os principais (na minha opinião):

  • Expansão da banda larga fixa e móvel, que tornou o streaming tecnicamente viável em praticamente qualquer lugar
  • Preferência do consumidor por assistir o que quiser, na hora que quiser, sem grade fixa de programação
  • Fragmentação dos direitos esportivos e de entretenimento, cada vez mais concentrados em plataformas digitais
  • Aperto no orçamento das famílias, que cortam mensalidades fixas quando existe alternativa mais barata e flexível

Cada um desses pontos, isoladamente, já seria suficiente para explicar parte da fuga. Juntos, formam uma tempestade perfeita que a TV por assinatura simplesmente não teve como enfrentar.

Olhando de forma fria e racional, é até surpreendente ver a TV por assinatura sobrevivendo de alguma forma até hoje.

 

As desculpas oficiais dos brasileiros

O IBGE perguntou diretamente por que as pessoas não assinam mais TV paga. As respostas não deixam espaço para romantismo nem para nostalgia.

Pelo contrário: são fortes tapas na cara das empresas que exigiram de todos nós o pagamento de mensalidades caras, com algumas cobranças abusivas e ilegais no meio do caminho.

A maioria dos usuários (62,2%) simplesmente não tem interesse no serviço. Não é falta de dinheiro nem falta de sinal, é desinteresse puro e simples pelo formato tradicional.

Fato: o mundo se move PARA FRENTE, e TV por assinatura não é nem tecnologia retrô para algumas pessoas. É solução retrógrada. E ninguém gosta disso.

O custo elevado aparece em segundo lugar, com 26,1% das respostas. E esse fator é um velho conhecido dos usuários, mas que sempre foi ignorado pelas plataformas, já que por décadas não existia uma concorrência de peso.

Já a substituição direta pelo streaming foi citada por 10% dos entrevistados, um número que tende a crescer nos próximos levantamentos. E, mesmo assim, é surpreendente constatar que APENAS UMA EM DEZ PESSOAS efetivamente usaram as plataformas digitais como principal argumento para abandonar a TV por assinatura.

Vale destacar um detalhe que também conta a história dessa transição. A indisponibilidade regional do serviço deixou de ser relevante como justificativa, o que mostra que o problema não é geográfico, é de modelo de negócio.

 

O que sobrou para as operadoras

As migalhas. Sentar e chorar. Promover a demissão sumária dos executivos que deixaram o cenário chegar neste ponto.

Menos assinantes significa, inevitavelmente, menos receita. As operadoras de TV por assinatura viram o faturamento encolher junto com a base de clientes, e isso obrigou uma revisão completa de estratégia comercial.

Algumas operadoras ficaram desesperadas, e apelaram em determinadas decisões, apenas para não perder os clientes que ficaram.

A resposta mais comum para os serviços de TV paga tradicionais tem sido empacotar tudo junto. Combos de internet com streaming viraram a tábua de salvação para tentar segurar o cliente que já está de malas prontas.

O casamento com o inimigo foi a solução. E isso só está funcionando porque, para boa parte dos assinantes, ter o streaming combinado é uma forma de PAGAR MENOS naquilo que mais interessa para ele (o próprio streaming).

E a TV paga via uma coadjuvante nesses planos combinados. De forma humilhante.

O mercado segue concentrado nas mãos de poucos grandes provedores, isso não mudou. O que mudou foi a arena da disputa, que agora passa por parcerias com plataformas OTT em vez de brigar apenas por conteúdo linear.

Mesmo porque todo mundo no setor entendeu que a maioria só assiste TV ao vivo e linear nos esportes e canais de notícias. Para todo o resto, estão escolhendo quando, onde e o que assistir.

Aliás, fica um sinal de alerta.

Até o conteúdo esportivo, que sempre foi o principal trunfo da TV paga, começou a migrar para o streaming de forma definitiva. Programadoras e detentores de direitos redirecionaram parte das transmissões para o digital, tirando da TV por assinatura seu último argumento de peso.

Sempre disse que…

“Quando os esportes migrarem para o streaming de vez, a TV por assinatura pode encontrar uma cova para se enterrar de vez”.

Está acontecendo exatamente isso.

 

Regulação: quem vai cuidar disso agora

A Anatel acompanha de perto a redução de pontos ativos do SeAC, e não é por acaso. Uma migração desse tamanho levanta questões sérias sobre regulação de mercado e direitos de transmissão.

Todas as principais operadoras de internet e TV por assinatura contam com, no mínimo, uma alternativa própria de IPTV. E isso, quando não migram de vez para a TV pela internet.

E isso acontece por um motivo muito simples: o IPTV resulta em menos custos para as operadoras. Tanto nos estruturais quanto de tarifação.

A mudança resulta em um muito desejado “efeito colateral” para as operadoras: a maior margem de lucro pelo menor custo envolvido.

Não será surpresa ver a Anatel acabando com a festa em algum momento, apenas para conseguir a sua fatia do bolo.

Fica também a dúvida sobre acesso a conteúdo informativo essencial em um cenário cada vez mais dominado por plataformas privadas. Garantir cobertura de banda larga de qualidade deixou de ser opcional e virou pauta de política pública urgente.

Mesmo porque o consumo de conteúdo por streaming é algo inevitável. Como os próprios números mostram, virou a regra, e não a exceção de luxo.

Há ainda o impacto sobre empregos e empresas regionais ligadas ao setor audiovisual tradicional. Esse efeito colateral raramente entra na conversa, mas mexe diretamente com quem vive da cadeia produtiva da TV paga.

Ou seja, podemos esperar uma grande leva de desempregos no setor. E em escala, pois o streaming dispensa a necessidade de unidades fabris para preparar os receptores, a produção de antenas de DTH, um técnico ou instalador na sua casa para colocar o serviço em funcionamento.

Sem falar nos demais profissionais atrelados a outros aspectos do setor.

Ninguém está pensando ou falando sobre isso.

 

O que ainda pode salvar o jogo (se é que isso é possível)

Sobreviver nesse cenário exige mais do que resistência das operadoras tradicionais. Exige reinvenção completa, o que sinceramente duvido que os executivos dessas empresas sejam capazes de fazer.

Algumas frentes já começam a aparecer como caminho possível para quem não quer desaparecer do mapa:

  • Reposicionar o produto em pacotes com internet de alta velocidade e conteúdo sob demanda
  • Fechar parcerias com plataformas OTT para oferecer bundles mais competitivos e reduzir a evasão de clientes
  • Investir pesado em aplicativos próprios, recomendação personalizada e experiência multiplataforma
  • Repensar o modelo de pacote único de canais, oferecendo ao assinante o direito de escolher o que quer assistir e, com alguma sorte, pagar um valor menor por isso.

Nenhuma dessas medidas reverte o cenário sozinha. Mas ignorá-las é garantia de acelerar ainda mais o desaparecimento de um modelo que já mostrou seus limites.

Vou além.

Ignorar alternativas neste momento é assinar um atestado de burrice.

 

O funeral já começou, falta só marcar a data do enterro

Os números não deixam margem para debate sentimental sobre nostalgia de infância com controle remoto de canal fixo. De fato, reforça o debate mais crítico para cima dos responsáveis por tudo isso acontecer.

A realidade é uma só: o streaming venceu a disputa pela atenção do brasileiro, e venceu com folga confortável. Foi um verdadeiro massacre.

A TV por assinatura não vai sumir da noite para o dia, isso é fato. Mas seguir chamando esse modelo de “principal forma de consumo audiovisual” no Brasil já soa, no mínimo, deslocado da realidade.

Uma mentira deslavada, que algumas operadoras vão insistir em contar para os usuários mais desinformados.

E fico feliz se ajudei, jogando um pouco de luz e senso crítico ao assunto.

 

Via: IBGE, Poder360, TV Brasil/EBC, Teletime