
Parece que o jogo virou. E tem alguns executivos na Netflix que estão rolando no chão de tanto gargalhar.
O mercado audiovisual global vive um daqueles momentos em que a realidade supera qualquer roteiro de ficção. Até porque, aparentemente, “estava tudo certo”.
A tentativa de união entre dois gigantes do entretenimento, Paramount e Warner Bros. Discovery, que tinha tudo para redefinir os rumos de Hollywood, transformou-se em uma arrastada novela jurídica recheada de incertezas, prazos asfixiantes e cifras exorbitantes.
David Ellison, o chefão da Paramount Skydance, não esperava que o estado da Califórnia, representando outros 11 estados norte-americanos, iria embaçar o rolê como um todo.
E tem uma galera já desconfiando que o David Zaslav, chefão da WBD, sabia muito bem disso. E e fez um movimento calculado para capitalizar em cima do erro do coleguinha.
Analisando o cenário atual, fica evidente que o otimismo exacerbado de Ellison atropelou a dura realidade das regulações concorrenciais, colocando a Paramount Skydance em uma armadilha financeira sem precedentes.
A partir de agora, uma análise sobre o cenário de momento, e os meus dois centavos sobre tudo isso.
Tudo parado até 2027

A decisão de pausar a transação até que a disputa antitruste seja julgada em março de 2027 evidencia o tamanho do impasse. A decisão é um desastre para a Paramount, tanto na sua estratégia de execução de planos de expansão quanto (e principalmente) nos aspectos financeiros.
Neste momento, a aquisição da Warner Bros. Discovery está congelada, e o negócio pode levar até três anos para ser concluído (se é que vai).
A Paramount está assumindo um risco calculado extremamente perigoso, já que existem as chances reais de a compra nunca ser concluída por conta do prazo contratual estabelecido entre as partes para o negócio efetivamente acontecer.
Mas falo mais sobre isso daqui a pouco.
Tem um detalhe que veio à tona agora, mas que muita gente não se deu conta disso: a partir de outubro de 2026, entra em vigor uma penalidade diária estimada em US$ 7 milhões destinada aos acionistas da Warner caso a fusão permaneça paralisada.
As projeções mostram que essa taxa de espera pode acumular montantes assustadores, superando a marca de US$ 1,2 bilhão antes mesmo que os juízes emitam um parecer definitivo.
E é certo que esse dinheiro vai sair dos cofres da Paramount Skydance, já que o julgamento só acontece em março de 2027.
Mas isso vai piorar.
Imagem da Paramount já está queimada

O rombo financeiro (que agora é algo inevitável) reflete um grave erro de avaliação sobre a postura dos órgãos reguladores nos Estados Unidos.
Em termos práticos, a imagem transmitida é de que David Ellison jamais imaginou que isso poderia acontecer (alguém tentar travar a compra na justiça norte-americana) e, por conta disso, não se preparou para as consequências financeiras.
A ação movida por esses doze estados americanos aponta riscos concretos à livre concorrência, e a aceitação desses argumentos pela justiça demonstra que as autoridades não estão dispostas a carimbar a criação de monopolistas do setor cultural sem um escrutínio rigoroso.
E isso SEMPRE ACONTECEU. Ellison deveria saber disso.
Ele estava em uma caverna quando a Disney comprou os ativos da Fox? A discussão foi basicamente a mesma, com uma engenharia enorme ao redor de todo o planeta para contornar os possíveis questionamentos legais da transação.
Estamos falando de dois enormes conglomerados de mídia, que controlam estúdios, canais de TV, propriedades intelectuais históricas, franquias bilionárias…
Em nenhum momento Ellison considerou a possibilidade de alguém tentar impedir que isso avançasse? Ou ele pensou que realmente bastava ter dinheiro para comprar qualquer coisa?
Isso fala muito mais sobre a megalomania de David Ellison do que qualquer outra coisa. Mas… enfim…
A alegação pública da Paramount de que o julgamento provará a legalidade da transação soa mais como uma tentativa desesperada de acalmar investidores do que como uma garantia real de vitória.
Mesmo porque o time jurídico da Paramount (e eu tenho pena desses pobres coitados, de verdade) já fez os cálculos, e concluiu que SIM, existe a chance de a empresa perder o processo na justiça.
E aí, não só Ellison fica sem a WBD, como tem que pagar uma multa BILIONÁRIA para Zaslav e sua turma.
E (muito provavelmente) Zaslav já sabia disso.
US$ 7 bilhões em jogo

O aspecto mais preocupante para David Ellison com o cenário que se apresenta neste momento está nas consequências de um eventual fracasso.
Se o tribunal barrar o negócio ou se o prazo contratual caducar em junho de 2027 (reforçando: o julgamento COMEÇA em março de 2027,e pode SIM se arrastar por alguns meses, dependendo da boa vontade do juiz, da complexidade das evidências e provas e até mesmo da habilidade dos advogados de Zaslav em procrastinar), a Warner Bros. Discovery poderá cobrar uma multa de rescisão bilionária, especulada em cerca de US$ 7 bilhões.
Gente… US$ 7 BILHÕES!
É muito dinheiro, meu povo.
Dinheiro o suficiente para deixar os acionistas da Warner Bros. Discovery muito felizes. E David Zaslav ainda mais rico do que já está.
Se Zaslav fez um movimento calculado, não posso provar. Mas não seria nenhum absurdo que esse hipotético cenário se mostre como realidade no futuro.
Afinal de contas, o negócio estava mais do que fechado com a Netflix. O acordo tinha a bênção do governo dos Estados Unidos.
E, do nada, um aditivo financeiro vindo de uma oferta hostil acabou com o acordo?
E a Netflix aceitou isso… por aproximadamente US$ 5 bilhões?
Ei… espera um pouco… olha só as peças se encaixando….
Volto para esse tópico antes de acabar o artigo.
Em linhas gerais, todo o cenário de momento para a Paramount Skydance é simplesmente catastrófico. David Ellison desembolsaria rios de dinheiro em multas e taxas de atraso sem receber absolutamente nada em troca, amargando um prejuízo histórico.
E até por causa disso é que a Paramount pode, no futuro, simplesmente desistir da conta. Porque a matemática está sendo implacável com a empresa.
David Ellison, o corno que paga a conta

O apetite voraz por consolidação de mercado fez com que as empresas assinassem um pacto que agora as sufoca.
Quando olho para todos os detalhes, tenho a plena certeza de que este foi um negócio MUITO RUIM para a Paramount. E isso, mesmo que a empresa fique com a Warner Bros. Discovery no final.
Só de multas para Netflix e WBD, Ellison terá que desembolsar mais de US$ 6 bilhões. E se não conseguir comprar, terá que pagar mais US$ 7 bilhões.
Até agora, a Paramount já perdeu 5% do valor total da compra (mais de US$ 108 bilhões). Sem falar na queda das ações da empresa desde o anúncio da paralização do processo de compra por causa do processo na justiça norte-americana.
A Paramount encontra-se encurralada: se prosseguir, sangrará centenas de milhões de dólares apenas para manter o negócio em suspensão; se recuar, enfrentará penalidades devastadoras.
Em qualquer empresa do planeta, a cabeça do David Ellison já teria rolado na Paramount Skydance. Mas como ele é “o dono da porra toda” e o pai dele é um dos homens mais ricos do mundo, só resta aos acionistas respirar fundo, tomar muito Rivotril e controlar o suor frio descendo da testa durante a descida dessa montanha russa de emoções.
Em vez de criar um império imbatível no cinema e no streaming, o processo escancara como a megalomania corporativa pode minar a estabilidade de grandes estúdios, deixando o futuro do entretenimento pendurado em uma longa e dispendiosa disputa judicial.
E David Zaslav está gargalhando nos escritórios da Warner Bros. Discovery. Provavelmente em uma videoconferência com os chefões da Netflix.
Quem duvida…
Via: The Wall Street Journal, CNN, NBC News, G1
