
Considerando todas as candidatas à compra da Warner Bros. (já que a Discovery não interessa para quem está apostando tudo no mercado de streaming), a Netflix é aquela que mais me surpreende, em todos os aspectos.
Não me leve à mal. Jamais teria a ousadia em subestimar o poder da plataforma de Reed Hastings e Ted Sarandos em adquirir um ativo desse porte. A Netflix já é grande o suficiente para esse tipo de compra.
O que surpreende é que isso não chega nem perto de fazer parte do perfil da Netflix. Não só seria o movimento mais ousado da história da plataforma, como seria a maior contradição de todas, contrastando com sua filosofia comercial estabelecida desde que começou a produzir conteúdos para os seus assinantes.
Acabou a originalidade?
A Netflix foi a pioneira neste formato de serviço de streaming on demand, tal e como conhecemos. Não inventou o conceito como um todo, pois o YouTube existia antes do seu lançamento, e foi a inspiração para o seu nascimento. Mas todo mundo seguiu os seus passos, e isso é fato.
A mesma Netflix foi a primeira que percebeu que seu modelo de negócio só poderia sobreviver se começasse a investir em produções originais próprias, pois entendeu que todos os estúdios que antes forneciam filmes e séries para o seu serviço iriam entender o movimento de mudança e, gradativamente, iria criar suas próprias soluções.
E a Netflix acertou em tudo isso. Inclusive em não contar para as demais que, para ela, o negócio era sustentável porque sua plataforma “nasceu do zero”, enquanto as demais eram monstros que devoravam recursos em outras frentes, dependendo (e muito) das bilheterias dos cinemas e dos direitos de televisão negociados em canais de TV e outras plataformas.
Agora, a mesma Netflix, que investiu tubos de dinheiro em produções originais (algumas de gosto muito duvidoso), quer comprar um dos maiores ativos criativos do cinema e da TV para turbinar a sua plataforma?
A originalidade acabou? Ou ficou chato contar histórias com roteiro pouco relevantes o tempo todo?
Um histórico valioso
Ninguém pode negar que os ativos da Warner Bros. valem muito, não só dentro do segmento de entretenimento, mas principalmente na memória afetiva da audiência. E a Netflix ganharia nos dois aspectos.
A mesma Netflix começou a sua jornada no streaming apostando na nostalgia. Não entregava tantos lançamentos, mas foi a casa para séries e filmes muito populares. Friends e The Office conquistaram um público completamente novo na plataforma, e o investimento neste caso se alinha com essa perspectiva de se conectar com esse público que decidiu voltar alguns anos no tempo para se divertir.
Agora, some isso aos projetos que a Warner Bros. já tem engatilhados para o futuro, e a Netflix pode ter ouro puro nas mãos. Essa é uma combinação muito poderosa, com um enorme potencial para catapultar de vez a plataforma de streaming ao status de uma gigante do entretenimento global.
Sem falar que os recursos para séries e filmes originais poderiam ser redirecionados para conteúdos de maior qualidade, com menor apelo para o raso nos aspectos criativos.
Se bem que… como tem uma enorme audiência assistindo aos filmes de gosto duvidoso, eu sinceramente duvido que uma Warner Bros. faria a Netflix desistir de uma estratégia que está funcionando muito bem neste momento.
Mas isso é assunto para outro artigo.
