
Parece que o jogo virou.
A Netflix desistiu de comprar a Warner Bros. Discovery, deixando o caminho livre para que David Ellison, o principal responsável pela Paramount Skydance, finalmente adquira todo o grupo comandado por David Zaslav, absorvendo seus ativos, propriedades intelectuais e canais de televisão.
Talvez esse não seja exatamente o capítulo final dessa história, mas é mais um ponto importante e emblemático em uma das mais complexas e instigantes jornadas dentro do mundo corporativo e do entretenimento.
Para um negócio que era dado como certo por parte da Netflix, ver a Parmount Skydance com o caminho livre para essa aquisição é algo surpreendente e, para muitos, confuso. Portanto, vamos explicar da forma mais resumida e objetiva possível como foram os últimos acontecimentos dessa narrativa.
A proposta que definiu a disputa

O conselho da Warner Bros. Discovery classificou a oferta revisada da Paramount Skydance como “superior” ao acordo vigente com a Netflix. A proposta avaliou a totalidade da WBD em US$ 31 por ação, em dinheiro, enquanto a concorrente oferecia US$ 27,75 por ação apenas pelos ativos de streaming e estúdios.
A Paramount também incluiu uma taxa de rescisão regulatória de US$ 7 bilhões, garantindo pagamento mesmo em caso de veto dos órgãos de defesa da concorrência.
A Paramount assumiu ainda o compromisso de arcar com a multa de US$ 2,8 bilhões que a WBD teria que pagar à Netflix pelo encerramento do contrato anterior. Além disso, a oferta inclui um pagamento adicional de US$ 0,25 por ação por trimestre a partir de setembro de 2026.
O pacote completo fez o conselho da WBD acionar o período contratual de quatro dias úteis para que a Netflix pudesse apresentar uma contraproposta.
O CEO da WBD, David Zaslav, destacou que a guerra de lances gerou oito aumentos de preço desde setembro. Esse processo resultou em uma valorização de 63% para os acionistas ao longo das negociações.
A proposta vencedora da Paramount avalia a transação total em até US$ 111 bilhões, considerando valores pagos em dinheiro, multas regulatórias e o endividamento da WBD.
A decisão da Netflix

Os co-CEOs da Netflix, Ted Sarandos e Greg Peters, anunciaram que a empresa não iria igualar a proposta da Paramount por questões financeiras.
“Ao preço necessário para igualar a oferta mais recente da Paramount Skydance, o negócio deixa de ser financeiramente atraente”, afirmaram em comunicado oficial. Os executivos reforçaram que a transação sempre foi algo “desejável pelo preço certo, não indispensável a qualquer preço”.
A empresa destacou sua disciplina financeira como pilar fundamental para a decisão de recuar da disputa. Sarandos e Peters agradeceram à liderança da WBD pelo processo conduzido e afirmaram que acreditavam ser “bons guardiões das marcas icônicas da Warner”.
A Netflix confirmou que retomará seu programa de recompra de ações e investirá aproximadamente US$ 20 bilhões em filmes e séries originais em 2026.

O mercado reagiu positivamente à decisão da gigante do streaming, com as ações disparando mais de 10% após o anúncio. A Netflix ainda embolsará a multa rescisória de US$ 2,8 bilhões paga pela WBD com recursos assumidos pela Paramount.
Os executivos reafirmaram o compromisso de continuar encantando assinantes e gerando valor aos acionistas a longo prazo.
O peso financeiro da operação da Paramount

A Paramount montou um robusto esquema de financiamento para viabilizar a aquisição bilionária.
O Ellison Trust, liderado por Larry Ellison, comprometeu US$ 45,7 bilhões em equity, enquanto Bank of America Merrill Lynch, Citi e Apollo entraram com US$ 57,5 bilhões em dívida. O CEO da Paramount, David Ellison, celebrou a reafirmação unânime do conselho sobre o valor superior de sua oferta.
A proposta inclui garantias agressivas para tranquilizar os acionistas da WBD quanto à segurança do negócio. A taxa de rescisão regulatória de US$ 7 bilhões protege os investidores caso a transação seja barrada por órgãos reguladores nos EUA ou Europa.
A Paramount também assumiu integralmente o pagamento da multa de US$ 2,8 bilhões devida à Netflix pelo encerramento do acordo anterior.
| Fonte de financiamento | Valor comprometido |
|---|---|
| Ellison Trust (Larry Ellison + aportes adicionais) | US$ 45,7 bilhões em equity |
| Bank of America Merrill Lynch, Citi e Apollo (dívida) | US$ 57,5 bilhões |
| Taxa de rescisão regulatória (garantia ao negócio) | US$ 7 bilhões |
| Multa de saída do acordo Netflix (assumida pela Paramount) | US$ 2,8 bilhões |
Apesar do caminho livre para a aquisição, os desafios regulatórios ainda podem surgir nos próximos meses. A senadora Elizabeth Warren já classificou o negócio como um “desastre antitruste”, e David Ellison provavelmente será convocado ao Congresso.
David Zaslav expressou entusiasmo com o potencial da combinação entre Paramount Skydance e Warner Bros. Discovery “para contar histórias que emocionam o mundo”.
O que eu penso de tudo isso?

Que David Ellison deixou todo esse processo muito mais cansativo do que poderia ser, mas que finalmente alcançou o seu objetivo maior: ficar com a Warner Bros. Discovery como um todo, absorvendo ativos preciosos no processo.
Não falo apenas das propriedades intelectuais como filmes e séries. Seria muito pobre pensar apenas e tão somente na possibilidade de Friends ser exibida na MTV. Existem outros interesses por parte dos envolvidos que justificam tanta insistência nessa aquisição.
A compra da Warner Bros. Discovery também significa que a Paramount Skydance passa a ter o controle de boa parte da narrativa norte-americana. Aparentemente, ter o controle da CBS era algo relativamente insuficiente, e era necessário ser dona de uma CNN para efetivamente ter um maior poder de influência junto ao grande público.
Particularmente, gostaria que a WBD ficasse com a Netflix, mesmo sabendo que não existem santos por lá. Temo que ter esse poderoso arsenal de informação e entretenimento nas mãos de David Ellison é algo potencialmente perigoso, principalmente considerando todo o contexto de momento da sociedade norte-americana.
Espero estar equivocado nessa perspectiva. Mas não consigo ver essa aquisição com bons olhos.
