
Confesso que ler essa notícia me trouxe uma sensação estranha. Afinal de contas, é a Netflix, aquela que começou tudo isso. A “first of her name”.
Não exatamente surpresa, pois essa tendência estava cada vez mais evidente nas últimas análises de mercado, mas aquela pontada de quem vê um velho conhecido perdendo o brilho.
A Netflix, que por anos foi sinônimo de streaming na minha casa e na de tanta gente, agora amarga o terceiro lugar num ranking de preferência no Brasil.
Não é um tombo que vai definir o fim da plataforma de streaming, claro. Mas é simbólico.
E, para mim, diz muito sobre como a relação entre a gente e o entretenimento mudou radicalmente.
Quando os números contam uma história que vai além das assinaturas

O levantamento da JustWatch, que registrou cerca de 7 milhões de interações de usuários entre junho de 2026, mostra um cenário que eu já desconfiava que estava acontecendo. O próprio comportamento do consumidor brasileiro deixava evidente o problema que a Big N estava enfrentando por aqui.
O Prime Video lidera com 21%, seguido de perto pelo Disney+, com 19%, e aí vem a Netflix, com 18%. Depois vem o resto, com a HBO Max sendo a única abaixo do trio com dois dígitos de mercado (11%).
O ranking atualizado é esse aqui:
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1º Lugar — Amazon Prime Video: 21% de participação
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2º Lugar — Disney+: 19% de participação
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3º Lugar — Netflix: 18% de participação
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4º Lugar — HBO Max: 11% de participação
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5º Lugar — Apple TV+: 9% de participação
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6º Lugar — Globoplay: 8% de participação
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7º Lugar — Paramount+: 6% de participação
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8º Lugar — MUBI: 3% de participação
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9º Lugar — Claro Video: 1% de participação
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Outros serviços somados: 4% de participação

E é importante frisar: isso não é sobre quantos assinantes cada um tem. Se fôssemos por esse critério, a Netflix ainda seria a rainha absoluta aqui no Brasil.
O que esse ranking mede é a preferência, o tal do “engajamento” que as plataformas tanto buscam. E essa diferença é crucial.
Ela mostra que, mesmo com um exército de assinantes pagando todo mês, a Netflix já não é mais o primeiro lugar que a gente pensa quando quer ver algo bom. É como ter um monte de livros na estante, mas sempre pegar os mesmos.
O coração do espectador, pelo menos o daqueles que participam das pesquisas da JustWatch, está pendendo para outros lados.
O que explica essa virada de jogo?

Pra mim, a resposta não está num fato isolado, mas numa combinação de fatores que vieram se acumulando.
Organizei os dois principais motivos em categorias, apenas para que você possa visualizar melhor o cenário de momento.
Concorrência de peso e catálogo fragmentado
Antigamente, a Netflix era praticamente a única opção para maratonas de qualidade. Hoje, a concorrência é brutal.
Cada serviço foi atrás do seu próprio território:
- O Prime Video se consolidou com um pacote que vai além do streaming, entregando vantagens como frete grátis e outros bônus para quem já é cliente Amazon. É um ecossistema que prende.
- O Disney+ se beneficiou enormemente do seu gigantesco acervo de franquias amadas – Marvel, Star Wars, Pixar, Disney, National Geographic. É o refúgio da nostalgia e da família, e não é à toa que cresceu 3% no último ano, ultrapassando a Netflix.
- A HBO Max e a Apple TV+ vêm se firmando com produções de altíssimo valor e prestígio, atraindo um público mais exigente.
O efeito prático é que meu dinheiro, que antes ia quase todo pra Netflix, agora precisa ser dividido.
E, nesse jogo de escolhas, a Netflix, que um dia foi a “padrão”, virou mais uma entre várias. E por culpa da própria plataforma, em partes.
A questão do conteúdo e o tal do “engajamento”
O ranking da JustWatch mede a interação. Isso significa que a Netflix pode estar perdendo porque suas produções, mesmo que ainda tenham público, não estão gerando o mesmo burburinho, a mesma vontade de clicar em “curtir” ou “já vi”.
A sensação que tenho é que a avalanche de conteúdo original da Netflix, que um dia foi seu maior trunfo, hoje pode ser um problema. É tanto filme e série sendo lançados que fica difícil criar um impacto duradouro.
Muita coisa parece feita para ser consumida e esquecida no dia seguinte. São filmes e séries totalmente genéricas, que não agregam valor real, com formatos focados no consumo do conteúdo enquanto o usuário está com a cara na tela do smartphone.
O que, sinceramente, acho algo muito pobre.
Ter um conteúdo extremamente auto descritivo, com roteiros rasos e premissas óbvias, é algo que me incomoda. Aparentemente, não sou o único a ter este sentimento em relação aos conteúdos da Netflix.
Afinal de contas, estamos falando do esvaziamento do engajamento na plataforma, o que antes era um grande trunfo da empresa.
Enquanto isso, um serviço como o Disney+ foca em poucas produções originais, mas investe em poderosas franquias. A identidade é mais clara.
O espectador sabe o que esperar e, muitas vezes, tem uma conexão emocional com aquele universo antes mesmo de apertar o play.
O que isso significa para mim, como espectador?

Sinceramente?
Esse cenário de ranking bagunçado me faz sentir que o controle voltou um pouco para as minhas mãos.
Se antes eu assinava a Netflix por hábito, hoje eu assino por conteúdo. Se tem uma série específica que quero ver, pago por um mês, assisto e cancelo.
A fidelidade morreu.
É cansativo, eu sei. Ter que navegar por quatro ou cinco apps diferentes para encontrar algo é a parte negativa dessa fragmentação.
Mas, por outro lado, me obriga a ser mais criterioso. Prefiro mil vezes ficar um mês focado totalmente em Drive to Survive como minha série na Netflix (mesmo que não tenha que maratonar) do que empilhar visualizações de conteúdos que, na grande maioria dos casos, são de qualidade questionável, para dizer o mínio.
A Netflix ter caído para terceiro lugar no Brasil pode ser um alerta para ela mesma: talvez seja hora de repensar sua curadoria e focar em fazer menos, mas com mais qualidade e relevância, em vez de tentar ser o supermercado de entretenimento que tem de tudo um pouco.
E é quase inacreditável que estamos falando tudo isso da plataforma que iniciou a era do streaming ao redor do planeta. Inclusive no Brasil.
Eu estava lá, no evento de lançamento da Netflix em nosso território. E hoje, vejo como o serviço ficou consideravelmente degradado.
A dança das cadeiras entre os streamings me lembra que nada é para sempre. Nem mesmo o reinado de uma empresa que revolucionou a forma como vemos TV.
A disputa agora é por espaço no meu tempo e na minha atenção, e isso, para mim, é o que realmente importa.
