
A reclamação contra smartphones da Motorola não nasce de um único defeito, mas de um conjunto de problemas recorrentes que se repetem em diferentes gerações, faixas de preço e linhas — sobretudo Moto G e alguns Edge.
Nos dados mais recentes encontrados, bateria, falhas após atualização, aquecimento, tela e lentidão/travamento aparecem entre os principais focos de insatisfação, e a própria Motorola admite estar investigando parte desses casos e orienta usuários pelos canais de suporte e reparo.
Neste artigo, vamos nos aprofundar sobre o assunto, abordando os principais problemas dos dispositivos, os pontos de maior reclamação, e como a Motorola responde às anormalidades.
Este artigo não foi patrocinado pela Motorola. Mas… poderia!
A origem do problema não está em um único defeito

A onda de insatisfação contra smartphones da Motorola no Brasil não nasce de uma falha isolada, nem se limita a um modelo ou a uma faixa de preço.
Os donos de celulares fabricados pela Motorola passaram a criticar com mais frequência a bateria do aparelho, com queixas envolvendo também problemas durante ou após atualizações, aquecimento, lentidão e travamentos. Diversos modelos de Moto G são citados nas queixas, e o problema parece se estender por smartphones da Motorola de variadas faixas de preço.
Dá para afirmar com alguma segurança que o descontentamento se ramifica por diferentes gerações de aparelhos — das linhas de entrada até algumas intermediárias e modelos Edge. A Motorola é, afinal, a segunda marca mais vendida do país, com 27,5% de participação de mercado, ficando atrás apenas da Samsung, que lidera com 40%.
O Brasil é o terceiro maior mercado da Motorola no mundo, atrás apenas de Estados Unidos e Índia. Vender muito implica conviver com um volume de queixas proporcional à base instalada — e, quando falhas de software atingem diferentes modelos ao mesmo tempo, a percepção coletiva de problema se instala com velocidade.
A escalada de reclamações em números

Para dimensionar o cenário, vale recorrer aos dados mais concretos disponíveis.
Em abril de 2025, o levantamento do Reclame Aqui identificou 1.007 queixas contra a Motorola. Já o período entre o dia 1º e 11 de maio anotou 645 críticas, indicativo de que os consumidores estavam mais vocais em relação à empresa. A média do período de maio, portanto, superava 58 registros novos por dia — ritmo acelerado que não é nada trivial.
Houve uma inversão nos principais alvos de reclamações: em abril, os problemas com a tela apareciam no primeiro lugar do ranking e a bateria era o segundo colocado. As dificuldades após uma atualização de sistema apareciam somente na quinta posição.
Quando maio começou, bateria e falhas pós-atualização tomaram a dianteira, revelando o impacto de um evento de software específico que virou o quadro de cabeça para baixo.
No Reclame Aqui, a Motorola do Brasil mantém o selo RA1000, a certificação máxima da plataforma. A empresa respondeu 100% das reclamações recebidas, com 1.918 avaliações, nota média de 7,74, e 80,4% dos consumidores dizendo que voltariam a fazer negócio.
A taxa de resolução ficou em 96,5%, com tempo médio de resposta de 2 dias e 3 horas no primeiro semestre de 2026.
Dado paradoxal: a marca recebe muitas queixas, mas também apresenta índices elevados de resolução — o que pode explicar, ao menos em parte, por que continua vendendo bem.
A Motorola recebeu mais de 100 mil votos no Prêmio Reclame Aqui 2025, consolidando posição de preferência. Apenas marcas com o selo RA1000 têm vantagem no processo de votação, e a Motorola permanece entre o grupo seleto.
Por que a frustração se repete

A pergunta inevitável é:
“Se a empresa resolve a maioria das reclamações, por que o mal-estar persiste?”
A resposta envolve camadas diferentes.
Primeiro, a sensação de repetição.
O padrão relatado por inúmeros consumidores segue uma lógica frustrante: o aparelho funciona bem por semanas ou meses, até que uma atualização de sistema ou de algum componente do Android muda drasticamente a experiência.
Um usuário de Moto G42 relatou que, após a última atualização de sistema (Android 13) no final de abril de 2025, o celular passou a descarregar muito rapidamente, mesmo com uso leve e recursos como GPS, Bluetooth e brilho reduzido. Antes da atualização, a duração da bateria era excelente; agora, mesmo em modo de economia, o consumo estava anormal.
Segundo, a queixa transcende modelos, o que transmite a impressão de problema estrutural.
Um consumidor relatou ser o segundo celular Motorola comprado em menos de um ano apresentando superaquecimento — o primeiro foi um Moto G04s; o segundo, um Moto G35 com apenas 10 dias de uso, “esquentando demais e descarregando rápido demais”.
Outro usuário devolveu um Moto G35 comprado em janeiro de 2025 por defeito de bateria, citando que o aparelho anterior, um Moto G32, já sofria do mesmo problema.
Terceiro, o peso do custo-benefício na decisão de compra.
Boa parcela do público que escolhe Motorola no Brasil o faz pela relação preço–funcionalidade. A família Moto G segue como uma das franquias que democratizam recursos antes restritos ao segmento premium, e o mercado intermediário é a fortaleza da Motorola, que lidera o segmento.
Quando a promessa de “sólido pelo preço justo” é quebrada, a reação tende a ser mais dura do que a que se dirige a marcas posicionadas fora do custo-benefício.
O caso Google Play Services: a falha que virou onda

O episódio mais emblemático no período recente envolveu o Google Play Services, e começou no final de abril de 2025 e explodiu em maio.
O fenômeno afetou marcas populares como Samsung, Motorola e Google Pixel e gerou uma onda de reclamações nas redes sociais. Muitos apontaram superaquecimento dos aparelhos e tentativas frustradas de resolver o bug com soluções caseiras.
O Google identificou a origem do problema e liberou a versão 25.18 do Google Play Services, lançada em 14 de maio de 2025.
A cronologia é reveladora. No final de abril de 2025, os primeiros relatos de drenagem de bateria surgiram em fóruns. No início de maio, as reclamações cresceram nas redes sociais, com menções a Samsung e Motorola.
Em 7 de maio, usuários identificaram o Google Play Services como causa principal. Em 10 de maio, o Google anunciou investigação e prometeu atualização. Em 14 de maio, a versão 25.18 foi liberada com correções iniciais.
O detalhe fundamental: o Google Play Services é uma camada do ecossistema Android que roda em segundo plano e gerencia funções como localização, notificações e integração com outros serviços. Qualquer falha nesse componente pode comprometer todo o desempenho do aparelho.
O problema, portanto, não era exclusivo da Motorola — atingia Samsung e Pixel também.
Usuários relataram problemas de bateria e aquecimento especialmente em aparelhos Samsung, Motorola e Google Pixel. A Motorola declarou estar investigando o problema, enquanto a Samsung não comentou.
Motorola e Google não se pronunciaram oficialmente sobre a falha de modo detalhado. A Samsung sugeriu que a questão fosse tratada diretamente com o Google.
A reação nos aparelhos Motorola, porém, ganhou visibilidade desproporcional por conta do volume de reclamações prévias da marca e da concentração de modelos populares entre os mais afetados.
Embora a falha tenha atingido uma variedade de dispositivos Android, os mais afetados parecem ser os modelos de entrada e intermediários. Marcas populares como Samsung e Motorola foram as mais mencionadas nas reclamações.
Como a Motorola vende maciçamente nessa faixa no Brasil, o impacto em números absolutos foi mais barulhento.
Um caso concreto ilustra o que muitos vivenciaram.
Um usuário reportou que o Google Play Services estava “drenando toda a bateria” — o celular foi deixado com 96% às 7h da manhã, e às 16h estava com 7%, com o app apontado como ativo por mais de 9 horas, mesmo sem Wi-Fi, GPS ou uso relevante.
Nem todos os usuários tiveram solução com a atualização 25.18. Um proprietário de Moto G60 relatou que, mesmo após a atualização para a versão 25.18.33 do Google Play Services, o consumo anormal de bateria continuava. Em apenas 1h17min de uso com tela ligada, a bateria caiu de 99% para 66% — uma queda de 33% em pouco mais de uma hora.
Os relatos mais frequentes (os padrões que se repetem)

Para além do bug do Google Play Services, os depoimentos públicos de consumidores traçam um retrato que não se limita a um episódio único. Há padrões recorrentes:
- Consumo anormal de bateria após atualizações (a queixa mais numerosa):Um usuário relatou que, após realizar a restauração de fábrica sugerida pela Motorola, o problema de consumo anormal de bateria foi resolvido; contudo, após a restauração, o sistema retornou à versão anterior à atualização de 27 de abril de 2025, comprovando que o defeito estava ligado àquela atualização.
- Descarga noturna sem uso relevante:Um proprietário de Moto G52 descreveu que ia “deitar com a bateria em 100% e acordava com 20%, sem usar o aparelho a noite toda”, tendo que carregar duas ou três vezes ao dia.
- Baterias estufando:Uma consumidora de Moto G73 relatou que a bateria estufou após 1 ano e 6 meses de uso. O aparelho não segurava mais carga, informando 20% e desligando, e ao religar exibia 60%, mudando de novo em seguida. Na plataforma Proteste, outro relato descrevia bateria de Moto G200 estufando e rachando a parte traseira do aparelho.
- Aquecimento e má otimização do software:Um usuário de Motorola Edge 50 Pro registrou que, após a atualização com patch de segurança de julho de 2025, vinha sentindo “uma má otimização do sistema resultando em um alto consumo da bateria e também nas temperaturas do aparelho”. A queixa não se restringia a aparelhos baratos — atingia um modelo da linha Edge, que ocupa faixa de preço superior.
- Problemas de tela e resistência:Um consumidor relatou que, ao pesquisar no Reclame Aqui e em outras redes, descobriu que queixas de fragilidade de tela em determinado modelo eram recorrentes, mesmo o aparelho tendo certificação militar de “ultrarresistência”.
- Instabilidade geral de sistema operacional:Um proprietário de Moto G35 descreveu que o sistema operacional era instável, a conexão Wi-Fi ficava desconectando, o atalho da lanterna funcionava quando queria, e travamentos eram frequentes — em certos momentos, a interface apresentava bugs assim que o aparelho era desbloqueado.
- Problemas pós-atualização do Android 15:Um usuário de Moto G35 reportou que, após atualização para o Android 15, o celular passou a apresentar diversos bugs: chip físico ficando sem serviço, eSIM não ativando, superaquecimento intermitente e falhas em atividade em segundo plano. Os bugs teriam começado após atualização datada de 12 de março de 2026.
A assistência técnica sob questionamento

A resolução formal de casos pela Motorola no Reclame Aqui não implica satisfação plena do consumidor. Parte das queixas envolve justamente a experiência com autorizadas e o fluxo de reparo.
Uma consumidora relatou ter pagado R$580 via Pix para trocar a bateria de um aparelho fora de garantia, enviado para assistência técnica indicada pela Motorola. O aparelho voltou do mesmo jeito que foi — o problema não foi resolvido.
Após reenviar o aparelho uma segunda vez, a mesma consumidora informou que pagou pela troca de bateria que não foi feita — o celular só funcionava conectado ao carregador.
Outro caso emblemático envolveu um Moto G84. O proprietário comprou o aparelho em agosto de 2024 e levou à autorizada em julho de 2025 por um problema no display. Na autorizada, além da tela, trocaram a Placa Sub Board, alegando defeito.
Porém, após a troca, a bateria já não durava tanto quanto antes e o carregamento apresentava instabilidade. Segundo o consumidor, foi justamente após a troca da placa que o aparelho começou a ter problemas de carregamento/bateria. Retornou à assistência, que realizou nova troca da mesma peça — e o problema persistiu.
Um caso ainda mais direto: consumidora que comprou um aparelho Motorola em 06 de junho de 2025 relatou enfrentar, desde os primeiros dias, consumo excessivo de bateria, mesmo com todos os ajustes de economia ativados. Já desativou aplicativos como o Glance, revisou permissões, restringiu uso em segundo plano e até formatou o aparelho, sem resultado.
Solicitou atendimento técnico imediato e, caso não houvesse solução em 30 dias corridos, requereu troca, reembolso integral ou abatimento proporcional, conforme o Código de Defesa do Consumidor.
Como a Motorola responde (e os limites da resposta)

A postura oficial da Motorola nas plataformas públicas segue um roteiro razoavelmente estruturado, com diagnóstico remoto, orientação de procedimentos e encaminhamento para assistência técnica quando necessário.
A Motorola declarou ao Tecnoblog que estava ciente dos problemas com as baterias dos seus teleefones e trabalhava “com nossos parceiros para investigá-los”. Disse ainda que forneceria uma atualização em breve.
Nas redes, o perfil oficial da marca adotou a postura de pedir que os clientes entrem em contato por DM.
Nos casos do Google Play Services, a resposta padronizada da Motorola no Reclame Aqui incluía uma sequência específica: atualização do Google Play Services para a versão v25.18 ou mais recente; inscrição na versão Beta; acesso via Play Store ao app Services Info; e atualização do serviço.
Se o problema persistisse, a orientação avançava para limpeza de armazenamento do app, restauração de fábrica e, por último, encaminhamento à assistência técnica.
No tocante ao aquecimento após a atualização, a resposta-padrão da empresa é instrutiva.
A Motorola explica que é normal o aparelho aquecer durante o carregamento, que usar o aparelho enquanto carrega aumenta a temperatura, que carregadores de terceiros podem causar aquecimento adicional por não serem certificados e testados, e que a função de carregamento turbo da Motorola faz com que o aparelho esquente “devida a alta voltagem”.
No caso do Moto G35, a empresa reconheceu a raiz do problema com mais clareza.
O suporte esclareceu que o problema de aquecimento estava “relacionado a atualização do Android” e que a Motorola havia liberado uma nova atualização para o modelo em abril.
Quanto ao encaminhamento para reparos, a Motorola oferece agendamento pelo site oficial. A empresa declarou que cerca de 90% dos casos são reparados em até 2 dias, podendo solicitar prioridade no atendimento, com possibilidade de agendamento para reparo rápido (fast repair) e análise nos primeiros 30 minutos.
Ainda assim, a frustração de consumidores que percebem respostas genéricas ou padronizadas é notável.
Uma consumidora descreveu como “particularmente frustrante” a postura da Motorola, afirmando que não conseguia retorno de nenhuma forma. Segundo ela, nas interações em redes sociais, a empresa se limitava a sugerir a restauração do aparelho, sem comunicação oficial, pedido de desculpas ou indicação de que uma correção estivesse em desenvolvimento.
A questão do mercado intermediário: por que a Motorola é mais vulnerável

A Motorola não é a única fabricante com problemas recorrentes em smartphones. Samsung e até Google Pixel sofreram do mesmo bug do Google Play Services.
O que diferencia a Motorola é a combinação entre concentração no segmento intermediário, volume de vendas expressivo no Brasil e fidelidade de um público que usa aparelhos da marca por anos seguidos.
Em maio de 2025, a Samsung permanecia na liderança com 36,21% de participação, seguida pela Motorola com 20,05% e pela Xiaomi com 18,62%. Em agosto de 2025, a Motorola subiu para 21,81%, continuando a crescer e consolidando a vice-liderança no Brasil. 31
A participação de mercado da Motorola no país chegou a 30% em 2026, um avanço de 20 pontos percentuais em comparação a 2013.
Aparelhos de menor preço costumam utilizar chips, telas e soluções térmicas mais simples. Sob uso intenso — redes sociais, streaming, jogos leves, câmera e GPS em sequência —, a margem de tolerância para aquecimento, lentidão e queda de desempenho se estreita.
Quando uma atualização de software chega sem otimização adequada para o hardware limitado, o impacto se amplifica.
A Motorola é reconhecida pela experiência de software quase “puro” (Android sem muitas modificações). Mas analistas observam maior taxa de reclamações em modelos específicos, além de perda de market share para a Xiaomi no canal online.
A promessa de um Android mais limpo pode virar problema quando as atualizações do ecossistema Google — fora do controle direto da Motorola — causam instabilidade nos aparelhos.
Quando o desgaste natural vira reclamação

Nem toda queixa aponta para defeito de fábrica ou falha de software.
Parte das reclamações sobre bateria, sobretudo em aparelhos com mais de 12 meses de uso, tem relação com o desgaste natural das células de lítio. Baterias de smartphones perdem capacidade com o tempo — é uma limitação química conhecida.
Porém, a rapidez com que alguns usuários relatam degradação severa — baterias estufando com pouco mais de um ano de uso, por exemplo — levanta dúvidas sobre a qualidade dos componentes ou o gerenciamento de carga dos modelos mais baratos.
A consumidora de Moto G73 cuja bateria estufou após 1 ano e 6 meses declarou:
“Nunca imaginei que teria esse problema com a Motorola, pois sempre comprei essa marca.”
A fala sintetiza um fenômeno recorrente: consumidores fiéis à marca encontrando problemas que corroem a confiança construída ao longo de anos.
No caso de carregadores, a própria Motorola sinaliza impacto.
O suporte da empresa alerta que carregadores de terceiros “podem ajudar o dispositivo a esquentar, pois não foram certificados e testados”, e que a função de carregamento turbo faz com que o aparelho esquente “devida a alta voltagem”.
Usar acessórios não oficiais pode efetivamente contribuir para degradação mais acelerada da bateria e aquecimento — mas é difícil mensurar qual parcela das reclamações tem relação direta com mau uso.
A presença da Motorola no Brasil: investimento e contradição

A relevância da Motorola no mercado brasileiro vai além do volume de vendas.
Nos últimos 10 anos, foram investidos R$3 bilhões em atividades de P&D no Brasil, onde atuam 1.200 engenheiros dedicados. O presidente da Motorola Brasil, Rodrigo Vidigal, destacou que “o Brasil é o quarto maior mercado de smartphones do mundo, é extremamente relevante e dita tendências globais”.
A marca possui uma operação de B2B também significativa. A divisão de negócios corporativos cresceu 30% nos últimos quatro anos na América Latina, com o Brasil representando 40% do volume.
A contradição é clara: uma empresa que investe bilhões em pesquisa e desenvolvimento local, mantém centenas de engenheiros e ocupa a segunda posição em vendas convive com uma reputação de produto vulnerável em pontos específicos que, para o consumidor médio, são os mais sensíveis (bateria e estabilidade de software).
A Motorola registrou crescimento de vendas de 30% nos últimos dois anos, desempenho acima do próprio ritmo de expansão do segmento intermediário como um todo. Ao que tudo indica, o volume de reclamações não tem freado as vendas — mas pode estar criando uma conta a pagar no médio prazo, especialmente com o avanço da Xiaomi e a presença da Samsung no mesmo segmento.
Software, ecossistema e responsabilidade compartilhada

Um dos aspectos mais difíceis de arbitrar no cenário das reclamações contra smartphones Android envolve a divisão de responsabilidade entre fabricante e Google.
O caso do Google Play Services deixou claro que a Motorola não tem controle absoluto sobre todos os componentes de software que rodam em seus aparelhos.
O Google lançou a atualização v25.18 do Google Play Services para corrigir o consumo excessivo de bateria em dispositivos Android. O software já pode ser instalado nos dispositivos.
O consumidor, porém, não faz distinção técnica entre quem é responsável pelo bug — vê a marca estampada no aparelho e direciona a queixa para ela.
A Motorola reconhece, no próprio material de suporte, que em situações muito particulares, devido a especificações de hardware, recursos limitados e rápida evolução do portfólio, não fornecerá atualizações de software.
A empresa tem a intenção de realizar atualizações para todos os equipamentos anunciados na América Latina, visando proporcionar as melhores experiências com o sistema Android. A lacuna entre intenção declarada e experiência real do consumidor alimenta a desconfiança.
O que resta para o consumidor

A leitura mais honesta do cenário é que a Motorola não é uma marca cujos aparelhos “todos dão problema”, tampouco uma cujas críticas sejam fabricadas ou exageradas.
Há um volume real e verificável de reclamações concentradas em bateria, software e aquecimento, com padrões identificáveis, modelos citados com recorrência e respostas da empresa que, embora existam e alcancem bons índices de resolução no Reclame Aqui, nem sempre encerram a frustração do consumidor.
A marca segue forte no Brasil por preço, presença e catálogo. Nos últimos 12 meses, quase 1 milhão de pessoas recorreram à plataforma Reclame Aqui para avaliar a reputação da marca, o que evidencia o peso do canal na jornada de decisão do consumidor.
O paradoxo é que a mesma base de consumidores que sustenta a vice-liderança de mercado é a que mais se manifesta quando algo sai dos trilhos.
Quando surgem falhas sistêmicas — como a do Google Play Services — a memória coletiva do consumidor revive frustrações antigas, e a percepção de descaso ganha tração mesmo quando parte dos casos é tratada individualmente.
Para a Motorola, a equação parece ser: resolver casos pontuais não basta enquanto o padrão de recorrência de problemas não for atacado na raiz.
Para o consumidor brasileiro, a recomendação prática permanece sendo acompanhar relatos de outros usuários antes de atualizar o sistema, manter carregadores originais, e exigir os direitos previstos pelo Código de Defesa do Consumidor sempre que o aparelho apresentar defeito dentro da garantia.
