
A contínua debandada do público brasileiro do modelo tradicional de televisão por assinatura revela um cenário de sobrevivência seletiva no mercado brasileiro. E não estou exagerando nessa afirmação.
Os dados compilados pela Agência Nacional de Telecomunicações referentes a meados de 2026 expõem uma dinâmica onde o encolhimento geral da base de clientes não afeta a todos da mesma maneira.
Embora o setor tenha registrado uma perda expressiva de cerca de 1,18 milhão de acessos em doze meses, caindo para aproximadamente 7 milhões de contratos ativos, as grandes operadoras navegam por estratégias distintas para absorver o impacto.
Neste artigo, vou detalhar o que a Claro fez para consolidar ainda mais a sua liderança na TV por assinatura no Brasil, e como a Vivo tenta ser uma concorrente direta para ao menos ter uma disputa mínima pela preferência do consumidor brasileiro.
O avanço das líderes em meio à crise

A Claro solidificou sua hegemonia ao abocanhar mais de 54% de participação sobre o total de assinantes do país. De forma mais que consolidada, é a força dominante da TV paga brasileira.
Os dados indicam claramente uma concentração de mercado que chega a ser algo surpreendente: mesmo perdendo clientes em termos absolutos, a empresa consegue reter sua dominância proporcional graças ao desempenho ainda mais frágil de suas concorrentes diretas.
Podemos fazer a leitura dos dados de forma bem mais interessante, com um certo tom de deboche.
Entre as perdedoras, a Claro foi a que perdeu menos. Ou foi a líder de toda a desgraça. Você pode escolher qual é a narrativa mais interessante.

Em uma linha similar, a Vivo ampliou sua fatia para cerca de 10%, demonstrando maior resiliência que a média nacional por meio de uma desaceleração contida nas perdas de contratos.
O que não é muito mérito por parte da Vivo (e eu explico por que escrevi isso daqui a pouco). Chama a atenção esse aumento de público na operadora quando ela faz de tudo para não conquistar novos clientes.
Afinal de contas, o Vivo Play, serviço de IPTV da operadora, é de uso exclusivo dos seus clientes. Algo quase inacreditável nos dias de hoje.
No outro extremo dessa balança, empresas focadas em infraestruturas deficitárias ou que passaram por transições contratuais complexas vivenciam um esvaziamento veloz. A operadora Mileto — que assumiu a antiga base da Oi TV — exemplifica essa deterioração ao ver quase um terço de seus acessos evaporarem no intervalo de apenas um ano.
A Sky também amarga um encolhimento expressivo de dois dígitos na sua base de assinantes via satélite, tecnologia que se torna cada vez menos atrativa em comparação às conexões fixas por fibra óptica.
E aqui, o estudo não leva em consideração plataformas menores que apareceram na internet oferecendo um produto menos caro e tão interessante quanto. Como é o caso da Zapping, que não teve números revelados.
Por mais que a relação custo-benefício da Zapping não seja tão boa assim (na minha opinião), é certo que sua adesão ao redor do Brasil existe, especialmente por causa da promessa de delay zero que a operadora canta em prosa e verso nos seus materiais de propaganda.
Mas não dá para saber o quanto é isso sem que a operadora apresente os seus números.
A consolidação pelo ecossistema de conexões

O segredo por trás do domínio mantido por empresas como Claro e Vivo reside na força dos pacotes convergentes de telecomunicações.
A televisão por assinatura tradicional deixou de ser um serviço vendido isoladamente para atuar como um elemento complementar dentro das ofertas de banda larga de alta velocidade. Na verdade, em muitos casos, a TV paga é uma coadjuvante dentro do combo.
O cliente residencial quer mesmo a internet banda larga como prioridade, principalmente no caso dos planos com tecnologia de fibra ótica. O plano de celular complementa a oferta porque, oras bolas, todo mundo usa um smartphone nos dias de hoje.
A coitada da TV por assinatura é aquele aluno mirrado da classe que ninguém quer escolher para o time de futebol.
Se tornou o esquecido no churrasco do consumidor.
E aquelas empresas de TV paga que dependem puramente do sinal de satélite sem a ancoragem de um ecossistema de conectividade perderão tração em um ritmo impossível de conter.
Vide a dona Sky, que criou um ecossistema de produtos e serviços nos últimos anos. Porque sabe muito bem que apenas com a TV paga (via DTH, tecnologia essa que está cada vez mais em desuso), não dava mais.
Uma luta pela sobrevivência
A reestruturação em curso mostra que o mercado de canais pagos já não busca expansão, mas sim o controle dos clientes restantes. O principal objetivo aqui é não perder quem ainda está com o seu plano ativo.
O consumidor moderno não tolera mais mensalidades inflacionadas por grades engessadas de canais. A flexibilidade e a liberdade oferecidas pelo streaming estão mais do que incorporadas nos hábitos do consumidor brasileiro, e este é um caminho sem volta.
Para as poucas marcas que lideram esse ecossistema, a meta imediata é integrar transmissões via aplicativo para evitar a irrelevância total perante a ascensão dos canais gratuitos conectados e das plataformas globais de streaming.
E todas precisam entender que devem fazer o serviço direito. Caso contrário, serão abandonadas rapidamente.
Via Além da Tela
