
O tarifaço atingiu a todos os setores da economia global de alguma forma, mas o mercado de tecnologia se viu de ponta a cabeça quando descobriu que os produtos poderiam alcançar preços simplesmente intangíveis para o consumidor médio.
De todas as big techs, a que mais se sente asfixiada é a Apple, que tem no iPhone o seu principal produto. E pensar que o seu smartphone pode custar a partir de US$ 2.300 está tirando o sono de Tim Cook e dos investidores da empresa.
Agora, some isso ao fato de a mesma Apple perder por tabela a chance de capitalizar no muito cobiçado mercado chinês, e você tem a tempestade perfeita.
E são as marcas chinesas que estão ganhando com tudo isso.
Um celeiro de oportunidades
Sem a Apple para competir, o mercado chinês para as marcas chinesas se transformou em um gigantesco “o céu é o limite”.
Os consumidores locais estão cada vez mais propensos a consumir marcas domésticas. Huawei, Xiaomi e outras marcas podem oferecer alternativas competitivas aos produtos da Apple.
A tendência se acelerou durante o período de maior tensão comercial entre EUA e China, quando o sentimento nacionalista entre consumidores chineses se intensificou.
Isso naturalmente impulsionou as vendas de smartphones e outros dispositivos eletrônicos produzidos por empresas nacionais.
Você consegue imaginar o impacto deste fenômeno nas estratégias de marketing e posicionamento da Apple no segundo maior mercado consumidor do mundo?
Isso mesmo que você pensou: nadinha para a gigante de Cupertino, que sempre se posicionou como símbolo de status e inovação tecnológica ao redor do mundo, e na China, isso não era diferente.
Agora, a mesma Apple precisa competir nas especificações técnicas, no design e também com essa narrativa nacionalista, que só favorece às marcas locais.
E não há nada que Tim Cook possa fazer, exceto convencer o cabeça dura do Donald Trump de que ele deu um enorme tiro no pé com o tarifaço.
Huawei foi basicamente ressuscitada
Quem mais ganhou com tudo isso foi a Huawei, que não só se consolidou como principal rival da Apple na China, como construiu todo um ecossistema de produtos para oferecer a melhor experiência possível para os seus clientes.
Igualzinho o que a Apple fez nos Estados Unidos.
Sistema operacional, loja de aplicativos, serviços, smartphones, tablets, computadores… os usuários da Huawei agora contam com uma experiência completa e integrada, similar ao que a Apple oferece hoje para os seus clientes.
O sucesso da Huawei é especialmente notável, considerando as restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos nos últimos anos.
Seus produtos não chegam aos norte-americanos, e a empresa não pode utilizar componentes e tecnologias daquele país.
E o que fez a Huawei?
Aproveitou a dificuldade para criar oportunidades.
Desenvolveu alternativas locais e acelerou a sua independência tecnológica, o que impressionou a todos, incluindo especialistas e, principalmente, os consumidores chineses.
A percepção de que a Huawei pode oferecer produtos tão bons quanto a Apple está mais do que consolidada, e o que era uma desvantagem competitiva virou um poderoso argumento de marketing.
Mercado global cada vez mais fragmentado
A guerra tarifária consolidou a tendência de fragmentação do mercado global de tecnologia pelos mais diferentes motivos, com ecossistemas cada vez mais distantes entre si.
Na prática, com um mercado chinês reconfigurado, os efeitos práticos tendem a ser globais, afetando o equilíbrio competitivo de diferentes marcas.
A redução temporária das tarifas comerciais oferece à Apple uma oportunidade estratégica para, inclusive, se reposicionar no mercado chinês como marca.
A janela deve ser aproveitada para entregar ao consumidor asiático campanhas promocionais agressivas, que busquem reconquistar consumidores perdidos para marcas locais.
Oferecer descontos nos seus produtos ainda é uma ideia considerada absurda para Tim Cook e muitos investidores, mas é a alternativa que a Apple tem para reduzir o impacto do estrago.
E, mesmo assim, nada disso vai evitar que a mesma Apple tenha que enfrentar o duro desafio de manter a sua relevância em um mercado que está abraçando cada vez mais os produtos locais, que estão cada vez melhores e mais atraentes na relação custo-benefício.
Como podem ver, a conta da Apple não está fechando em diferentes aspectos. E haja calculadora para resolver tantas equações complexas.
O mundo perfeito pede o fim da guerra comercial entre Estados Unidos e China. Lidar com 30% de impostos nos produtos chineses é o sonho de consumo da Apple neste momento.
Mas o mundo perfeito com Donald Trump aparentemente não existe.

