
A Sony, com sua habitual sutileza (e, pelo amor de qualquer coisa, saiba detectar ironias em um texto), revelou que pode simplesmente apagar contas e jogos digitais de usuários europeus que ficarem três anos sem logar.
Ou seja, se um francês ou inglês perder o seu emprego, vender o PlayStation 5 para pagar as contas, passar um período da vida mais trabalhando do que qualquer outra coisa e, quatro anos depois, voltar a comprar o console da Sony e logar na plataforma… pode se deparar com os títulos adquiridos apagados sua conta.
Simples assim.
E aqui, mais uma vez, está provado, de forma inequívoca, que não somos donos de mais nada. As empresas, que convenceram a todos de que a mídia digital era o melhor para todo mundo, controlam tudo.
E isso só é bom para a própria Sony.
A notícia que chega no pior momento
A justificativa está nos Termos de Serviço, e usa a regra da inatividade do usuário para retirar o direito de utilização dos títulos. O problema é que essa medida chega num momento cruel, logo após o anúncio do fim das mídias físicas.
Dá até para pensar que a Sony está fazendo isso de propósito. Ativar o senso de urgência nos gamers para que todos mantenham suas contas ativas, apenas para manter os números frios e corporativos artificialmente inflados para investidores, patrocinadores e acionistas.
Uma visão que, na minha opinião, beira à ignorância vestida de terno e gravata.
O argumento corporativo é técnico, mas o impacto prático é brutal: você perde tudo que comprou, como se sua biblioteca inteira fosse um aluguel de longo prazo.
Que tipo de usuário se sente confortável com isso?
É só pensar um pouco: ou mantenho minha conta PlayStation ativa de alguma forma, ou perco o jogo. Com o fim da mídia física nos consoles da Sony, você não tem sequer a chance de manter o jogo com você por nenhuma vai possível ou legal.
E aí, alguns vão apelar para a ilegalidade. E não é possível que a Sony não imaginou que isso pode acontecer ao tomar essa decisão.
A empresa promete aviso prévio por e-mail, mas quantos de nós checam caixas de entrada antigas ou lembram de senhas esquecidas?
Exatamente isso que você pensou: (quase) ninguém.
Mais um reflexo do fim da mídia física

Na prática, a mídia física ainda seria a garantia de acesso offline, mas a Sony quer mesmo é empurrar o mundo para o 100% digital, com todas as amarras que isso implica.
E a Sony não pensa, em nenhum momento, pensa nos efeitos do consumidor. A empresa quer apenas que os usuários deixem o dinheiro nos caixas da empresa e nada mais.
Acredite em mim: a grande maioria das pessoas não vão se convencer que isso é o certo.
Se todo mundo está voltando de alguma forma para o DVD e Blu-ray porque entendeu, de forma definitiva, que pagar a Netflix pelo resto da vida é um enorme problema (inclusive porque percebeu que aquele conteúdo não é seu para sempre), a mesma coisa já está acontecendo com os videogames.
E em todas as plataformas.
Boa parte dos gamers está migrando para o PC, onde as garantias do direito permanente de uso dos jogos são maiores, seja pelos termos da Steam, seja pela instalação direta dos jogos.
Em casos mais radicais, estão abraçando com força os videogames do passado ou a retroemulação. Porque nos cartuchos ou discos de CD e DVD, o jogo base está completo. Na pior das hipóteses, você deixa de receber as atualizações do título, mas não deixa de viver a história principal sempre e quando quiser.
A relação de consumo atual dos videogames está cada vez mais assimétrica, onde o “dono” é refém das regras da plataforma, e não do produto que pagou.
Decisão não atinge ao Brasil… por enquanto
Para alívio dos brasileiros, a regra europeia não se aplica ao nosso contrato, pelo menos por enquanto. Mas a gente sabe muito bem o que vai acontecer conosco no futuro.
Se historicamente as medidas adotadas pela Sony são regionalizadas, a agenda dessa tragédia previamente anunciada já está rolando, e nós, gamers brasileiros, vamos ter que passar pelo mesmo em algum momento no futuro.
E a pior parte de tudo isso: a Sony deu a deixa para que a Microsoft faça a mesma coisa.
Não se engane: essa é a direção que o mercado quer tomar, e a complacência do consumidor só acelera esse processo.
Mais uma vez, pergunto: o que você vai fazer diante de tudo isso?
Aceitar pacificamente que aquilo que você pagou com o dinheiro do seu trabalho (ou com a mesada dos pais, que seja) não é seu?
Ou tentar algum tipo de reação para que a Sony perceba que esse tipo de decisão é algo, no mínimo, extremamente infeliz e controverso?
Faça o que você quiser com esse posicionamento.
