
Em 2015, a Netflix era uma autêntica revolução.
A plataforma de streaming oferecia acesso a um amplo catálogo de conteúdo por um preço bem mais acessível que a TV a cabo, sem publicidade e com produções originais de qualidade como “House of Cards” e “Orange is the New Black”.
Hoje, tudo mudou.
Para ter acesso a “quase tudo”, você precisa pagar a vários serviços ao mesmo tempo. E, mesmo assim, ter que engolir a publicidade em determinados momentos do filme ou episódio de série que você está assistindo.
O problema é que a estratégia funcionou. Todas as plataformas de streaming oferecem pelo menos um plano mais barato em troca da publicidade, e todas estão lucrando duas vezes em cima dos assinantes.
Obrigado por nada, dona Netflix.
O sucesso dos planos com anúncios

A estratégia funcionou muito bem para a inventora da prática nefasta, a Netflix.
A plataforma de streaming líder do setor anunciou que seu plano com anúncios saltou de 40 milhões de assinantes em maio de 2024 para 94 milhões um ano depois, mais que dobrando sua base nessa modalidade.
A gigante do streaming está investindo no aprimoramento do sistema de exibição de anúncios, incluindo o uso de inteligência artificial para criar anúncios mais direcionados e exibidos em momentos estratégicos.
Há planos até para mostrar publicidade na tela de pausa, o que eu acho algo horroroso.
Os números inflados agradam para a Netflix porque, dessa forma, pode vender a publicidade para os anunciantes em um valor ainda mais caro, turbinando a máquina de receita que ela criou.
Ironicamente, a Netflix havia negado rumores sobre a implementação de anúncios em sua plataforma anos atrás.
Hipocrisia pura.
Hoje, não apenas adotou esta prática como se tornou líder nesta tendência que se provou altamente lucrativa para ela.
E fez com que todas as demais plataformas de streaming copiassem o movimento na cara dura, com algumas soluções pioradas em casos pontuais.
A disseminação do modelo com publicidade

O Disney+ também implementou seu plano com anúncios, trazendo mudanças negativas para alguns usuários, especialmente na América Latina após a fusão com o Star+.
Os assinantes de promoções conjuntas com outros serviços foram automaticamente migrados para o plano com publicidade, recebendo um serviço degradado e inferior ao que recebia antes.
Outras plataformas como Max (que voltou a se chamar HBO Max), Amazon Prime Video e até a Globoplay aderiram à exibição de anúncios.
O YouTube também entrou nessa tendência com o YouTube Premium Lite, onde “a maioria dos vídeos não exibirá anúncios”, mas alguns conteúdos como videoclipes e Shorts continuarão mostrando publicidade.
O que podemos observar é a gourmetização da publicidade em algo que já é pago. Ficou normalizada a história de jogar propagandas na cara de um assinante que, oras bolas, já está pagando pelo serviço.
A boa notícia é que essa farra do boi pode não durar para sempre.
O FAST vem aí

Além da torcida para que o Prime Video perca na Justiça pela inclusão sem aviso prévio do seu plano de publicidade (o que criaria um precedente jurídico bem interessante a favor dos assinantes), o formato FAST pode ser parte do futuro do streaming para quem entende que não é justo pagar por publicidade.
O FAST é o modelo de entrega de conteúdo gratuito baseado na exibição de publicidade, tal e como já estamos mais do que acostumados a ver em nossa TV aberta.
Plex, Pluto TV, Mercado Play e o recém-lançado Roku TV Channels oferecem acesso gratuito a filmes e séries em troca de publicidade.
E os brasileiros (felizmente) estão se adaptando ao formato.
O sucesso dos planos com anúncios demonstra que o preço acessível (ou a gratuidade) é o fator mais importante para os usuários.
A publicidade no streaming veio para ficar e continuará sendo parte fundamental do modelo de negócio. Mas ainda pode se adaptar se os usuários entenderem que não querem pagar para ver comerciais.
Essa aproximação gradual do modelo da TV a cabo tradicional e a restrição das contas compartilhadas pode resultar em um abandono dos consumidores que vão se sentir traídos com essa mudança de paradigma na experiência de uso.
E aqui, ou muita gente vai seguir fazendo rodízio de plataformas em função dos conteúdos específicos, ou vai seguir abraçando o “gatonet” como se não houvesse o amanhã.
Não podemos julgar essas pessoas.

