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O retorno inesperado da mídia física

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Muitos podem até estranhar o retorno das mídias físicas para o consumo de entretenimento em plena era digital. Mas quando olhamos para os detalhes da era do streaming (e já falamos sobre os aspectos negativos do formato neste blog), entendemos com maior facilidade a volta do consumo de discos de vinil, DVDs, Blu-rays e até cartuchos de videogames.

O que é realmente fascinante neste processo é como todos nós, de alguma forma, estamos envolvidos nisso. As diferentes gerações e faixas socioeconômicas estão voltando para a mídia física, principalmente pelo desejo de voltar a ter a propriedade de algo que está se perdendo.

Entenda por que todos estão voltando para o conceito do “ter” em plena era do “você só tem o direito de usar”.

 

O fascínio da geração digital

A geração Z cresceu em um mundo dominado pelo digital e vê a mídia física como algo quase mítico. Essa redescoberta desperta interesse genuíno: vinis e DVDs simbolizam uma conexão emocional que o streaming não oferece.

Influenciadores impulsionam esse movimento ao transformar o colecionismo em uma tendência estética, ressignificando o consumo de música e filmes. A nostalgia de algo nunca vivido se transforma em desejo de autenticidade, estimulando uma nova onda de colecionadores.

Sim, é claro que parte desse movimento é motivado pelo interesse econômico, pois o mundo é capitalista. Mas é curioso ver os jovens olhando para a tecnologia e cultura da década de 1990 (quando os seus pais eram jovens) e consumindo tudo isso com muita intensidade.

 

A rebelião dos “cansados do streaming”

Para os mais velhos, o retorno à mídia física é um ato de resistência. Após anos de instabilidade nos catálogos das plataformas digitais, a posse voltou a representar autonomia de tempo e até de investimento no entretenimento doméstico.

Comprar um Blu-ray ou um CD não é apenas adquirir um produto. É também uma forma de garantir o direito permanente ao conteúdo. O movimento reflete o descontentamento com o modelo de assinatura, que transformou o consumidor em refém de contratos e licenças instáveis.

Dizer que o movimento de volta à mídia física é uma rebelião não é um exagero. Tem uma galera cancelando contas do Spotify e do Xbox Game Pass porque voltou a armazenar músicas no smartphone ou usar consoles de videogames do passado.

E esse público está cada vez mais feliz com essas escolhas.

 

Artistas entre o lucro e o vínculo

Muitos músicos perceberam que o público busca algo além da reprodução digital. Por isso, investem em tiragens físicas limitadas que unem valor simbólico e econômico, aproveitando o momento para capitalizar em cima desse movimento de mudança.

Taylor Swift, Gorillaz e artistas independentes brasileiros perceberam que o objeto físico gera mais conexão e lucro do que os pouquíssimos centavos das plataformas. E os lucros em cima dessa oportunidade tendem a ser cada vez mais generosos.

O vinil e o CD voltam a ser arte palpável e indicativo de identidade cultural, tornando-se símbolos de status e expressão pessoal, além de serem novas margens de receitas para os artistas.

Receitas que geram margens de lucros maiores que as plataformas de streaming musical, diga-se de passagem.

 

Sebos como guardiões culturais

Enquanto o comércio digital cresce, os sebos e lojas independentes assumem o papel de curadores da memória física. Esses espaços oferecem experiências reais, imprevisíveis e sensoriais.

Encontrar um DVD raro ou um jogo antigo se torna uma jornada de descoberta. É o contraponto perfeito aos algoritmos que determinam preferências, devolvendo ao público a surpresa e o prazer da busca.

Muitos usuários já valorizavam os sebos como verdadeiros oásis para o consumo de conteúdo em modo analógico. Agora, com a nova era de busca por livros, discos e filmes, esses locais estão mais em moda do que nunca.

 

Do colecionismo ao investimento

O fenômeno do colecionismo ganhou contornos econômicos. Itens antes comuns hoje valem centenas de reais, e muitos colecionadores enxergam oportunidades de investimento, impulsionando pequenos negócios e empreendedores independentes.

O valor está na tangibilidade e na escassez: em tempos de nuvem e volatilidade digital, o que pode ser tocado e preservado torna-se um ativo de prestígio. A mídia física, antes descartada, afirma-se agora como novo ouro cultural.

Por isso, não estranhe se um DVD que estava custando R$ 10 ser vendido por valores que ultrapassam os R$ 100, pois o momento é de maior investimento nos filmes e séries que, em alguns casos, não são encontrados em nenhuma plataforma de streaming.

Bom… ao menos você paga apenas uma vez pelo item, e ele é seu para sempre. Não deixa de ser um bom negócio de alguma forma.

 


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