Press "Enter" to skip to content

O rei do streaming no Brasil (no primeiro trimestre de 2026)

O mercado de streaming brasileiro acabou de registrar uma mudança histórica. A JustWatch divulgou um novo levantamento sobre as maiores plataformas de streaming do Brasil e apontou uma mudança relevante no mercado: o Disney+ ultrapassou a Netflix e se tornou o segundo maior serviço do país no primeiro trimestre de 2026.

Os dados foram coletados entre janeiro e março deste ano e refletem o comportamento real de milhões de usuários em mais de 60 plataformas de vídeo sob demanda.

A virada não é apenas um número. Ela sinaliza uma reconfiguração profunda de como os brasileiros escolhem onde investir seu tempo e dinheiro no universo do entretenimento digital.

O relatório não é uma pesquisa de opinião, nem uma projeção estimada. Os dados divulgados pela JustWatch refletem o engajamento dos usuários em seu site e aplicativos móveis e para TV, e o interesse do público é medido por meio de ações específicas, como a inclusão de títulos em listas de favoritos, marcação de conteúdos assistidos e cliques em ofertas de streaming.

 

Como o relatório foi construído e o que ele mede

Antes de interpretar qualquer número, vale entender a metodologia por trás da análise.

Os dados refletem o interesse e o engajamento do público brasileiro em SVOD (serviços de vídeo sob demanda) por assinatura, considerando ações como buscas por conteúdos, adição a listas de favoritos e cliques para assistir títulos, e o período analisado compreende os meses de janeiro a março de 2026.

A abrangência do estudo é global, mas com recorte local preciso. A análise faz parte do relatório “Streaming Charts”, publicado pela JustWatch, que acompanha a evolução do consumo de conteúdo digital em mais de 140 países, e a metodologia considera dados de comportamento de usuários em aplicativos e dispositivos conectados, oferecendo um panorama sobre a disputa entre as principais plataformas de streaming no Brasil.

Um detalhe técnico importante para quem vai usar esses números: o relatório destaca que os valores foram arredondados para o percentual inteiro mais próximo, considerando variações inferiores a 0,5 pp como estáveis.

Ou seja, variações muito pequenas aparecem como “sem alteração”, o que torna as mudanças sinalizadas ainda mais expressivas quando acontecem.

 

Os números consolidados do Q1 2026

A tabela abaixo resume a participação de cada serviço e suas variações recentes, segundo a JustWatch:

Serviço Participação (Q1 2026) Variação Anual (Q1 25 → 26) Cenário Atual
Prime Video 21% Estável Líder isolado
Disney+ 19% +4 pp Vice-líder (Alta)
Netflix 18% -5 pp Terceiro lugar (Queda)
HBO Max 12% Estável 4º lugar consolidado
Apple TV+ 9% +3 pp Em ascensão
Globoplay 7% -4 pp Em queda
Paramount+ 6% +2 pp Recuperação
MUBI 3% Estável Nicho estável

 

 

Prime Video: liderança sólida e sem sinais de recuo

No topo do ranking, o Amazon Prime Video segue inabalável. Com 21% de participação de mercado no primeiro trimestre de 2026, a plataforma manteve posição estável tanto na comparação trimestral (Q4 2025 para Q1 2026) quanto na anual (Q1 2025 para Q1 2026).

A estabilidade do Prime Video em um mercado tão dinâmico é, por si só, um feito considerável. No topo do ranking, o Prime Video conseguiu algo raro em um mercado tão disputado: crescer e se manter estável ao mesmo tempo, e a plataforma fechou o ano com 21% de participação, sendo que essa popularidade vem do combo que a empresa oferece, como o pacote que combina streaming, frete grátis e outros benefícios do Amazon Prime.

Na prática, quem assina o Prime Video não está pagando apenas por filmes e séries. O ecossistema Amazon, com entrega gratuita, música, leitura e outros benefícios, cria um tipo de fidelização difícil de ser replicado por concorrentes que vendem apenas conteúdo audiovisual. O Brasil é hoje o maior mercado de streaming da América Latina, com mais de 40 milhões de lares conectados a ao menos uma plataforma de vídeo sob demanda, e em abril de 2026, o Prime Video lidera com 21% de market share, impulsionado pelo catálogo de esportes ao vivo e pelo crescimento de suas produções originais brasileiras.

 

Disney+: a ascensão que ninguém parou

O movimento mais significativo do período foi protagonizado pelo Disney+. Segundo relatório da JustWatch, o Disney+ registrou um crescimento consistente e ultrapassou a Netflix, consolidando-se como a segunda maior plataforma de vídeo sob demanda por assinatura (SVOD) do país.

Com 19% de participação no Q1 2026, a plataforma registrou alta de 1 ponto percentual frente ao trimestre anterior e um salto expressivo de 4 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2025. Na comparação trimestral, o Disney+ foi um dos poucos serviços a registrar crescimento entre os líderes, com alta de 1 ponto percentual em relação ao último trimestre de 2025.

O crescimento não é isolado ou repentino. O Disney+ foi o serviço com maior crescimento anual de 2025, aproximando-se diretamente da Netflix e se firmando como principal concorrente na disputa pelo segundo lugar, e com 18% de participação, a plataforma conquistou +3 pp em 2025, sendo o maior avanço anual entre todos os serviços analisados. A virada de 2026 é, portanto, a conclusão de um processo que vinha sendo construído ao longo de pelo menos dois anos consecutivos.

 

O que explica o avanço do Disney+ no Brasil

A expansão do Disney+ no mercado brasileiro tem raízes em uma decisão estratégica adotada ainda em 2024. Em 2026, o Disney+ consolidou sua fusão com os conteúdos que anteriormente pertenciam ao Star+, tornando-se uma plataforma muito mais robusta do que apenas um repositório de desenhos animados e Marvel.

A incorporação do Star+ trouxe esportes, séries adultas e novos públicos para dentro da mesma assinatura. O grande trunfo do Disney+ no Brasil é a integração total com a ESPN, e para os fãs de esportes (Libertadores, Premier League, NBA), o plano Premium é quase obrigatório. Além disso, o catálogo de filmes de família e animações da Pixar e Disney permanece imbatível para quem tem crianças em casa.

Outro fator que impulsiona o crescimento da plataforma é a força das franquias globais. Promoções, pacotes e lançamento de conteúdo globalmente popular explicam grande parte do avanço de outras plataformas frente à Netflix, e estratégias de preço, ofertas combinadas e estreita ligação com franquias fortes aumentaram a aquisição de assinantes. Distribuidoras que empacotam serviços com operadoras ou oferecem testes prolongados conseguem aceleração rápida de base, e no Brasil, esses modelos mostraram-se eficazes entre 2025 e 2026.

 

Netflix em queda: o que os números revelam

Do outro lado do pódio, a realidade da Netflix é bem diferente. Com 18% de participação no Q1 2026, a plataforma perdeu 1 ponto percentual frente ao trimestre anterior e, mais alarmante: registrou queda de 5 pontos percentuais em comparação ao primeiro trimestre de 2025.

Os números acendem um sinal de alerta para a Netflix. No comparativo anual (Q1 2025 vs. Q1 2026), a plataforma registrou a maior queda do mercado, perdendo 5 pontos percentuais, e enquanto novos players investem em catálogos robustos e preços competitivos, a antiga líder parece enfrentar dificuldades para reter o engajamento do público brasileiro.

A Netflix ainda tem apostas fortes, mas enfrenta um desafio crescente de custo-benefício percebido pelo assinante. O combate rigoroso ao compartilhamento de senhas e a taxa de membro extra pesam no bolso, e a disparidade de preço entre o plano com anúncios e o Premium é a maior do mercado, empurrando muitos usuários para uma experiência com interrupções comerciais para viabilizar o custo.

 

HBO Max, Apple TV+ e a batalha do meio do ranking

O relatório também revela movimentos relevantes nas posições intermediárias. O HBO Max avançou 1 ponto percentual no trimestre, consolidando-se na quarta posição, enquanto o Apple TV+ manteve sua trajetória de crescimento anual e ampliou sua presença no mercado brasileiro.

O crescimento do Apple TV+ ao longo de 2025 e início de 2026 é um dos pontos mais surpreendentes do relatório. A plataforma da Apple ampliou sua participação em 3 pp no período de um ano, encerrando o primeiro trimestre de 2026 com 9% de market share, e esse crescimento permitiu que o serviço superasse o Globoplay, que agora detém 7% do mercado após sofrer uma redução de 4 pp em sua base de engajamento na comparação anual.

O Globoplay, por sua vez, vive o dilema de plataformas nacionais diante da concorrência global. O Globoplay continua sendo a principal plataforma nacional no mercado brasileiro, no entanto, a perda de 4 pontos percentuais ao longo de 2025 indica que a concorrência com serviços globais está cada vez mais difícil.

 

Paramount+, MUBI e outros: o papel das plataformas de nicho

O restante do mercado é ocupado por plataformas com perfis bastante distintos entre si. O mercado brasileiro é completado pelo Paramount+, que detém 6% de participação e apresentou um crescimento anual de 2 pp, e a plataforma MUBI permanece estável com 3%, enquanto a categoria que engloba outros serviços menores soma 5% de participação, apresentando uma leve variação positiva no último trimestre.

O Paramount+ mostrou resiliência ao crescer 2 pontos percentuais no acumulado anual, mesmo atuando em um ambiente altamente competitivo. A plataforma conta com franquias como Paramount Pictures, MTV, Comedy Central e Nickelodeon, o que amplia seu alcance para públicos variados.

A MUBI mantém seu espaço com uma proposta radicalmente diferente das demais. A MUBI, com foco em um público de nicho, manteve sua participação estável em 3%. A plataforma não compete por volume de catálogo, mas por curadoria cinematográfica, atraindo um público específico que prioriza cinema de autor e filmes independentes acima de qualquer blockbuster.

 

O que muda para o consumidor brasileiro

A reconfiguração do mercado tem um impacto direto nas escolhas dos assinantes. O mercado de entretenimento digital no Brasil atingiu um patamar de maturidade e fragmentação sem precedentes em 2026, e se há poucos anos a escolha era simples, hoje o consumidor se vê diante de um ecossistema complexo de assinaturas, planos com anúncios, taxas de membro extra e direitos de transmissão esportiva pulverizados.

O custo acumulado das assinaturas também passou a ser um critério de decisão relevante. Em janeiro de 2026, o custo total para manter os planos premium das maiores plataformas ultrapassa facilmente os R$ 300 mensais, e por isso, a tendência do ano é a curadoria: escolher um serviço principal e rotacionar os secundários conforme os lançamentos.

Na prática, plataformas com propostas mais abrangentes e preços competitivos saem na frente. A ascensão do Disney+ e da Apple TV+ mostra que o público brasileiro está diversificando suas assinaturas em busca de conteúdos específicos, como franquias de heróis e produções originais premiadas.

 

O que esperar dos próximos trimestres

O cenário aponta para uma guerra de conteúdo ainda mais acirrada nos próximos meses. O crescimento do Disney+ e os movimentos do Prime Video reduziram a distância entre as maiores plataformas e alteraram a composição do mercado de assinantes, e dados de 2025 e 2026 mostram uma competição mais acirrada entre os três maiores players: Netflix, Prime Video e Disney+.

A Netflix precisará de respostas concretas para reverter a tendência de queda. A estratégia da empresa para 2026 foca em “eventos rituais”, como a conclusão de franquias globais de peso, sendo Stranger Things o maior exemplo de engajamento contínuo. A capacidade de gerar conversas globais ainda é um dos ativos mais valiosos da plataforma.

Para o Prime Video, o desafio é manter a liderança enquanto o Disney+ avança de forma consistente. Com a liderança do Prime Video ameaçada apenas pelo crescimento consistente do Disney+, os próximos meses prometem uma “guerra de preços” e conteúdos exclusivos para conquistar o play do consumidor.

O mercado brasileiro de streaming nunca foi tão competitivo, e os próximos trimestres prometem novos capítulos dessa disputa.

 

Via: Gamers & Games, Tecflow, CDL FM, Oficina da Net, JustWatch Brasil