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O que o fim do FanDuel TV ensina para a TV paga brasileira

Eu tenho quase certeza de que você nunca ouviu falar do FanDuel TV, e até pode se perguntar: “por que eu devo me preocupar com um canal esportivo que sequer existe no Brasil?”. Olha, considerando a decisão, seus motivos e o contexto do todo, entendo que vale a pena perder algum tempo falando sobre isso.

Essa decisão da FanDuel fala muito mais sobre o cenário de momento da TV por assinatura ao redor do planeta do que se imagina. E fica ainda mais sério pelo fato de o canal esportivo ser focado nos eventos regionais, o que dificulta o acesso de milhões de pessoas às competições dos times de cidades menores.

E tudo o que aconteceu com o FanDuel TV pode se repetir no Brasil em médio e longo prazos, mesmo com o contexto nacional dos nossos canais esportivos. Ou seja, vale a pena entender o que aconteceu lá fora, só para não ser pego de surpresa no futuro se o mesmo acontecer por aqui.

 

A morte anunciada de um pioneiro

Em 27 de março de 2026, durante uma reunião virtual transmitida para todos os funcionários da empresa, executivos da FanDuel comunicaram o que muitos no setor já suspeitavam, mas poucos queriam admitir: o canal linear FanDuel TV — herdeiro direto do lendário TVG, o Television Games Network — seria gradualmente encerrado ao longo dos próximos 20 meses.

Mais de 100 postos de trabalho serão eliminados até o final de novembro de 2026, em uma reestruturação que começa com o fim das transmissões em estúdio e culmina no apagamento definitivo do sinal linear.

O canal surgiu em 1999 como TVG, inicialmente cobrindo Kentucky, Maryland e Oregon, com a proposta inédita de entregar corridas de cavalo ao vivo na casa dos americanos — algo que, à época, era descrito como uma forma sem precedentes de o esporte contar sua própria história.

Ao longo de quase três décadas, mudou de dono, adotou diferentes nomes e expandiu sua programação para além das pistas, incorporando programas como o talk show “Up & Adams”, da apresentadora Kay Adams.

A rede não se tornou FanDuel TV até 2022, quatro anos depois de a Betfair ter adquirido o grupo.

A decisão de encerrar o canal não é apenas um ajuste contábil. É um capítulo final na longa história dos canais de nicho na televisão por assinatura — e um aviso para o restante da indústria de mídia esportiva ao redor do mundo.

 

A lógica do encerramento

A decisão de desativar a rede linear decorre de uma revisão interna abrangente que concluiu que os investimentos contínuos na infraestrutura televisional tradicional já não sustentavam os objetivos estratégicos de longo prazo da FanDuel.

A liderança da empresa concluiu que os recursos poderiam ser melhor alocados em direção a plataformas digitais de apostas e experiências integradas de jogo esportivo.

Andrew Moore, gerente-geral de corridas da FanDuel, foi direto ao ponto ao comentar a decisão para o Paulick Report:

“A FanDuel realizou uma análise minuciosa do negócio e os investimentos necessários para sustentar uma rede linear não se alinhavam com sua estratégia de longo prazo.”

A frase resume com precisão cirúrgica uma tendência que transcende o turfe e alcança qualquer canal especializado que dependa do modelo de distribuição tradicional.

A FanDuel detém 41% do mercado americano de apostas esportivas, segundo o relatório anual de 2025 da Flutter Entertainment, sua controladora.

Os produtos da empresa nos EUA — apostas esportivas, iGaming, fantasy sports e apostas em corridas — contribuíram com US$ 7 bilhões para a receita total de US$ 16,4 bilhões da Flutter em 2025, um crescimento de 16,6% em relação ao ano anterior.

Com números assim, manter uma rede de televisão linear parecia, na prática, um luxo justificado apenas pela tradição — não pela racionalidade financeira.

 

O impacto para o turfe americano

O encerramento do FanDuel TV deixa o turfe americano em situação delicada.

Sem o canal, o “Fox Sports 2” da FOX, que exibe corridas principalmente aos finais de semana, torna-se o único veículo dedicado a transmitir múltiplas pistas em um mesmo dia.

A cobertura diária e cotidiana das pistas — uma característica histórica do TVG/FanDuel TV — simplesmente desaparece do espectro televisivo convencional.

Em 2025, aproximadamente US$ 2,24 bilhões foram apostados por meio do TVG.com e do FanDuel Racing, o equivalente a cerca de 19% de todo o volume pari-mutuel da América do Norte — ou seja, um em cada cinco dólares apostados em corridas de cavalo no continente.

Analistas do setor alertam que, mesmo com as plataformas de apostas digitais permanecendo ativas, a ausência de um canal linear pode resultar em queda no volume de apostas: o canal funcionava como vitrine permanente para o esporte, e pistas que entravam na grade do TVG registravam consistentemente aumento no volume de apostas.

Caton Bredar, uma das primeiras apresentadoras do canal e ainda colaboradora do FanDuel TV, expressou o clima de incredulidade que tomou conta do setor:

“É algo surreal. Tendo participado do lançamento da rede, jamais imaginei que chegaria até onde chegou para, de repente, parar. É como se o Golf Channel decidisse encerrar as operações, ou se a MLB Network simplesmente saísse do ar. Você se pergunta quem vai ocupar esse vazio.”

O canal, que já alcançou cerca de 50 milhões de lares há alguns anos, havia encolhido para aproximadamente 30 milhões de domicílios — uma retração significativa que ilustra o processo de erosão gradual da audiência linear antes mesmo do anúncio formal do encerramento.

 

O que esse movimento revela sobre o futuro dos canais esportivos

O FanDuel TV não está sozinho nessa trajetória.

Outra rede com a marca FanDuel, a FanDuel Sports Network — conjunto de redes esportivas regionais operadas pelo Main Street Sports Group sob acordo de naming rights — também está em processo de encerramento, com algumas transmissões previstas para serem descontinuadas ainda em abril de 2026.

Dois canais com o mesmo nome, sendo extintos praticamente ao mesmo tempo.

A coincidência não é casual: é sintomática.

A sobrevivência de canais lineares de nicho na televisão paga depende de dois pilares fundamentais: audiência cativa e capacidade de monetização via publicidade ou acordos de distribuição.

Quando qualquer um desses pilares se fragiliza, a equação não fecha mais. No caso do turfe americano — e, por extensão, de qualquer esporte de nicho com audiência envelhecida e baixa penetração entre jovens —, ambos os pilares estão sob pressão simultânea.

A lógica das empresas de apostas digitais é particularmente reveladora: a atividade que um canal de TV faz de forma custosa e indireta — apresentar o esporte, criar familiaridade, estimular o apostador — um aplicativo bem desenhado faz de forma integrada, personalizada e mensurável.

O usuário que abre o app vê o evento, analisa os dados e aposta na mesma interface. A televisão, nesse fluxo, torna-se redundante.

 

O Brasil no espelho: um cenário muito familiar

A pergunta que inevitavelmente surge é: o mesmo movimento pode se repetir no Brasil?

A resposta honesta é que parte dele já está em curso — e os números não deixam margem para interpretações otimistas.

O mercado brasileiro de TV por assinatura encerrou 2025 com 7,6 milhões de pontos ativos, após perder 1,6 milhão de clientes ao longo do ano. A retração representa uma queda de 17,7% em relação a 2024 e leva o setor ao menor patamar desde 2009.

Quando a comparação é com 2014, quando o segmento somava 19,6 milhões de pontos ativos, a base atual representa uma redução de 61,1%.

No lado das receitas, o primeiro trimestre de 2025 foi igualmente devastador: em junho de 2025, a TV a cabo faturou R$ 2,7 bilhões, ante R$ 3,3 bilhões no mesmo mês de 2024 — uma diferença de R$ 600 milhões.

Em contrapartida, dados estimados indicam que o número de domicílios brasileiros com acesso a serviços pagos de streaming chegou a 34 milhões em 2025 — um patamar quase cinco vezes superior ao da base total de TV paga no país.

A mudança de mentalidade do consumidor brasileiro é notável: em 2016, 56,1% dos entrevistados apontavam o preço alto como principal barreira para não contratar TV por assinatura.

Em 2024, esse percentual caiu para 31%. Por outro lado, a falta de interesse pelo serviço saltou de 39,1% em 2016 para 58,4% em 2024.

O brasileiro não está apenas migrando por razões financeiras — está migrando por desinteresse genuíno no formato.

 

Os canais esportivos do Brasil: quem são e qual é o risco real

O ecossistema de canais esportivos no Brasil é formado por um conjunto de marcas que, em sua maioria, já transitam entre o modelo linear e o digital.

Os principais nomes do setor são ESPN (com seis canais: ESPN, ESPN 2, ESPN 3, ESPN 4, ESPN 5 e ESPN 6), SporTV (com SporTV, SporTV 2 e SporTV 3), Premiere, BandSports, NSports, SportyNet, XSports e Combate. Cada um ocupa um nicho específico, e o grau de vulnerabilidade de cada um varia conforme o perfil do conteúdo e a relação com plataformas digitais.

A ESPN no Brasil pertence ao grupo Disney, que também opera o Disney+. A Libertadores da América, por exemplo, tem transmissão simultânea pela ESPN e pelo Disney+, o que demonstra uma estratégia de integração já em operação.

A lógica do grupo é clara: o canal linear e o streaming não são concorrentes, mas complementares — ao menos por enquanto, enquanto a base de assinantes da TV paga ainda justifica os custos de manutenção.

O SporTV, controlado pelo Grupo Globo, tem posição diferente: a rede está integrada ao Globoplay e à plataforma Watch, criando uma arquitetura multiplataforma que distribui conteúdo esportivo de forma simultânea em diferentes ambientes.

Nessa estrutura, o canal linear já funciona como um dos vetores de distribuição — não como o único.

O Premiere, modelo pay-per-view focado em futebol brasileiro, enfrenta dinâmica distinta.

Para acessar todos os jogos do Campeonato Brasileiro, de forma legal, é necessário combinar múltiplas plataformas — Amazon Prime Video, Globoplay, Disney+, Premiere e outros —, o que cria uma fragmentação que empurra uma parcela considerável do público para a pirataria.

O BandSports e o Combate — canais de menor porte e com programação mais segmentada — são, estruturalmente, os mais vulneráveis ao cenário traçado pelo FanDuel TV.

Canais dedicados exclusivamente a nichos específicos (automobilismo no caso do BandSports, lutas no Combate) dependem de acordos de direitos e de audiências leais. Se o público desses nichos migrar de forma acelerada para plataformas digitais, a viabilidade do modelo linear pode ser questionada.

 

Por que o Brasil ainda não chegou lá — e o que pode acelerar essa chegada

Há diferenças estruturais relevantes entre o mercado americano e o brasileiro que explicam por que o colapso dos canais esportivos lineares ainda não se materializou com a mesma velocidade por aqui. E a principal delas é a concentração dos direitos esportivos.

No Brasil, a Globo ainda detém contratos extensos sobre os principais eventos do esporte nacional e internacional. A Copa Libertadores, o Campeonato Brasileiro, a Fórmula 1 e os Jogos Olímpicos passam, em maior ou menor grau, pelos canais do grupo — seja na TV aberta, no SporTV ou no Globoplay.

Enquanto esses contratos de direitos existirem e permanecerem atrelados a pacotes que incluem distribuição linear, os canais têm garantia de sobrevivência.

Outro fator é a infraestrutura de conectividade.

Em regiões com conexões instáveis, baixo acesso à internet e limitações tecnológicas, a TV por assinatura, especialmente via satélite, mantém papel essencial como principal fonte de entretenimento.

No Brasil, um país de dimensões continentais e profundas desigualdades de infraestrutura digital, esse fator ainda protege parte da base de assinantes — particularmente no interior e no Norte do país.

Mas… o que pode acelerar a chegada do cenário americano ao Brasil?

A CazéTV já dá pistas do caminho. Em 2025, o canal desbancou a Globo e transmitiu todos os jogos da Copa do Mundo de Clubes pelo YouTube.

Para a Copa do Mundo de 2026, a CazéTV exibirá as 106 partidas do torneio, além de transmitir com exclusividade a Europa League.

Quando plataformas digitais nativas passam a disputar e vencer grandes pacotes de direitos esportivos, o modelo linear perde um de seus últimos argumentos de valor.

Pesquisas repercutidas ao longo de 2025 indicam que 39% dos brasileiros pretendem cancelar ao menos uma assinatura de streaming, motivados por aumentos de preço, fragmentação de conteúdo e sensação de sobrecarga.

Além disso, 64% dos brasileiros já cancelaram algum serviço de streaming e 14% chegaram a cancelar todas as assinaturas em determinado momento.

Nesse ambiente de instabilidade e migração constante — o chamado subscription cycling —, canais lineares perdem relevância progressivamente.

 

As apostas digitais como catalisador

Há um elemento que merece atenção especial no caso da FanDuel TV: a relação entre apostas digitais e transmissões esportivas lineares.

Nos EUA, a legalização das apostas esportivas em 2018 foi inicialmente interpretada como uma oportunidade para os canais de televisão — mais espectadores engajados financeiramente significariam mais audiência.

Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário: as plataformas de apostas criaram seus próprios ecossistemas de consumo de conteúdo, tornando a televisão linear dispensável para o apostador.

No Brasil, o mercado de apostas esportivas foi regulamentado com mais rigor recentemente, e as operadoras digitais — as chamadas bets — já dominam o patrocínio dos principais times e competições.

Se o padrão americano se repetir, é possível que, no médio prazo, as plataformas de apostas brasileiras também optem por desenvolver aplicativos com transmissão ao vivo integrada, reduzindo ainda mais a necessidade do espectador de recorrer à TV fechada para assistir ao esporte pelo qual vai apostar.

 

O que o fim do FanDuel TV ensina para o mundo

A lição mais profunda do caso FanDuel TV não está nos números — está na velocidade com que a decisão foi tomada e na clareza da justificativa.

Observadores do setor notaram que muitos fãs cresceram assistindo aos eventos esportivos do TVG ou do FanDuel TV — e, ainda assim, a rede será desligada. A familiaridade e a nostalgia não são argumentos de negócio suficientes quando o modelo de distribuição muda de forma estrutural.

No Brasil, o equivalente a esse cenário seria uma decisão do Grupo Globo ou da Disney de priorizar exclusivamente o Globoplay e o Disney+ para distribuição de conteúdo esportivo premium, abandonando gradualmente os canais lineares.

Ainda não é o que acontece neste momento — e pode não acontecer tão cedo, dado o tamanho da base instalada e os contratos vigentes. Mas a direção do vento é inequívoca.

Com o streaming representando 37,2% da participação na audiência total do país em dezembro de 2025 — o maior nível da série histórica — e a TV por assinatura respondendo por apenas 6,9% dos aparelhos sintonizados, a pergunta não é mais se os canais esportivos lineares vão encolher no Brasil.

A pergunta é em que ritmo — e quais serão os primeiros a apagar as luzes.

O tempo, sempre ele, vai entregar as respostas pendentes.