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O que ninguém te contou sobre o ultimato de 7 dias da Warner para a Paramount Skydance

Este é um daqueles momentos em que o mundo do entretenimento parece um episódio de sucesso da HBO, repleto de reviravoltas, traições e muito dinheiro em jogo. A Warner Bros. Discovery (WBD) colocou um ponto final nos jogos de sedução e deu um ultimato digno de cinema: a Paramount Skydance tem apenas sete dias para apresentar a sua melhor e final proposta, ou a compra da empresa simplesmente sai de cogitação.

Tudo parecia resolvido em dezembro, quando a WBD aceitou uma proposta de fusão bilionária da Netflix, num negócio avaliado em cerca de US$ 27,75 por ação. Inconformada, a Paramount, em uma manobra agressiva e nada sutil, não só entrou na jogada como partiu para o ataque, oferecendo US$ 30 por ação e prometendo cobrir a multa de rescisão de US$ 2,8 bilhões que a WBD teria que pagar à Netflix se o negócio anterior fosse por água abaixo.

Agora, a bola está com a Paramount. Com um perdão da própria Netflix para negociar, a WBD quer saber de uma vez por todas: afinal, quanto vale o seu império?

 

O tabuleiro do jogo: quem é quem nessa briga?

Para entender o tamanho do barulho, é preciso enxergar o que está em jogo.

A Warner Bros. Discovery é um baú do tesouro com direitos sobre Game of Thrones, Harry Potter, DC Comics, CNN e a HBO. Quem levar essa joia para casa, basicamente, compra um pedaço significativo da cultura pop global.

De um lado do ringue, temos a Netflix, que já tem um acordo assinado e a recomendação do conselho da WBD. O plano da gigante do streaming é ficar com os ativos mais nobres (o estúrbio e a biblioteca de filmes), deixando os canais de TV pagos, como a CNN, em uma nova empresa separada, apelidada de “Discovery Global”.

Do outro, está a Paramount Skydance, liderada por David Ellison (filho do bilionário Larry Ellison, fundador da Oracle), que quer comprar a empresa por completo, incluindo as redes de TV.

 

Por que a Warner rejeitou a proposta (e pediu mais dinheiro)?

A Paramount achou que estava perto ao oferecer US$ 30 por ação, mas o conselho da WDB basicamente respondeu com um sonoro “para mim está fraco”. O problema não é só o número, mas a certeza de que o negócio vai ser concretizado sem dores de cabeça.

A proposta da Paramount, apesar de mais alta no papel, é vista como arriscada. A WBD apontou “deficiências” no acordo, exigindo garantias financeiras mais sólidas e a remoção de cláusulas que amarram as mãos da empresa antes da venda.

A diretoria quer saber se a Paramount tem mesmo o dinheiro (e a paciência) para enfrentar os órgãos reguladores, especialmente nos Estados Unidos, onde um negócio desse tamanho levanta bandeiras vermelhas sobre monopólio e influência na mídia.

A seguir, trecho da carta enviada pela liderança da WBD aos diretores da Paramount Skydance:

Para deixar claro, nosso conselho não determinou que sua proposta tem uma probabilidade razoável de resultar em uma transação maior do que a fusão com a Netflix.

Continuamos recomendando nossa transação com a Netflix e permanecemos totalmente comprometidos com ela. [No entanto], agradecemos a oportunidade de dialogar com você e determinar rapidamente se a Paramount Skydance pode apresentar uma proposta vinculativa e exequível que traga valor superior.

A grande cartada da Paramount é ter indicado informalmente que pode chegar a US$ 31 por ação, e que este ainda não seria o valor final. A WBD, então, resolveu testar esse limite: “Se é para falar em dinheiro, vamos falar sério. Mostrem a que vieram”.

Há quem diga que o conselho quer um número que comece com “4” (US$ 40) para realmente se sentar à mesa.

 

A resposta da Netflix: ironia e direito de preferência

Se engana quem pensa que a Netflix ficou quieta no canto dela. A empresa não gostou nada de ver o seu “noivado” virar um ménage à trois, e respondeu à altura.

Em um comunicado afiado, a plataforma classificou as manobras da Paramount como “palhaçadas” e uma “distração” para o mercado.

Apesar da bronca, a Netflix fez um movimento estratégico. Ela concedeu à WBD uma “waiver” (uma dispensa temporária) de sete dias para negociar livremente com a concorrente.

Parece bondade? Nenhuma.

A Netflix sabe que, ao final desse prazo, se a Paramount fizer uma oferta melhor, ela tem o direito legal de igualar a proposta ou aumentá-la.

Ou seja, a Netflix está dizendo: “Podem brincar de leilão, mas eu tenho a cadeira na primeira fila e o direito de dar o último lance.”

 

O que acontece nesses 7 dias?

Para você não se perder nesse roteiro, aqui está o passo a passo do que vai rolar até o dia 23 de fevereiro de 2026:

  • Abertura da exceção: A Netflix autoriza a WBD a conversar oficialmente com a Paramount até 23 de fevereiro, algo que estava proibido pelo contrato de fusão.
  • A proposta final: A Paramount tem até essa data para entregar a sua “melhor e final oferta” por escrito, com todos os detalhes de financiamento e garantias.
  • Avaliação do conselho: O conselho da WBD analisa se a nova oferta é, de fato, “superior” à da Netflix, considerando não só o preço, mas a probabilidade de a aprovação regulatória dar certo.
  • O contra-ataque: Se a oferta da Paramount for considerada superior, a Netflix é notificada e ganha um curto período (geralmente alguns dias) para decidir se aumenta a própria proposta para igualar ou superar a concorrente.
  • O veredito final: Se a Netflix cobrir a oferta, o negócio original prossegue. Se não cobrir, a WBD pode rescindir o contrato com a Netflix (pagando a multa bilionária, agora coberta pela Paramount) e fechar com a rival.

 

Os obstáculos invisíveis: política, reguladores e sindicatos

Comprar uma empresa não é simplesmente assinar um cheque. No caso da WBD, o cenário político e regulatório dos EUA é um campo minado que pode explodir qualquer negócio.

A fusão com a Netflix, que já criaria um gigante absoluto do streaming, enfrenta a resistência de sindicatos como o Writers Guild of America (WGA), que afirmam que essa união é exatamente o que as leis antitruste deveriam impedir.

Já a oferta da Paramount carrega uma bomba ainda maior: o envolvimento de dinheiro estrangeiro.

Fontes apontam que parte significativa do financiamento da Paramount Skydance vem de fundos ligados a famílias reais da Arábia Saudita, Catar e Abu Dhabi, o que já está levantando preocupações sobre a segurança nacional nos EUA.

A Netflix, claro, já usou isso como munição para desqualificar a concorrente.

Além disso, o clima político esquenta a disputa.

A Paramount é dona da CBS, e a WBD é dona da CNN. Juntar as duas sob o mesmo teto, em um momento de embate entre a grande mídia e o governo Trump, acendeu todas as luzes de alerta em Washington.

Analistas apontam que ambas as partes podem estar subestimando o risco regulatório, e o negócio pode acabar sendo barrado pelo governo americano, independentemente de quem vencer o leilão.

 

O que esperar do desfecho?

Estamos vivendo os dias finais de uma guerra de aquisição que vai redefinir o mapa do entretenimento.

A WBD jogou a isca e agora espera para ver se a Paramount vai morder de verdade ou se apenas “encheu o peito” para falar de dinheiro.

Se a Paramount realmente colocar os bilhões na mesa e a Netflix desistir de igualar, David Ellison consegue o prêmio que tanto perseguiu. Se a Netflix cobrir a oferta ou a proposta da Paramount não for convincente, o negócio segue com a plataforma de streaming, e a WBD terá usado a concorrente apenas para extrair um preço melhor.

Uma coisa é certa: até o dia 23 de fevereiro, os executivos vão dormir pouco. Para nós, meros mortais que amamos cinema e TV, resta acompanhar de perto.

Afinal, seja lá quem vencer, o que está em jogo é o futuro dos filmes, séries e notícias que vamos consumir nos próximos anos. E essa decisão vai influenciar nossas vidas de maneiras (quase) inimagináveis.