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O problema da CazéTV não é divulgar bets. É em como faz isso

A transmissão da Copa do Mundo de 2026 pela CazéTV entrou na pauta regulatória do país. A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, abriu investigação para apurar possíveis irregularidades na divulgação de apostas esportivas durante os jogos.

O foco da apuração está em dois pontos: o volume de publicidade de bets nas transmissões e o papel de narradores e comentaristas ao mencionar odds, palpites e cotações ao vivo. Vídeos com ações promocionais de casas de apostas durante as partidas motivaram a abertura do processo.

Entre acusações de inveja alheia, um movimento orquestrado da concorrência para tirar os direitos da próxima edição da Copa do Mundo no YouTube e a percepção pública sobre o excesso de propaganda e eventuais prejuízos que a iniciativa pode causar, vou dar neste artigo os meus dois centavos de opinião sobre o assunto.

 

O que gerou a polêmica

O problema central é a linha tênue entre conteúdo editorial e publicidade comercial.

Quando um comentarista da CazéTV cita odds ou sugere uma aposta durante a transmissão, o espectador pode interpretar aquilo como análise esportiva, e não como promoção paga. Sem falar na percepção de que aquela OPINIÃO pode ser considerada como uma RECOMENDAÇÃO em uma aposta, o que seria algo temerário em grande escala.

No campo político, a repercussão também foi rápida. Afinal de contas, essa é uma das pautas do momento, tanto na discussão sobre os possíveis danos que os aplicativos de bets estão causando na população quanto nos prejuízos que o Brasil tem por ver esse dinheiro sair limpo do país (e sem qualquer tipo de imposto pago, para a tristeza dos políticos).

A deputada Camila Jara apresentou proposta para proibir que locutores, narradores e repórteres façam sugestões de aposta ou mencionem cotações durante transmissões esportivas. Já a deputada Erika Hilton acionou o Ministério Público para questionar a prática.

Além da crítica à mistura de papéis, há preocupação com o público exposto. A audiência da Copa é ampla e inclui muitos jovens, faixa etária para a qual a normalização do ato de apostar é considerada especialmente sensível.

A discussão aumenta quando os internautas resgatam um vídeo com uma fala do próprio Casimiro Miguel, que é a cara da CazéTV, afirmando com todas as letras que “não tem muito o que fazer” (sobre as propagandas de apostas no seu canal), porque “é isso o que paga as contas”.

Entendo que essa fala nem deveria ser um ponto de polêmica, pois é algo que todo mundo já sabe (ou deveria saber). apenas e tão somente pelos lucros gerados no AdSense não se adquire direitos esportivos de grande porte (e muito caros) como uma Copa do Mundo.

O que está em discussão aqui é na forma em como isso e feito, e nos possíveis efeitos colaterais que a prática pode gerar junto ao coletivo.

 

Os riscos jurídicos envolvidos

A fiscalização tem base legal clara, e faz parte de todos os esforços regulatórios para ao menos tentar minimizar os potenciais prejuízos que os aplicativos de apostas podem gerar no grande coletivo.

As normas aplicadas ao caso incluem:

Essas regras proíbem mensagens que prometam ganho fácil, associem aposta a sucesso financeiro ou usem apelos de urgência para induzir o apostador a agir por impulso. Para muitos, é basicamente isso o que os comentaristas da CazéTV estão fazendo quando, por exemplo, indicam as odds (ou possibilidades de algo acontecer) para os jogos da Copa do Mundo.

Um exemplo hipotético: quais são as reais chances de a seleção de Curação marque dois gols no Uruguai quando está perdendo um jogo de quatro a zero (e eu sei que esse jogo não aconteceu na Copa do Mundo)?

Então… por que mencionar essa possibilidade?

A Secretaria de Prêmios e Apostas também sinalizou fiscalização intensificada durante a Copa, com atenção a avisos de risco e identificação de publicidade. Mas até o momento em que este artigo foi produzido, nada de mais incisivo aconteceu com a CazéTV ou a Livemode, empresa que gerencia o canal.

Outro ponto relevante é a responsabilidade solidária. A regulamentação vigente indica que o operador pode responder pelos atos de afiliados e influenciadores vinculados à sua marca, o que amplia o risco para todos os envolvidos na cadeia comercial da transmissão.

Ou seja, até mesmo os comentaristas que estão recomendando as apostas podem ser envolvidos nas consequências legais, e não apenas os gestores.

É… a polêmica está servida.

 

O que pode mudar

Se a Senacon concluir que houve infração, sanções administrativas previstas no Código de Defesa do Consumidor e na Lei 14.790/2023 podem ser aplicadas. Mas isso não significa que os responsáveis pela CazéTV vão responder criminalmente por qualquer coisa que tenham feito até agora durante as transmissões da Copa do Mundo… por enquanto.

No Congresso, o debate pode resultar em restrições mais rígidas para transmissões esportivas com patrocínio de bets. O que seria catastrófico para praticamente todos os grupos de mídia, já que o mundo da transmissão esportiva está mais do que turbinado com a publicidade de apostas esportivas.

Enquanto isso, a CazéTV segue fazendo barulho. Para o bem, e para o mal. E é certo que o canal está capitalizando com isso.

 

É um assassinato de reputação? (a minha opinião)

Por partes.

Está mais do que na cara de que tem muitos grandes grupos de mídia incomodados com todo o sucesso da CazéTV. E motivos para isso não faltam.

Um projeto despretensioso, com linguagem casual e despojada, focado em um público que está entrando no grande mercado consumidor e que está aprendendo a ver esportes de uma forma diferente da proposta tradicional é o pesadelo de uma Rede Globo da vida.

A exclusividade dos jogos da Copa do Mundo 2026 virou uma arma poderosa nas mãos da CazéTV. Usar essa narrativa como moeda de troca é algo mais do que atraente para um canal que está faturando alto com o evento.

Logo, não dá para não pensar que a Rede Globo, com todo o seu poderio e influência, pode sim estar neste momento mexendo os seus pauzinhos para turbinar a narrativa polêmica das bets na CazéTV. É uma guerra pela audiência, e o principal canal de televisão do Brasil está deixando de alcançar mais de 18 milhões de espectadores nos jogos do Brasil, e isso não é pouca coisa.

Por outro lado…

Tudo nessa vida é sobre COMO FAZEMOS AS COISAS.

E a forma que a CazéTV está divulgando as plataformas de apostas é sim muito questionável, para dizer o mínimo.

Não dá para partir do pressuposto de que todos que assistem aos jogos terão o autocontrole para só jogar se tiver a responsabilidade disso, ou encarar que essa é apenas uma diversão. Mesmo sem a garantia de ganhos, estimular as apostas cria a expectativa de dinheiro fácil de qualquer forma, o que resulta no problema maior do mesmo jeito.

As críticas à CazéTV sobre a quantidade e, principalmente, a forma em como os serviços de apostas são apresentados são válidas. É uma poluição informativa sem precedentes, o que desestimula a seguir assistindo ao canal da forma em como isso é executado neste momento.

E insisto: dizer um “jogue com responsabilidade” em meio segundo de fala tem o mesmo efeito prático do “beba com moderação” para as campanhas de publicidade de cervejas.

Da forma em como a CazéTV está fazendo, é muito difícil eximir o canal da responsabilidade de induzir a audiência ao erro. Ainda mais depois que tantos debates públicos sobre os possíveis danos financeiros que o indivíduo pode ter ao apostar de forma desenfreada.

Na prática, o caso se tornou um termômetro público sobre os limites da publicidade de apostas em coberturas de grande audiência.

A questão mais sensível não é o número de anúncios, mas a possível transformação de profissionais de jornalismo esportivo em instrumentos de persuasão comercial para uma atividade regulada como de risco.

É uma polêmica com camadas mais profundas do que aparenta ter.

 

Via: Poder360, Correio Braziliense, ExameCorreio da Manhã