
Mais um episódio da série “tem coisas que a inteligência artificial não consegue fazer por você”.
Miranda Priestly, a personagem icônica vivida por Meryl Streep, voltou às telas vinte anos após o longa original conquistar o público global. “O Diabo Veste Prada 2”, sequência produzida pela Disney e 20th Century Studios, superou projeções com 77 milhões de dólares em bilheteria doméstica e 233,6 milhões no mundo todo durante o fim de semana de abertura.
Mas boa parte da conversa online dos últimos das não girou em torno dos números colossais de bilheteria, dos figurinos mais minimalistas ou do plot central voltado à falência do jornalismo e das editorias de moda.
O que realmente rendeu uma bela discussão online foi um meme.
Uma cena breve mostra um punhado de memes da internet satirizando a editora-chefe da revista Runway, incluindo uma imagem de Priestly vestida como atendente de fast-food, com a frase provocativa “Quer algumas mentiras para acompanhar?” A imagem ficava na tela por poucos segundos, mas foi suficiente para acender um debate intenso nas redes sociais.
Com aparência típica do chamado “AI slop”, muitos espectadores assumiram de imediato que a produção recorreu a um gerador de imagens por inteligência artificial para criá-la.
Plot twist: foi um ser humano que criou aquela imagem, e sem a intervenção de uma IA para entregar aquele resultado.
A verdade por trás da pintura digital

A artista Alexis Franklin revelou em seu perfil no Instagram que foi ela quem criou o meme de Miranda Priestly exibido no filme, derrubando toda a especulação sobre o uso de IA generativa.
Na publicação, ela compartilhou um vídeo em timelapse mostrando cada etapa do processo criativo, da primeira pincelada ao resultado que aparece na produção. Franklin explicou ter pintado a peça a pedido do diretor David Frankel, o mesmo cineasta responsável pelo filme original de 2006.
Segundo a artista, a pintura digital levou alguns dias de trabalho intermitente, e ela foi compensada de maneira justa pelo serviço prestado.

Ao explicar a estética da obra, Franklin declarou à NBC News: “eu estava tentando fazer parecer artificial, mas emular IA não estava na minha cabeça.” A intenção era alcançar um visual plástico e barato, remetendo à estética de memes editados no Photoshop da década de 2010.
A reação do público foi imediata

Quando a verdade veio à tona, a resposta nas redes sociais ultrapassou qualquer expectativa. Franklin compartilhou no X (antigo Twitter) que foi “inundada com comentários de alívio” ao revelar que a piada visual no filme tinha sido criada por um ser humano de verdade.
A publicação acumulou milhões de visualizações em poucas horas.
A decisão de contratar uma artista em vez de utilizar IA generativa foi extremamente bem recebida nas redes, com fãs afirmando que “as pessoas realmente querem arte de verdade, não conteúdo de IA.” Ao mesmo tempo, uma parcela significativa de internautas apontou o absurdo de celebrar algo que deveria ser natural: a contratação de profissionais humanos.
Um comentário popular resumiu o sentimento contraditório daquele momento: “o nível está no inferno” quando contratar um artista se torna uma novidade digna de aplausos. A frase viralizou e condensou o paradoxo vivido pela indústria criativa nos dias atuais.
O contexto sombrio da indústria audiovisual
Plataformas de streaming como a Netflix já implementam imagens geradas por IA em seus conteúdos finais, especialmente para efeitos visuais de grande escala. O movimento, que reduz custos drasticamente, tem sido apontado como um dos gatilhos para a escassez de vagas para artistas de conceito e design.
Enquanto algumas produções buscam o lucro máximo através da eficiência dos algoritmos, um movimento contrário ganha força: o “filme feito por humanos”. O público mais jovem, segundo relatórios de 2026, busca ativamente filmes com certificação de ausência de processos generativos, valorizando a imperfeição como sinônimo de autenticidade.
A ironia de “O Diabo Veste Prada 2” é que o filme critica a perda da essência humana nas redações e corporações. Usar IA para criar o meme seria um tiro no pé retórico, quebraria a imersão crítica que a produção se propõe a construir.
O que a comemoração revela sobre o presente
A celebração massiva de uma decisão aparentemente óbvia aponta para um cenário preocupante na indústria audiovisual.
Teria sido extremamente fácil para a Disney usar um modelo generativo para cuspir algo descartável naquele momento efêmero do filme, ignorando completamente a postura anti-IA defendida pela própria narrativa.
O fato de David Frankel ter optado pelo caminho oposto reforça uma coerência rara em produções de grande porte.
O longa não rejeita completamente a cultura digital, mas parece argumentar que a criatividade humana mantém seu valor, mesmo quando o público mal consegue distinguir a diferença entre o trabalho manual e o automatizado. Franklin, por sua vez, ofereceu uma perspectiva ainda mais profunda sobre o clima de desconfiança permanente.
A artista pontuou nas redes:
“A IA é tão presente agora que as pessoas esqueceram como ela ficou tão boa. Ela estudou a gente. As técnicas que ela usa são nossas!”
A reflexão evidencia como a hipervigilância do público, embora compreensível, pode acabar prejudicando os próprios artistas que deseja proteger.
Uma bilheteria que chancela a escolha artística

Além do debate sobre IA, os números da sequência comprovam que o público compareceu em massa para reencontrar esses personagens.
Nunca antes um filme com público predominantemente feminino liderou o primeiro fim de semana do verão norte-americano, uma data historicamente dominada por produções de super-heróis. Cerca de 76% dos ingressos foram adquiridos por mulheres, segundo dados do PostTrak.
No Brasil, a arrecadação de abertura alcançou 12,6 milhões de dólares, superando inclusive o México e consolidando o país como um dos maiores mercados internacionais para o filme. Na América Latina como um todo, o primeiro fim de semana da sequência já ultrapassou a bilheteria total que o longa original acumulou durante todo o ciclo nos cinemas da região.
O filme conquistou 87% de aprovação dos espectadores verificados no Rotten Tomatoes, nota 4,5 de 5 no PostTrak e “A-” no CinemaScore. Números que indicam um boca a boca positivo capaz de sustentar a bilheteria nas próximas semanas.
O caminho a seguir para Hollywood
A decisão de David Frankel não é apenas simbólica. Funciona como um exemplo concreto do tipo de postura que estúdios e profissionais podem adotar quando valorizam o trabalho criativo.
Contratar Alexis Franklin para um momento quase imperceptível na tela exigiu orçamento, tempo e, principalmente, intenção.
Muitos internautas elogiaram a equipe de produção por manter coerência com a mensagem pró-artista do próprio filme, mesmo quando o uso de IA generativa teria feito sentido narrativo para a cena.
A lição que fica é: quando a prática reflete o discurso, o público percebe e responde.
O caso ilustra perfeitamente a encruzilhada da indústria criativa em 2026. A tecnologia existe e está acessível, mas optar deliberadamente pelo talento humano carrega um peso simbólico que algoritmos ainda não conseguem replicar.
