Um homem identificado como Brenton Tarrant invadiu uma mesquita na Nova Zelândia e abriu fogo contra as pessoas presentes no local. O saldo da ação: infelizmente, 49 pessoas perderam a vida pelo ato insensato de uma pessoa mentalmente doente. E, antes que você comece a ficar indiferente ao evento, saiba que ele está muito mais relacionado ao mundo da tecnologia do que você pode imaginar.

 

 

Toda a ação foi transmitida pelo Facebook Live

 

 

Tudo aconteceu na cidade de Christchurch, e foi transmitido ao vivo pelo Facebook Live, como um show de horror sem precedentes. O vídeo foi muito compartilhado naquele momento, e muita gente até agora se pergunta como o Facebook não reagiu a tempo para evitar a viralização.

Agora, esse material já está disponível em várias plataformas e redes sociais, o que faz com que sua disseminação já se encontre no estágio “fora de controle”. As autoridades locais pedem para que as pessoas não compartilhem o vídeo, e eu também peço isso. Eu não quero ver isso, e acredito que você, leitor de bom senso, também não quer ver.

 

 

O que PewDiePie tem a ver com isso?

 

 

Antes de iniciar o seu horrendo ataque, o autor dos disparos gritou: “se inscreva no PewDiePie”.

Para quem não sabe (eu sei que o leitor regular do blog conhece ele, mas a audiência é rotativa, e muita gente que não entende nada de tecnologia pode ler esse post), PewDiePie é um dos youtubers mais famosos do mundo, e nesse momento luta para ter o canal do YouTube com o maior número de seguidores.

Sua base de fãs fez coisas insanas para promover a frase “subscribe to PewDiePie” (“se inscreva no PewDiePie”, em livre tradução). Porém, quando algo entra na cultura popular em forma de “meme”, pode virar um desastre. E foi o que aconteceu quando o atirador disse a frase antes de abrir fogo contra as pessoas na mesquita.

Por outro lado, o passado de PewDiePie não joga a favor dele. Além dos vídeos polêmicos, ele foi acusado de ser nacionalista, racista e anti semitista.

De qualquer forma, o sueco Felix Kjellberg (nome real de PewDiePie) já se pronunciou sobre a tragédia:

“Me sinto absolutamente enjoado em ter o meu nome utilizado por essa pessoa. Meu coração e pensamentos estão com as vítimas, seus familiares e todos os afetados por essa tragédia.”

É um dos momentos mais complicados de sua jornada de youtuber, e um dos dias mais tristes da história da Nova Zelândia. E, mesmo que qualquer tentativa de culpar PewDiePie pela tragédia seja algo estúpido e irracional, é impossível não pensar que a associação da sua imagem com essa atrocidade vai arranhar ainda mais a sua já delicada reputação.

Mas… espere. Não foi só para ele que o assassino tentou empurrar a responsabilidade pelo seu ato insano.

 

 

Tarrant publicou um manifesto de 73 páginas antes do tiroteio

 

 

Brenton Tarrant era um usuário ativo da 8chan e outras plataformas similares na dark web, e horas antes de iniciar o seu ataque, ele publicou um extenso documento ou uma espécie de manifesto de 73 páginas com o título The Great Replacement, onde fala de todas as coisas que ele tinha na cabeça antes de realizar a sua “obra”.

No texto, Tarrant faz um chamado para que assassinem Angela Merkel (chanceller da Alemanha) e Sadiq Khan (membro do Parlamento no Reino Unido). Ele culpa os dois pela condenação de Anders Breivik, responsável pela matança de Utoya em 2011.

De fato, existem vários paralelismos entre os dois assassinos. Breivik também escreveu um manifesto, mas jamais chegou no nível de aberração do atirador da Nova Zelândia.

 

 

A “inspiração” em Fortnite

 

 

Tarrant cita outros massacres históricos e seus autores, incluindo aquele que já é considerado um clássico do gênero, e ponto inicial de toda a romantização dos atos produzidos por mentes doentes: Columbine, 1999.

Mas a mais desconcertante informação presente no manifesto e que afeta de forma direta o mundo da tecnologia está relacionada com o game de estilo Battle Royale Fortnite. O assassino afirma que esse jogo ensinou para ele o que é violência.

O documento também inclui memes, destacando a simpatia do autor por aqueles que são organizados e difundidos pelos pensamentos de extrema direita. Revelou que sua ideia original não era atacar na Nova Zelândia, que só seria o local para treino de um plano maior, mas concluiu que a mesquita seria um objetivo melhor naquele momento, pois “chamaria mais atenção sobre a verdade do assalto à nossa civilização” (palavras dele no manifesto).

Todo o relato é ilustrado por poemas de Dylan Thomas, Rudyard Kipling e frases de supremacia racista.

 

 

O que podemos concluir com tudo isso?

 

Brenton Tarrant é uma pessoa doente, antes de qualquer coisa. Em um momento onde o mundo está dividido entre direita e esquerda, a primeira coisa que devemos concluir é que ele é tão doente quanto várias pessoas espalhadas pelo mundo são. Nós vivemos em um mundo doente, e em tempos muito difíceis.

O discurso dele não é muito diferente daqueles que cometeram atos similares recentemente ao redor do mundo. A forme de pensar e agir de Tarrant não é muito diferente dos assassinos do massacre no colégio em Suzano (SP). Ele fez as escolhas que se alinhavam com discursos que estão se estabelecendo ao longo de duas décadas em nossa sociedade.

E, como todo autor de um ato covarde, coloca a culpa no meio que o envolve para justificar os seus atos. Incluindo a influência dos videogames.

Não é o videogame o grande vilão. Não é a tecnologia, nem a internet. Eu insisto que a culpa é nossa. Estamos vivendo a era onde a cultura do ódio, da intolerância e do preconceito está institucionalizada, e as pessoas estão pegando em armas para defender o seu direito para serem racistas, preconceituosas, misóginas e violentas. Nós, como sociedade, estamos sangrando.

Tarrant não passa de um ser doente e repugnante. E tem muita gente como ele por aí, com o mesmo discurso e pensamento objetivo sobre o mundo.

Precisamos ficar cada vez mais atentos sobre isso. Pois está mais do que claro que tragédias como essa podem acontecer a qualquer momento. Em qualquer lugar.

E a tecnologia não tem culpa disso. É apenas a ferramenta.

E ferramentas nós podemos usar para construir e destruir.