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O luxo que afasta os “influenciadores ostentação” do público

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Não pense que a crise de credibilidade e conexão com a realidade que os influenciadores digitais estão enfrentando acontece apenas e exclusivamente no Brasil. É um fenômeno global, que é percebido pelos seguidores, que estão deixando de seguir esse conteúdo.

Chega uma hora que o marketing de influência simplesmente para de funcionar, pois até mesmo o mais otário seguidor percebe que aquele conteúdo foi produzido de forma totalmente artificial, ou em cenários simplesmente intangíveis.

Até mesmo as coisas mais efêmeras se tornam alvo de críticas de pessoas que, no lugar de manterem uma postura mais profissional, acabam apostando no esdrúxulo e no excêntrico extremo, apenas para causar o hype.

 

Por que comprar uma escova de 170 euros?

A compra de uma escova de cabelo no valor de 170 euros pela influenciadora Andrea Garte gerou uma intensa discussão nas redes sociais sobre a desconexão crescente entre influenciadores e seus seguidores.

A influenciadora, que justificou a compra como uma forma de otimizar seu espaço e reduzir o uso de outros utensílios de beleza, acabou virando alvo de críticas sobre elitismo e falta de empatia com a realidade econômica da maioria das pessoas.

O que é meio óbvio: afinal de contas, quem é que compra uma escova que pode custar o mesmo que um smartphone de entrada?

Nos comentários, muitos seguidores demonstraram frustração com a distância entre os produtos recomendados por influenciadores e a realidade financeira de seu público.

Comentários como “Sinto falta de influenciadores recomendando coisas ao alcance dos mortais” mostram uma insatisfação crescente com o conteúdo cada vez mais aspiracional e inacessível.

A reação de Garte foi imediata, produzindo mais conteúdo em tom de humor e ironia sobre o caso, o que gerou ainda mais repercussão.

 

Não é o primeiro caso (e tudo indica que não será o último)

A situação remete a polêmicas anteriores, como a da influenciadora Lola Lolita, que foi duramente criticada após mostrar uma bolsa de 4 mil euros.

Em ambos os casos, a discussão se deslocou da aquisição de itens de luxo para a representação de um estilo de vida completamente desconectado do cotidiano da maioria.

O debate ganha contornos ainda mais profundos quando se considera a origem de muitas dessas influenciadoras, que começaram suas carreiras compartilhando dicas simples e acessíveis.

Com o crescimento da fama e contratos milionários, essas figuras se tornaram, aos olhos do público, parte de uma elite digital que perdeu o contato com suas origens e com a comunidade que as impulsionou.

O movimento de desconexão com o grande público está diretamente alinhado com a ascensão monetária desses influenciadores.

Conforme esses produtores de conteúdo vão se tornando cada vez maiores, as grandes marcas começam a procurar essas pessoas para divulgar os seus produtos. E, em muitos casos, são itns que a grande maioria dos seus seguidores simplesmente não pode comprar.

No final das contas, vira o marketing da ostentação. E nada mais.

 

É uma estratégia (perigosa)

A socióloga Silvia Muelas argumenta que, para manterem a relevância, esses criadores frequentemente apostam em conteúdo polêmico ou exibicionista, o que pode acabar revelando um comportamento desconectado da realidade.

A estratégia é eficaz no curto prazo, mas contribui para uma crise de identidade do setor: os influenciadores ainda representam seus seguidores ou apenas alimentam uma fantasia inalcançável?

A que esses influenciadores querem influenciar? Apenas e tão somente a elite? Ou só querem mesmo esfregar na cara de todo mundo que a maioria não tem dinheiro para comprar os produtos recomendados?

E por que fazem isso? Acreditam que vão motivar os seus fãs a persistirem para alcançar esse status de compra? Ou só o fazem para humilhar que nunca vai poder comprar aquele item?

A discussão sobre o pente de 170 euros é símbolo de uma crise maior que envolve classe, status e identidade digital.

Com a crescente percepção de que muitos influenciadores vivem em uma bolha de privilégios, surgem questionamentos sobre o futuro dessa forma de comunicação e sua capacidade de realmente influenciar.

Eu nem preciso dizer que o efeito funciona da mesma forma aqui no Brasil. Virgínia e Deolane são apenas dois nomes de uma longa lista de influenciadores digitais que apostam na mesma estratégia.

Coincidência (ou não), o próximo passo do influencer ostentação é sempre a oferta de ganhos rápidos, através de métodos questionáveis.

Por que será?

 

Via Wired


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