Press "Enter" to skip to content

O grande vilão da crise nos smartphones: a fome insaciável da inteligência artificial

Se você perguntasse há alguns anos qual seria a maior ameaça à indústria de smartphones (e da tecnologia de consumo, porque não), provavelmente ouviria respostas como “falta de inovação” ou “concorrência chinesa”.

Poucos diriam que a culpada seria a inteligência artificial, já que este era um conceito um tanto quanto distante de nossas vidas. Mas é exatamente isso que está acontecendo neste exato momento.

A corrida armamentista da IA, com seus data centers monstruosos e servidores que precisam processar quantidades inimagináveis de dados, criou uma demanda absurda por chips de memória de alto desempenho. E o cenário para 2026 é algo simplesmente desolador.

 

Fabricantes fizeram escolha conveniente

Os fabricantes de memória, como a Samsung, SK Hynix e Micron, viram seus negócios mudarem da noite para o dia. E quem está pagando a conta é o consumidor, que vai ver smartphones, tablets e notebooks custando muito mais caro do que o normal.

De repente, vender chips para smartphones, que têm margens de lucro cada vez mais apertadas, ficou em segundo plano. O dinheiro de verdade, e em volumes muito maiores, estava em atender às necessidades das gigantes de tecnologia que constroem a infraestrutura para a IA, como Amazon, Google e Microsoft.

São clientes que pagam mais, compram em escala industrial e não estão nem aí para o preço final do seu próximo celular. Já o usuário final, aquele que impulsiona as marcas junto ao grande público, que fique relevado aos preços excessivamente elevados ou, em alguns casos, inalcançáveis.

 

A implacável lei da oferta e procura

É a mais pura lógica da oferta e da procura.

A capacidade de produção de memória é finita, e levou anos para ser construída. Com a IA sugando toda a produção de ponta, especialmente as memórias de alta largura de banda (HBM), sobrou menos para os consumidores comuns.

Como bem resumiu o CEO da Qualcomm, Cristiano Amon, o problema não é (só) o preço, mas a disponibilidade. As empresas gostariam de comprar mais, mas simplesmente não há memória para todos.

Para os eletrônicos de consumo, especialmente aqueles que oferecem para o consumidor final a melhor relação custo-benefício, o impacto é sempre muito maior.

Já são produtos que não entregam grandes margens de lucro para os fabricantes. E investir dinheiro em memórias que poderiam ser destinadas para produtos mais caros pode ser o mesmo que jogar dinheiro em um incinerador.

 

Um efeito dominó perverso

A escassez de memórias elevou os preços dos dispositivos, e a expectativa é que o preço médio dos smartphones salte 14% em 2026, atingindo a cifra recorde de 523 dólares.

Ou seja, vamos pagar mais caro por aparelhos que, em muitos casos, podem vir até com menos memória do que as gerações anteriores, já que os fabricantes estão reduzindo especificações para cortar custos.

Sim, eu sei. Isso não tem nada de justo, e muitos usuários simplesmente não vão investir dinheiro em produtos caros com especificações técnicas defasadas.

A grande maioria deve ficar com o seu dispositivo atual por mais tempo, esperando o tempo passar, na esperança de poder driblar de alguma forma esses reajustes.

E é aqui que está o grande problema para os fabricantes. Sem a rotatividade do mercado nas vendas, os lucros caem, e a crise só aumenta.

É uma bola de neve que pode aumentar de tamanho rapidamente, esmagando quem estiver pelo caminho. Principalmente as marcas menores, que não contam com a mesma robustez financeira de uma Apple ou Samsung.

Pode ser um massacre sem precedentes.

 

Via Bloomberg