
Marvel Studios: completamente perdida.
Nem mesmo o recente sucesso de ‘Quarteto Fantástico: Primeiros Passos’ afasta a ideia de que a era de domínio absoluto nos cinemas da Marvel Studios parece ter ficado no passado. E todas as apostas para retomar o controle de tudo está em ‘Vingadores: Doomsday’, projeto considerado estratégico para resgatar a confiança do público e garantir a longevidade do estúdio.
Um projeto ambicioso, em vários aspectos. Desde o risco máximo de chamar de volta Robert Downey Jr. até na inclusão do Doutor Destino sem o desenvolvimento narrativo adequado para o vilão.
E a mais recente notícia liga o sinal de alerta máximo para todo mundo que tem bom senso e, ao mesmo tempo, deseja boas ideias no cinema: a Marvel está repetindo um dos erros mais criticados de sua trajetória — iniciar filmagens com o roteiro ainda inacabado.
Vamos improvisar! O que pode dar errado?

A informação veio à tona durante a última edição da Comic-Con, quando a atriz Rebecca Romijn, confirmada no papel de Mística no próximo filme dos Vingadores, foi questionada sobre a conclusão de suas cenas no novo longa dos Irmãos Russo.
A resposta da atriz foi algo surpreendente:
“Eles não terminaram de escrever o roteiro. Tem sido hilário e ainda não sabemos. Eles mantêm tudo em segredo para manter tudo seguro”.
A declaração não apenas escancara o nível de improviso da produção como revela que, três meses após o início das gravações, o texto do filme ainda está em construção.
Isso é de um nível de amadorismo que chega a ser chocante.
Mais do que isso: rumores apontam que os irmãos Russo deram “liberdade criativa total” para que Robert Downey Jr. desenvolva a sua versão de Victor von Doom/Doutor Destino, tirando essa função dos diretores e de roteiristas.
Por mais que eu confie na mente de um ator vencedor do Oscar, eu não consigo parar de pensar na ideia de que ele não deveria fazer essa função. Apenas e tão somente porque existem pessoas que são profissionais dedicados e especializados na função.
Um erro que a Marvel já cometeu

Esse modus operandi não é novidade no MCU, mas é cada vez mais apontado como um fator de desgaste. E a tática está gerando reflexos negativos diversos dentro da Marvel Studios.
Kevin Feige, presidente da p*rr@ toda, declarou recentemente que o motivo para o adiamento de ‘Blade’ foi justamente o desejo de não repetir esse erro e só avançar com um roteiro sólido.
Ou seja, o grande cabeção é, também, o rei da incoerência. E por tabela, confirma para todo e qualquer bom entendedor que realmente se desesperou ao trazer de volta três dos elementos de sucesso dos últimos filmes dos Vingadores, entregando tudo o que eles querem…
…incluindo aquilo que foi negado para outros diretores e roteiristas.
A contradição entre o discurso institucional e a prática em ‘Vingadores: Doomsday’ é evidente e levanta dúvidas justas sobre a consistência das decisões criativas dentro do estúdio.
As chances de tudo isso virar uma enorme torre de babel são enormes, e é preocupante pensar que a Marvel vai perder uma enorme oportunidade de fazer algo ótimo com um vilão icônico apenas e tão somente por causa dessa combinação perigosa de incoerência combinada com desespero.
Historicamente, a improvisação nos bastidores da Marvel teve momentos de sucesso, mas os prejuízos superam os ganhos. Buracos narrativos, promessas não cumpridas e finais apressados viraram queixas recorrentes entre os fãs.
Ou vai me dizer que você está feliz com um monte de cenas pós-créditos que saem do nada e vão para lugar nenhum?
James Gunn sempre foi contra

James Gunn, que sempre teve um grande rigor na preparação dos roteiros, saiu da Marvel e reforçou a ideia de ter um plano sólido para ser executado.
Agora à frente do novo universo cinematográfico da DC, o diretor não poupou críticas à prática:
“A razão número um pela qual a indústria cinematográfica está morrendo é porque as pessoas estão fazendo filmes sem um roteiro finalizado”.
Não sei se essa postura de improvisar tudo nas histórias é excesso de confiança, preguiça, falta de profissionalismo ou uma vontade louca de deixar tudo para o ChatGPT.
Fato é que, com uma base de fãs cada vez mais exigente e um mercado saturado de super-heróis, a Marvel não pode se dar ao luxo de errar em um projeto com o peso de ‘Doomsday’.
Mais do que isso: o próximo filme dos Vingadores se tornou vital para a sobrevivência do MCU, tal e como conhecemos – e eu mal acredito no que eu acabei de escrever.
Tudo bem, eu aceito que atrasos aconteçam nos projetos. E até prefiro, porque é melhor atrasar e concertar a rota de tudo do que entregar conceitos totalmente cagados.
Planejamento significa solidez narrativa. E tudo o que o público quer é assistir a boas histórias.
Começar as gravações sem um roteiro pronto pode representar uma economia de tempo a curto prazo, mas os custos a longo prazo, em termos de qualidade e reputação, podem ser irreparáveis.
Sem falar no dinheiro a mais que você gasta depois para corrigir o erro de escrever uma história sem pé nem cabeça, já que tudo pareceu um esquete de humor improvisado.
Aliás, que fique o registro: nem mesmo o Saturday Night Live que, aparentemente, é algo semicaótico para os roteiristas (pois precisam produzir piadas em massa em poucos dias) há muito espaço para improviso.
Dito isso, a Marvel Studios não tem motivos razoáveis para fazer exatamente o contrário do que a lógica racional prega.
Nem parece que o Kevin Feige tem aquela cabeça enorme diante de tantos pensamentos equivocados sobre o desenvolvimento criativo de um filme decente.

