
Estamos cada vez mais sozinhos em um mundo altamente conectado. E é triste pensar que o único amigo de muitas pessoas neste momento é a inteligência artificial.
E isso foi antecipado pelo filme “Ela” de forma (quase) perfeita. O problema é pensar que toda essa galera pode ter o mesmo fim que “2001: Uma Odisseia no Espaço”
Vários usuários do Reddit relatam que o ChatGPT se tornou seu “melhor amigo”, criando vínculos emocionais com a ferramenta de IA, o que é obviamente muito perigoso para a saúde mental dessas pessoas.
Vamos tentar entender o que está acontecendo, e a dimensão do problema.
Por que o ChatGPT está consolando a muitas pessoas

Pessoas em situações de vulnerabilidade emocional, como aquelas que passaram por términos traumáticos de relacionamentos, encontram no ChatGPT um substituto para conexões humanas.
Elas reconhecem que se trata de um sistema sintético, mas valorizam o fato de que a IA não julga, está sempre disponível e demonstra interesse genuíno em suas questões pessoais.
Outras plataformas como Replika e Woebot oferecem conversas específicas para suporte emocional, enquanto outras ferramentas auxiliam em terapia de casal ou relacionamentos românticos com pessoas reais.
Essa tendência tem raízes no declínio do capital social identificado por Robert Putnam em 2000.
O sociólogo documentou a diminuição das relações sociais presenciais nos Estados Unidos desde 1950, simbolizada pelo paradoxo do boliche: mesmo com um aumento no número de pessoas que jogam boliche individualmente, há uma diminuição no número de pessoas que participam das ligas e campeonatos.
A tecnologia moderna contribui para o isolamento social
Estudos mostram que quase 40% dos adultos se sentem mais solitários devido ao uso de redes sociais. Passar mais de duas horas diárias nessas plataformas está associado ao aumento da solidão, especialmente quando o uso é passivo (consumindo mais do que produzindo).
Usar a internet por 10 horas ou mais por semana reduz substancialmente o tempo dedicado a interações presenciais ou telefônicas com amigos e familiares, deixando a brecha para que as IAs preencham o vazio deixado pelas relações humanas.
E isso não está acontecendo necessariamente porque as pessoas se afastaram do internauta. É o contrário: foi o adepto das redes sociais que se isolou, inclusive para seguir mais tempo interagindo com o ChatGPT.
Como será o amanhã?

Responda quem puder.
Neste momento, a aposta é para que essa tendência de interação com chatbots de IA se intensifique com a otimização de formatos e soluções.
O desenvolvimento de vozes mais realistas e empáticas vai deixar a experiência de interação com a inteligência artificial algo ainda mais convincente. Se o ChatGPT, com suas limitações atuais, já proporciona sensação de acolhimento, versões futuras podem minar ainda mais profundamente as relações interpessoais tradicionais.
A questão central não é se essa transformação acontecerá, mas se seremos capazes de detectar e compreender seus impactos nas estruturas sociais humanas.
No final das contas, tudo o que acontece é reflexo e consequência de nossas próprias escolhas.
Nos tornamos mais distantes das pessoas. Menos tolerantes e mais fragmentados nos tecidos sociais. Nos afastamos pelas diferentes visões de mundo e pela nossa incapacidade de ouvir o contraditório.
A internet e as redes sociais só aceleraram o processo.
E a inteligência artificial pode ser o ponto final de um problema que pode ter impactos sensíveis no coletivo.
